Associação de pós-graduações em filosofia não publica textos contrários à ideologia dominante

Uma associação de programas de pós-graduação em filosofia deveria ser exemplo de pluralidade de pensamento, e deveria se focar sempre na qualidade dos argumentos, não na identidade de quem os formula. A julgar pelo relato de Bruna Frascolla sobre a não publicação de seu texto crítico (que reproduzimos exclusivamente abaixo), este não está sendo o caso da ANPOF.

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A Associação Nacional da Pós-Graduação em Filosofia, ANPOF, começou na gestão passada a manter uma coluna, à qual podiam enviar textos qualquer professor ou pós-graduando em filosofia. A gestão mudou, e notei haver na coluna uma intenso interesse por crítica ao machismo, capitalismo, racismo etc e pela defesa de “filosofias” novas com viés identitário. No que concernia à discussão do machismo, notei que todos sempre se baseavam num dogma ao tecer críticas. Por isso, resolvi enviar meu próprio texto, a fim de extirpá-lo e sanear a discussão. No entanto, ao questionar sobre o envio, foi-me dito que “presentemente a Coluna Anpof tem publicado textos de autores convidados, de acordo com o planejamento do editor. Textos de autores não convidados podem ser enviados para […] e poderão ser publicados ou não, segundo juízo do editor.” Enviei meu texto, e nunca foi publicado.

Removamos um dogma da discussão sobre mulheres na filosofia

Por Bruna Frascolla Bloise

Doutoranda em filosofia da UFBa

            Uma preocupação atual na filosofia é discutir gênero e criticar a pouca presença feminina na filosofia. É inegável que na história humanidade as mulheres foram oprimidas pelo simples fato de serem mulheres: fisicamente mais fracas, estavam sujeitas à dominação masculina pelo uso da força bruta; sem avanços sociais, eram compulsoriamente lançadas ao papel exclusivo de mães e donas de casa; sem avanços culturais, qualquer desvio desse comportamento de mãe recatada seria imoral. A  hipotética irmã de Shakespeare, pensada por Woolf, tem sua materialização em Marianne Mozart, irmã de Amadeus. Uma mulher tão talentosa quanto Shakespeare, para começo de conversa, sequer seria alfabetizada – e, se alfabetizada, não conviria a uma mocinha meter-se em ambiente devasso como o do palco. O que é inegável, e acerca do que temos de estar todos de acordo, é que as mulheres, ao longo da história da humanidade, não tiveram chances de se desenvolver intelectualmente. Parideiras e rainhas do lar não precisam saber ler, e não devem viver na rua.

            No entanto, dessa desigualdade advinda da falta de oportunidade e da repressão, uma consequência vem sendo tirada precipitadamente: a de que, se houvesse tal igualdade, os resultados seriam todos iguais entre os sexos. Se em filosofia há poucas mulheres (trans ou não) e muitos homens, então isso só poderia significar que estamos fazendo algo de errado, pois deveria haver algo em torno de cinquenta por cento de homens e de mulheres.

            Ora, asserir que igualdade de oportunidade implica igualdade de resultado é asserir um fato. Fatos precisam de comprovação. Comprovação de fatos se dá através da experiência. Assim, antes de dizer que há um problema na comunidade filosófica ou que ela seja machista, é preciso ver o que podemos aprender com os fatos.

            Em primeiro lugar, é de estranhar que a preocupação com o alto percentual de homens na filosofia seja desacompanhada de considerações sobre o alto percentual de mulheres em psicologia. Os psicólogos homens serão oprimidos por alguma espécie de matriarcado? Quem quiser defender que sim, sou toda ouvidos; até lá, considerarei que não. Será que colocar mulheres como psicólogas e homens como filósofos é de alguma forma bom para a sujeição feminina? Duvido muito: ambos podemos seguir carreira universitária (que é a mais prestigiada e remunerada entre nós de filosofia); só eles podem ser psicólogos, e só nós professores de ensino médio – mas psicólogas têm maiores perspectivas de ascensão financeira do que professores de escola. Logo, o que se pode concluir é que há motivos por nós desconhecidos que levam gente de diferentes sexos a escolher diferentes cursos.

            Nisto, a experiência mais uma vez nos ajuda. Peço a quem de fato se interessar pelo tema que pesquise o paradoxo norueguês: no país de maior igualdade entre os sexos, com mulheres galgando altas posições e tendo todas as oportunidades, os engenheiros são em geral homens e os enfermeiros são em geral mulheres. A rede pública da Noruega fez um documentário que se encontra legendado em inglês e disponível aqui.

            Não à toa, a querela se dá entre pesquisadores dos gender studies e cientistas. De um lado, o jeito que fomos tratados em nossos berços determinaria toda a nossa vida futura, inclusive o curso que faremos (mas não sei como, admitindo esse determinismo cultural, explicam a existência de transexuais…); de outro, há diferenças nos cérebros que ajudam a explicar por que certos cursos são preferidos por homens. É estranho supor que sejamos um animal tão único que seu cérebro não se deixe afetar pelo vagalhão de hormônios que recebe. Se as pessoas tiverem tendências inatas, e não estiverem em apuros para ganhar dinheiro, escolherão simplesmente a profissão de que mais gostam. Indianas com problemas financeiros fariam programação; norueguesas, à vontade, seriam psicólogas. É apenas hipótese, naturalmente, como tudo em ciência. Verdades absolutas e imunes à refutação quem tem são os dogmáticos. E é de notar que, do lado dos gender studies, haja a condenação explícita às pesquisas feitas sobre diferenças cerebrais entre homens e mulheres. Posição tão avessa ao Sapere aude deveria disparar alarmes na comunidade filosófica.

            Longe de mim dar a questão por resolvida. Contento-me em deixá-la aberta, uma vez que admitamos que ela existe, a saber: igualdade de oportunidade implica igualdade de resultado? Dizer que implica sem embasar a resposta em fatos é dogmatismo.

            Por fim, como tais assuntos sempre suscitam mal-entendidos, quero deixar claro que, ainda que admitamos que no ambiente da filosofia tenda a haver mais homens, disso não se segue nenhuma inferiorização da mulher que faça filosofia, nem mesmo que não haja machismo no meio acadêmico. Segue-se apenas que não é de admirar que existam mais homens do que mulheres na filosofia, e que tal discrepância não é uma consequência necessária de machismo.

O delírio irracionalista

Por José Guilherme Merquior

Originalmente publicado em 14 de março de 1981, no Jornal do Brasil.

            A missão “política” da crítica liberal é combater a intolerância ideológica. Sua tarefa epistemológica – sua missão no campo do conhecimento – é restaurar o sentido da objetividade. Um dos maiores vícios da frívola mentalidade “humanística” de nossos dias consiste na tendência a promover a permissividade epistemológica a[1] pretexto de virtuosa tolerância ante a diversidade de opiniões. Mas a verdade é que, enquanto a tolerância frente a multiplicidade de posições e correntes ideológicas é um inestimável valor social, a indulgência indiscriminada em face das teorias e interpretações é uma autêntica abdicação intelectual. Devemos, como Voltaire, defender até o fim o direito dos outros à discordância – mas isso absolutamente não implica que se renuncie ao direito de julgar as ideias conforme critérios rigorosos de observância lógica e veracidade empírica.

            Tal direito, nas mãos de quem quer que professe a pesquisa da realidade, natural ou social, se converte num dever da inteligência. O humanistazinho que vem nos dizer que a obra de Kafka é “polissêmica” e que, “portanto”, cada uma de suas contraditórias interpretações é “tão válida quanto a outra” não é um tolerante simpaticão – é um pobre de espírito ou um medroso mental, alguém incapaz de cumprir uma das mais nobres entre as aspirações humanas: a de procurar a verdade. Ninguém, é certo, pode legitimamente ser considerado “dono da verdade” – exceto a própria realidade, o princípio perfeitamente objetivo do conhecimento do real. Não levar isso em conta é confundir liberdade crítica com licença relativista. A obra de Kafka é sem dúvida polissêmica e até ambígua; mas seus níveis de sentido são suficientemente hierarquizados para que uns valham mais que outros e algumas de suas “leituras” são, simplesmente, falsas – desmentidas pela verdade do texto e do seu contexto cultural. Portanto, todas as interpretações não se equivalem.

            Um dos cavalos de batalha do relativismo humanista é a denúncia do “dogmatismo” da certeza científica. Como se, depois de Popper, ainda coubesse identificar conhecimento objetivo e certeza inconcussa – exatamente o que nega a teoria popperiana da falseabilidade das hipóteses científicas, de resto aprimoradas pelas análises de outro epistemólogo da London School of Economics, Imre Lakatos.

            Outro cavalo de batalha humanista é uma refutação irrefletida da tese da unidade da ciência, também xingada de preconceito “positivista”. Os humanistas contemporâneos são quase todos adeptos de uma concepção culturalista, antinaturalista do saber – de votos de Dilthey na filosofia de ontem, ou de Habermas, na de hoje. No entanto, quando examinamos os argumentos correntes contra a aplicabilidade de critérios científicos às humanidades, deparamos é com uma vasta coleção de equívocos. Mencionemos apenas três. Não é possível – alega-se – analisar de modo científico uma obra de arte, ou um acontecimento histórico, porque sua característica número um é a unicidade; ora, a ciência busca leis, e diante dela é preciso repetir o sábio dito de Goethe: “Individuum est ineffabile”. Infelizmente, para os humanistas, se a ciência recuasse tanto diante do único e do irrepetível, a geologia não seria uma ciência natural… Bom – replica o humanismo epistemológico –, mas e a experimentação? não podemos experimentar com fatos sociais, logo não podemos verificá-los cientificamente. Decerto – só que tampouco se experimenta em astronomia, a própria disciplina que hospedou a formação galileana da ciência moderna… Último argumento: a complexidade das variáveis que entram em jogo nos fenômenos sociais. E todavia, elas não são menos numerosas, nem menos complexas, no terreno da meteorologia. Moral: a menos que esteja disposto a acolher geologia, astronomia e meteorologia nas humanidades, o humanista se acha obrigado a renunciar aos tabus da unicidade, do experimento e da complexidade como álibi para eximir o humano dos critérios de análise científica.

            Notem que não estou propondo desvalorizar nada em favor do científico. Não me passa pela cabeça, por exemplo, requerer a cientifização da moral ou reger a arte, como outrora quis a utopia dos naturalistas à Zola, pelos ditames da ciência. É preciso deixar bem claro que o cientificismo, o imperialismo ideológico da ciência, não é científico. De resto, historicamente, o cientificismo é uma perversão da metafísica, não o produto bastardo de nenhuma ciência.

            Como prova de que nossa defesa da ciência não é imperialista, direi uma palavra acerca de um fenômeno curiosamente ligado a pressupostos cientificistas, e não obstante negligenciado pelo humanismo reinante. Trata-se do modo de educação estética que tende a prevalecer em nossa sociedade. Na sociedade burguesa tradicional, a familiarização do indivíduo com a chamada alta cultura – a alta literatura, a música erudita, as belas artes – se processava primordialmente, senão exclusivamente, fora da universidade. Ninguém ia aprender literatura na faculdade de letras; lá, no máximo – e graças à erudição filológica vigorosamente acumulada desde a era romântica – se podia aprender muito sobre literatura. Hoje, em contraste, tudo se passa como se o aluno chegasse literariamente virgem ao primeiro ano dos cursos de letras. Em outros termos, o futuro especialista é geralmente um inculto, cuja instrução não mais se nutre de uma prévia educação. Pode alguém se admirar de que semelhante idiot savant, surdo à música de um bom verso, insensível a um só tempo à ars e à sofisticação humana dos grandes textos literários, presa da insegurança da sua incidência, mergulhe no fetichismo dos modelinhos pseudo-rigorosos de análise do que ele jamais assimilou? Ouçamos o protesto de Roger Shattuck, corajoso desmistificador do ensino das letras nos Estados Unidos: “Hoje em dia espera-se dos estudantes uma leitura mais extensa e mais cuidadosa de teoria literária e metodologia do que de obras literárias.”

            Imaginem que Shattuck chega a recomendar, como remédio para a institucionalização da barbárie no ensino de letras, que se reviva o hábito de ler, e ler em voz alta, os clássicos antigos e modernos!… Onde iríamos parar se o senso de literatura partir da leitura, da vivência do poema ou do livro?… Como sabemos, em nossa gloriosa civilização universitária, a ingênua palavra “leitura” virou um pedante sinônimo de exegese. Críticos que não sabem ler (e muito menos escrever, o que não os impede de galgar até mesmo a direção de alguns departamentos de letras) perpetram “leituras” e mais “leituras” sobre o que tresleram, para os que não leram… Vivemos sob o império da estranha raça dos hermeneutas apedeutas.

            Max Weber, que ninguém jamais ousou considerar um simplório na matéria, aconselhava a preocupação com o método, em ciências humanas, a fugir da “pestilência metodológica”. O problema é que, na atual situação das humanidades, seu conselho é dificílimo de aplicar. O reino do publish or perish, – da publicação competitiva, da tese pela tese, antítese do verdadeiro estudo, da corrida ao grau e do psitacismo doutoral – encoraja e estimula o pseudoespecialismo, e não há pseudoespecialismo sem idolatria do método e fanatismo do modelo.

            Gerald Graff, um professor da Northwestern University que tem assombrado Berkeley com sua repulsa aos credos críticos em voga, julga que o boom da “desconstrução” dos Derrida e Paul de Man está em conexão estreita com o furor publicandi acadêmico. De fato, o sistema do publish or perish acarreta fatalmente o colapso de padrões rigorosos de avaliação da produção crítica universitária, já que a quantidade de publicações é por si só incompatível com uma qualidade intelectual superior. Nessas condições, porém, uma escola de crítica que ataca como repressiva (e “logocêntrica”) a própria ideia de interpretação correta parece fadada ao triunfo. A anarquia da exegese, o obscuro e monótono ritual da “desconstrução”, confere status filosófico ao triste resultado da inchação universitária.

            Os pseudoespecialismos não são bobos: na maioria dos casos, se apresentam como exemplos de fecundidade “interdisciplinar”. Mas só um inocente não veria que sua verdadeira relação com as outras disciplinas – com a filosofia, a linguística ou as ciências sociais, ou com outras indisciplinas, como a psicanálise – é uma relação de pilhagem e não de intercâmbio ou assimilação. Desde a maré estruturaloide, a crítica saqueia teorias alheias com muito mais arbitrariedade que discernimento. A consequência não é nenhum cruzamento cognitivo digno desse nome, e sim um contágio esclerosante de elucubrações mistificatórias – a farra da teorização irresponsável.

            Todo esse manso delírio irracionalista se vê reforçado pelas premissas irracionais da mentalidade literária identificada, epigonicamente, com o alto modernismo europeu. Graff tem sido um dos críticos da principal dessas premissas: a confusa noção de que a realidade não tem sentido, mas a literatura encarna um conjunto de vagos “valores” de suprema importância na luta contra o curso alienante da história… Em suma: o que venho chamando, desde O Fantasma Romântico, de guerra do modernismo contra a modernidade. Poderíamos considerar a apologia do “método mítico” da literatura moderna, feito por T. S. Eliot em seu célebre artigo em louvor ao Ulisses (1923) de Joyce, como o arquétipo desse posicionamento. Segundo Eliot, a vantagem do método mítico (minimizado por Pound em sua apreciação, também positiva, de Joyce) estava em seu poder de negação “da anarquia e futilidade de nossa época”. Falando claro: o mundo moderno não passa de um lixo…

            À saída do trauma da Grande Guerra, esse tipo de visão niilista da história moderna era pelo menos compreensível. Mas o anátema brandido contra a civilização pelos neomodernistas de plantão, os modernosos arautos da contracultura e das suas rebeliões prêt-à-porter, não tem sequer essa desculpa: já não é mais possível convencer ninguém de que a maneira mais inteligente de  reagir ao processo histórico é o acesso histérico de intelectuais preconceituosamente sublevados contra as sociedades de massas.

            O que a ideologia humanista mobiliza contra os valores da civilização industrial é que é, isso sim, um efeito mórbido da sociedade de massas – o despreparo e a incultura das submassas intelectuais no supermercado universitário. Nele, o ensino das letras e o aprendizado das ciências humanas ao mesmo tempo se imuniza contra a crítica racional e se compraz em agredir irracionalmente a sociedade, a começar pelos seus aspectos historicamente mais progressistas: a ciência e as instituições liberais. A contra-elite “humanista”, cujo amor pelo povo pode ser medido  pelo desdém com que ela julga as massas inteiramente “alienadas”, abandona alegremente o cuidado racional com a objetividade do conhecimento em troca de um profetismo apocalíptico, tão leviano quanto imaturo.

            Marginais burocráticos, rebeldes estatutários, mandarins “heréticos” (mas espantosamente conformistas), esses intelectuais aspirantes a intelligentsia constituem um crescente “clero” leigo, que atraiçoa o pensamento crítico em nome de um radicalismo ritualista. Na aurora da escolástica, a teologia buscou uma aliança com a[2] razão: fides quaerens intellectus.[3] No crepúsculo da consciência “vanguardista”, das seitas radicais em arte e política, é o oposto que se verifica – o intelecto se despede da razão, e lhe prefere as crendices de uma mentalidade apocalíptica transformada em jargão do espírito desempregado: intellectus quaerens fidem. É tempo de lembrar aos funcionários do humanismo de apostila que o único compromisso da inteligência é com a razão, e que o humanismo é algo demasiado valioso para ser confiado ao desvario dos humanistas.


[1]No original há “e” em vez de “a”. Julgamos tratar-se de erro tipográfico.

[2]Inserimos o “a” por julgar que sua ausência é outro erro tipográfico.

[3]Em latim: “A fé que busca o intelecto.” Adiante “o intelecto que busca a fé”.

Quem ensina aos nossos estudantes que palavras são violência?

por Malhar Mali*, em Areo Magazine

Na semana passada, Ulrich Baer, um vice-reitor e professor de inglês da Universidade de Nova York, escreveu um surpreendente ensaio contra a liberdade de expressão no New York Times. Baer descreveu o debate como um dos discursantes operando para “invalidar a humanidade” dos outros — justificando assim a censura dos estudantes aos discursos que eles não apreciam. Mas ao fazê-lo, revelou muito sobre sua mentalidade e sobre a mentalidade de muitos acadêmicos nas humanidades. No fim das contas, quem ensina aos estudantes que discursos são perigosos, as idéias que promovem a reação que já nos acostumamos por parte dos “floquinhos de neve”, ou que qualquer um que não seja um homem branco heterossexual está sofrendo opressões em um nível sem precedentes? [N. do E.: é comum retratar metaforicamente pessoas que se acham muito frágeis e especiais como “flocos de neve”, em inglês.]

O ensaio de Baer já foi criticado por Conor Fridsdorf em The Atlantic e por Ted Gup em The Cronicle. Estou mais interessado em explorar como Baer argumenta e como isso nos revela um insight acerca do modo ridículo como os estudantes têm se comportado.

A mais comicamente perturbadora afirmação de Baer ao referenciar as opiniões potencialmente odiosas de palestrantes foi:

“se as opiniões invalidam a humanidade de alguém, então elas restringem a fala como um bem público”

Opiniões que invalidam a humanidade de alguém? O conceito de que opiniões invalidam a humanidade de grupos inteiros de pessoas é uma hipérbole absurda. Um espectador tem de simplesmente rejeitar o que ouviu para manter sua “humanidade” intacta. Violência é um ato físico. Discursos, não. Se alguém me soca eu sinto o impacto. Não é a mesma coisa de alguém me depreciando à enésima potência com meras palavras. Pensar que um educador mantém opiniões que de fato confundem palavras com violência nos dá uma pista de onde os estudantes tiraram suas idéias — noções tão repetidas em seu meio até que sejam raivosamente papagaiadas com o zelo de sermões religiosos do passado.

Ainda, os sinais de alerta mais importantes do ensaio de Baer são que ele é um professor de inglês e que referencia Jean François Lyotard (e seu livro A Condição Pós-Moderna) como justificativa para seu posicionamento. Como notou Phil Magness, professor de história na George Mason University, após análise dos manifestos de desconvite a palestrantes em campi (também assinados por professores), os departamentos de “artes liberais”, dos quais a cátedra de inglês faz parte, formam a comunidade que mais abriga indivíduos que se opõem à liberdade de expressão. Descrevendo a tendência encontrada, Magness escreve:

“o padrão em cada caso é alarmante, sugerindo que estas e potencialmente outras organizações tentam limitar a liberdade acadêmica de seus colegas e estudantes, não sendo ocorrências aleatoriamente distribuídas. Ao contrário, elas parecem se concentrar pesadamente nas humanidades, com os departamentos de inglês/artes liberais invariavelmente tomando a dianteira. Com isso em mente, talvez seja a hora de perguntar: por que há tantos representantes de inglês/artes liberais mostrando hostilidade à liberdade acadêmica de seus próprios colegas e alunos?”

Estes são os departamentos onde as idéias corrosivas pós-modernas e pós-estruturalistas são mais arraigadas — à lá Lyotard, Foucault, Derrida, Lacan. E como aponta Jason Brennan, professor de economia da Georgetown University, em conjunto com Magness:

“acontece destes serem, justamente, os departamentos com o maior ativismo e a menor qualidade de ‘pesquisa’: estão cheios de pós-estruturalistas, ideólogos e pessoas que fazem um trabalho relaxado que jamais seria aceito nos departamentos de economia ou ciências políticas. Os acadêmicos menos qualificados a emitir opiniões sobre política são os mais barulhentos ao fazê-lo.”

Professores ativistas incapazes de sobreviver nas disciplinas mais árduas (apenas veja as bizarrices da autoetnografia) são os mais vociferantes nas tentativas de limitação das liberdades acadêmicas alheias. Dado tudo isso, não admira que Baer mantenha as opiniões que mantém. Nem é surpreendente que professores de inglês publiquem ensaios pedindo pela limitação da liberdade de expressão, como os de Aaron R. Hanlon (profesor de Inglês na Colby College) no New Republic ou os de John Patrick Leary (professor de inglês na Wayne State University) no Inside Higher Education. Também é calculável que os alunos de Yale sejam frequentemente os mais agressivos. O próprio Baer descreve quão infestada de pensamento pós-estruturalista está a academia quando escreve:

“talvez seja loquaz o fato de que durante os anos 80 e 90, quando eu era um estudante de doutorado, Yale tenha se tornado o viveiro do pensamento filosófico que reconhecia as alegações de gente cuja participação não era garantida no debate público. Suas crônicas, antes desprezadas como ‘indizíveis’ ou ‘inimagináveis’, agora ganharam legitimidade na definição das regras acerca do que constitui o discurso público.”

Mantenha em mente o que diz Baer e assista ao vídeo abaixo [em inglês], em que alunos privilegiam suas “experiências pessoais” sobre os argumentos de Nicholas Christakis. Note, em particular, o que um estudante diz, “suas experiências nunca se conectarão às minhas”. Empatia não é necessária para compreender que você está errado… mesmo que você não sinta o que eu sinto.

Espero que você esteja ligando os pontos entre “as últimas poucas décadas de estudo que promoveram nosso entendimento dos direitos de expressão”, referidas por Baer, e o modo como os estudantes têm se comportado ultimamente. Baer usa o mesmo argumento para censurar discursos. É a idéia de Lyotard de micro-narrativas sobre meta-narrativas levada a extremos absurdos. Experiência pessoal sobrepuja evidência empírica. Quem pode negar minha verdade e o que eu sinto?

E de onde os estudantes tiram essas idéias? De alguns de seus professores. Esses conceitos — de que refutar um argumento é penoso aos estudantes ou lhes invalida sua humanidade, ou que temos de crer mais na experiência de alguém do que em seus argumentos — são difundidos e se tornaram ridículas e estranhas teorizações e discurso acadêmico destacado da realidade. Tome como exemplo o e-mail da Comissão de Raça, Etnia e Equidade do Wellesley College em resposta à aparição da feminista Laura Kipnis na escola, preocupada com o bem-estar dos estudantes que “frequentemente se sentem mais agudamente magoados e investem tempo e energia refutando os argumentos dos palestrantes”. O e-mail diz “estudantes objetam para afirmar sua humanidade” e “este trabalho não é opcional; eles sentem que seriam inaptos a continuar com suas responsabilidades estudantis sem se defender”. Ou veja este texto de Nora Barenstain (professora de filosofia da Universidade do Tennessee em Knoxville), em resposta a um artigo filosófico de Rebecca Tuvel no jornal feminista Hypatia, no qual afirma que se transexualidade é possível, então transracialismo também o é. Preste atenção especial à primeira e última frases:

“Tuvel comete violência e perpetua danos de inúmeras formas ao longo de seu ensaio. Ela se refere de modo inadequado a uma mulher transsexual. Ela usa o termo ‘transexualismo’. Ela usa termos como ‘sexo biológico’ e ‘genitália masculina’. Ela se foca demais em cirurgias, promovendo a objetificação dos corpos de pessoas trans. Ela se refere a ‘indivíduos masculino-para-feminino (MtF) que podem retornar aos privilégios masculinos’, promovendo a ideologia transmisógina de que mulheres trans possuem, ou possuíram em algum ponto, privilégios masculinos. Em sua discussão sobre transracialismo, Tuvel não cita uma única filósofa negra, nem endossa nenhum trabalho substancial de uma mulher negra, e nem endossa ou cita um único trabalho de uma mulher negra trans que tenha escrito sobre este tópico. Em seu site, Tuvel descreve seu trabalho como ‘estando na intersecção crítica de raça, feminismo e ética animal’. Ela descreve seu trabalho sobre raças como crítico! O termo ‘supremacia branca’ não aparece nem uma única vez em seu trabalho. Ela diz que é ‘sua preocupação subjacente teorizar justiça para grupos oprimidos’. Mas ela não se engaja ou sequer ouve a voz de mulheres negras enquanto ‘teoriza’ sobre justiça para elas. Isso não é aceitável. Isso é violência.”

Deixe para lá os pretensos fundamentos teóricos do que diz Tuvel, nós temos gerações de intelectuais de uma só frase que estão tão entrincheirados em teoria crítica e pensamento pós-estruturalista que acham aceitável igualar palavras a violência! Estas são as pessoas que estão lecionando aos nossos estudantes — e suas idéias se difundiram amplamente, como o próprio Baer nos conta:

“no início dos anos 90, Lyotard ensinou em Yale que seus pensamentos (e os de outros) acerca de como resolver a assimetria na discussão entre opressores e vítimas de violência sistêmica pessoal, sem limitar muito sua fala, percola por outras disciplinas.”

“Percola” talvez seja um termo muito leve, sendo preferível “infecta”. Dê uma olhada no @RealPeerReview, um grupo de acadêmicos e professores que já entrevistei e que expõe estudos baseados em experiências pessoais e identidade ao nível do ridículo das fraudes que são.

Que Baer seja um vice-reitor em exercício e que haja outros como ele em posições de poder deveria ser algo a nos alarmar. Enquanto é fácil ridicularizar e rir de “floquinhos de neve” e de “justiceiros sociais” que exageram e agem de forma ultrajante e desprezível, esta abordagem nos afasta da pergunta que deveríamos fazer: quem ensina aos nossos futuros adultos as idéias que são antitéticas ao Iluminismo?  — que palavras são equivalentes à violência; que lógica, objetividade e ciência são construções opressoras da supremacia branca? Se acha que estou inventando ou que fui enganado pela “mídia de direita”, faço um convite a ponderar sobre estas afirmações, provenientes de estudantes da universidade Claremont McKenna:

“a idéia de que há uma única verdade — ‘A Verdade’ — é uma construção euro-ocidental profundamente entranhada no Iluminismo, um movimento que descreveu pessoas negras e pardas como subumanas e insensíveis à dor. Esta construção é um mito sobre o qual repousam a supremacia branca, o imperialismo, o colonialismo, o capitalismo e os Estados Unidos da América. A idéia de que a verdade é uma entidade sobre a qual devemos pesquisar, ameaçando nossa habilidade de viver em espaços abertos, é uma tentativa de silenciar pessoas oprimidas.”

Os “estudos” referenciados por Baer, além do pós-modernismo e do pós-estruturalismo, são todos dependentes dessa loucura. Não é útil tratar os sintomas de uma doença intelectual sem atacar suas causas. Rir de estudantes raivosos não resolverá o problema.

Palavras não são violência. Chegamos à civilização ocidental através de uma fusão escaldante de batalhas ideológicas, estabelecendo normas para diferenciar palavras de ações físicas danosas. Agora, alguns operadores das humanidades querem nos arrastar para trás. Absolutamente nada há de correto acerca do entendimento que Baer e os “flocos de neve” têm sobre a liberdade de expressão.

 


* Malhar Mali escreve sobre secularismo, direitos humanos, política e cultura. É o editor da Areo. Pode ser contactado pelo @MalharMali ou por email em malhar@areomagazine.com

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