AIDS: DE UMA POLÊMICA, NASCE UM POST.


AIDS: DE UMA POLÊMICA, NASCE UM POST.
 

Originalmente publicado em: Fora do Armário

 

Camisinha sempre!

 

Graças a uma polêmica gerada por um post meu no Facebook hoje, acabei aprendendo muito hoje. Lendo os comentários de dois amigos, um conhecido há mais tempo, outro mais recente, cheguei à conclusão de que muita coisa pode ser mal entendida ou até mal explicada quando a gente se aventura na arte do diálogo. Não é fácil fazer-se entender, tanto quanto não é fácil entender o que o outro quer dizer. Se isso já é complicado quando ambos conseguem se colocar empaticamente no lugar do interlocutor, imagine quando tudo o que ambos querem é ganhar a discussão! Aliás, basta que um dos interlocutores tenha esse tipo de atitude para que qualquer tentativa de consenso naufrague. O consenso também é relativo. Consenso não garante a validade das premissas ou das conclusões. De qualquer, modo a gente sempre aprende, mesmo que não chegue a consenso algum. 

 

O tema da discussão era a prevenção ao contágio por HIV e o tratamento das pessoas que já são portadoras do vírus. Aparentemente, nada novo, mas graças a essa polêmica, eu revistei algumas ideias, aprimorei outras e pensei algumas novas.

 

O DIREITO À INFORMAÇÃO 

 

Todas as pessoas têm o direito de ser informadas sobre o que é HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) e sobre o que é AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Todas as pessoas têm o direito de saber como se prevenir e o que fazer em caso de contágio. Mas, se as pessoas têm direito à informação, de quem será o dever de informa-las? Das autoridades governamentais, logicamente, assim como da mídia, da escola, e da família. Essa gama de informações deveria espalhar-se por toda a sociedade num movimento de cascata (de cima para baixo) e num movimento centrípeto (do centro para as extremidades). 

 

Brasil pode melhorar muito nesse sentido, mas certamente está a frente da maioria dos países do mundo.

 

O DIREITO À PROTEÇÃO 

 

Preservativos (camisinhas) deveriam estar disponíveis para todos e todas a qualquer momento. Espaços de entretenimento deveriam ter ‘displays’ oferecendo preservativos grátis, custeados pelo próprio Estado, de modo que ninguém deixasse de usar preservativo por falta de dinheiro. Isso deveria se aplicar a todos os estabelecimentos – de bares a boates. Além destes, eventos de massa deveriam ter ‘stands’ com preservativos e informações estrategicamente localizados. Os postos de saúde geralmente têm camisinhas disponíveis, mas deveriam coloca-los ao alcance do seu público sem que este precisasse requisitar. Rodoviárias, aeroportos, estações de trens e de metrô deveriam ter seus próprios ‘displays’ franqueados aos passageiros com camisinhas grátis. O acesso deveria ser igualitário em todos esses ambientes, independente da orientação sexual, gênero, idade, etc. 

 

Entretanto, ninguém pode ser coagido a usar camisinha. Ninguém pode ser obrigado a transar com camisinha, assim como ninguém pode ser obrigado a tomar banho, escovar os dentes ou executar qualquer outra ação de cuidado com o corpo. Apesar das atribuições do Estado, da mídia, dos estabelecimentos comerciais, das instituições educacionais, e do espaço familiar quanto à facilitação de acesso à informação e aos preservativos, a decisão será sempre do indivíduo, ou seja, é responsabilidade dele ou dela, faz parte da esfera individual. E por isso mesmo não se pode ter certeza de que as melhores práticas de conscientização, informação e apoio por parte do Estado e da sociedade civil, em público, resultarão na decisão pessoal e intransferível do indivíduo de usar ou não a camisinha em privado. 

 

O TRATAMENTO PARA QUEM É SOROPOSITVO 

 

O Brasil tem um programa de assistência à pessoa soropositva que – em tese – é avançadíssimo, porém na prática não tem funcionado tão bem assim. O RJTV de hoje (03/07/2012) denunciou a falta de leitos e remédios para pacientes de AIDS na rede pública – o que viola um direito garantido por lei. Devemos cobrar das autoridades, pressionar os governos, denunciar a omissão do poder público. 

 

O que não podemos, todavia, é usar essa omissão injustificável do governo como desculpa para agirmos de modo inconsequente. E nesse ponto eu posso soar um tanto insensível, mas o que tenho em mente é o seguinte: o uso de uma simples camisinha pode poupar muito sofrimento em longas filas de espera num hospital público, assim como muitas outras dores físicas e emocionais, além da interrupção da rotina pessoal por causa de consultas e internações. Quem gosta de hospital? Ninguém. Então, a melhor maneira de se prevenir ainda é o uso do preservativo. Não entram aqui juízos de valor sobre quem já se contagiou. O que as pessoas soropositivas precisam é de apoio, respeito e oportunidades para continuar vivendo de modo produtivo, satisfatório, buscando a realização de seus sonhos. Porém, é preciso procurar evitar que outras pessoas se contagiem. Do mesmo modo, é preciso evitar que as pessoas soropositvas peguem doenças oportunistas a partir de relações sexuais sem proteção. Vale lembrar que o HPV e o vírus da Hepatite C não têm remédio ainda, e se uma pessoa com HIV adquirir estes também, ela vai se colocar numa situação muito mais complicada. Então, preservativo é bom para todo mundo – soropositivo ou soronegativo. 

 

CONDIÇÃO SOROLÓGICA DOS CASAIS 

 

Casais variam de muitas maneiras. No que se refere ao HIV também. Existem casais soropositvos, ou seja, aqueles em que ambos os parceiros são portadores do vírus HIV. Existem os casais soronegativos, ou seja, aqueles em que nenhum dos dois tem o HIV. E existem os casais sorodiscordantes, ou seja, aqueles em que um parceiro tem e o outro não. Atualmente, sou casado com um cara que não tem o HIV e eu também não. Isso quer dizer que somos soronegativos. Porém, já tive dois relacionamentos em que eu sabia que o meu parceiro era soropositivo, ou seja, ele tinha o vírus HIV e eu não. Éramos sorodiscordantes. 

 

– Que diferença faz? – alguém poderia perguntar. 

– Nenhuma, na prática.

 

Se a camisinha é um hábito, não fará diferença se ele(a) tem ou não o vírus. Não usar camisinha, sim, poderia ser uma fonte de problemas no caso de parceiros sorodiscordantes. E não estou me referindo só à possibilidade de que o outro contraia o HIV, porque o parceiro que tem poderia contrair alguma oportunista por via sexual, e isso poderia colocar sua saúde em apuros.

 

Entretanto, as pessoas são livres para decidir. Algumas consideram uma prova de amor contrair o vírus do parceiro. Outras adoram a adrenalina das relações de ‘barebacking’, ou seja, fazer sexo sem camisinha, com um ou mais parceiros. Isso é uma decisão pessoal, mas não altera em nada o fato de que – para quem quer viver sem AIDS – a camisinha ainda é a melhor prevenção. E para quem tem o HIV, e quer viver muito, e sem sintomas, a camisinha será grande aliada. Até para quem já desenvolveu a síndrome, a camisinha é útil, porque pode poupa-lo(a) de outras doenças e evitar o aumento da carga viral – o que geralmente acontece quando ele mantém relações com outro parceiro também soropositivo. 

 

GRAVIDEZ 

 

Hoje em dia é possível – com assistência médica especializada – gerar filhos sem HIV, mesmo que o pai ou a mãe sejam HIV positivo. Essa decisão, porém, deve ser muito bem pensada. Eu tive dois amigos heterossexuais casados que deixaram duas filhas órfãs, porque o pai faleceu de complicações causadas pela AIDS, e a mãe também poucos meses depois. As crianças já eram nascidas quando eles contraíram o vírus. Casais que já têm HIV podem ser excelentes pais, mas devem pensar bem nos custos dessa paternidade/maternidade. ENTRETANTO, é importante que se diga que NENHUM casal, mesmo o mais saudável do mundo, poderá ter certeza de que viverá para criar os filhos ou que os filhos viverão para vê-los envelhecer. E a razão é simples: Não temos o controle do mundo ao nosso redor e nem mesmo de nossas vidas. Não é necessário estar doente para morrer, basta estar vivo. 

 

ESTATÍSTICAS 

Aids e o comportamento dos jovens 

(Extraído do Boletim Epidemiológico AIDS-DST – Ano VIII número 1)

 

O conhecimento da população jovem sobre as formas de infecção pelo HIV é alto, conforme os dois estudos realizados pelo Ministério da Saúde em 2007 e 2008, que abordam o comportamento da população brasileira em relação à prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.

 

No ultimo estudo realizado em conscritos, foram entrevistados cerca de 36 mil jovens do sexo masculino, entre 17 e 22 anos de idade, e os resultados apontam que cerca de 97% sabem que o uso do preservativo é a melhor maneira de se evitar a infecção pelo HIV. 

 

 

Com relação ao comportamento sexual dos jovens, comparando os resultados dos dois estudos em conscritos, realizados respectivamente em 2002 e 2007, observa-se que em torno de 20% dos jovens entrevistados em 2002 tiveram a primeira relação sexual antes dos 14 anos de idade, enquanto que, em 2007, esse percentual foi de 17,2%. Com relação ao numero de parceiros sexuais, em 2002, verificou-se que 19,1% tiveram mais de 10 parceiros na vida, enquanto que, em 2007, esse percentual passou para 26,2%. Além disso, segundo a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas (PCAP) na População Brasileira, realizada em 2008, a população jovem de 15 a 24 anos é a que mais tem parcerias casuais comparando com as demais faixas etárias.

 

Com relação ao uso de preservativo, a PCAP aponta que a população jovem de 15 a 24 anos, comparando com as demais faixas etárias, é a que mais usa em todas as situações, seja com parceiro casual ou fixo, e a que mais obtém o preservativo de graça (41,4%, comparando com a faixa etária de 25 a 49 anos, 28,6%). Cabe destacar que a escola é o segundo lugar de maior acesso ao insumo, sendo o primeiro o serviço de saúde. Das escolas brasileiras, 63% já trabalham com o tema DST e aids e cerca de 50 mil participam do Programa Saúde e Prevenção nas Escolas – SPE.

 

Entretanto, apesar do grande conhecimento sobre a importância do preservativo, do seu alto uso na última relação sexual, respectivamente 67,8% e 55,0% com parceiro casual ou com qualquer parceiro, e do seu maior uso em relação às demais faixas etárias em todas as situações, comparando os resultados das PCAP de 2004 e 2008, o uso regular do insumo tem se reduzido. O uso do preservativo com parceiros casuais nos últimos 12 meses diminuiu de 58,4% (2004) para 49,6% (2008) e o seu uso com qualquer parceiro caiu de 39% para 32,6%.

 

Com relação aos jovens HSH, um dado positivo é que tendem a usar 2,2 vezes mais o preservativo do que os jovens heterossexuais. Em pesquisa realizada apenas com homossexuais, o uso do preservativo na última relação sexual com parceiro casual na população de jovens foi de 70,8%. Entretanto, quando se avalia o uso do insumo em todas as relações sexuais nos últimos 12 meses com parceiro casual, esse percentual diminui para 54,3%.

 

O Ministério da Saúde mantém estatísticas muito detalhadas sobre HIV/AIDS no Brasil. Quem desejar poderá ver adiante o site onde se encontram. Vou destacar aqui alguns pontos importantes do relatório de 2011.

 

De acordo com o referido relatório do Ministério da Saúde:

 

A prevalência de infecção pelo HIV na população de jovens gay, 1,2% em conscritos do Exercito em 2007, apresenta tendência de aumento no Brasil.

 

Nos últimos 12 anos, considerando os casos de aids notificados entre homens na faixa etária de 15 a 24 anos, houve um aumento de 45,9% na proporção de casos com categoria de exposição HSH (Nota: homens que fazem sexo com homens), 46,4% em 2010.

 

De 1980 a junho de 2011, no Brasil, foram notificados 608.230 casos de aids. Em 2010 foram notificados 34.218 novos casos (…). Ao longo dos últimos 12 anos observa-se uma estabilização da taxa de incidência no Brasil, mas segundo as regiões a taxa diminuiu na Região Sudeste e aumentou nas demais regiões.

 

 De 1980 a junho de 2011, no Brasil, foram notificados 14.127 casos de aids em menores de cinco anos. Em 2010 foram notificados 482 novos casos, com taxa de incidência de 3,5/100.000 habitantes. No Brasil, a taxa de incidência em menores de cinco anos é utilizada como indicador de monitoramento da transmissão vertical (Nota: de mãe para filho), e ao longo dos últimos 12 anos observa-se uma redução de 40,7%, mas segundo as regiões a incidência aumentou no Norte e Nordeste, e diminuiu nas demais regiões.

 

 De 1980 a 2010, no Brasil, ocorreram 241.469 óbitos tendo como causa básica a aids. Em 2010 ocorreram 11.965 óbitos, com coeficiente bruto de mortalidade de 6,3/100.000 habitantes. Considerando o coeficiente de mortalidade padronizado (População brasileira de 2000, IBGE), nos últimos 10 anos observa-se redução de 11,1% na mortalidade por aids no Brasil, mas segundo as regiões a mortalidade aumentou no Norte, Nordeste e Sul, diminuiu no Sudeste, e estabilizou no Centro-Oeste.

 

A população de jovens gays apresenta uma particular vulnerabilidade ao HIV/aids. Segundo a tendência observada nas ultimas pesquisas em conscritos, jovens do sexo masculino de 17 a 22 anos de idade, a prevalência de infecção pelo HIV na população HSH jovem aumentou entre 2002 e 2007, passando de 0,56% para 1,2%. Cabe destacar que a prevalência observada nos conscritos HSH é superior à prevalência observada na população total de conscritos (0,09% em 2002; 0,12% em 2007).

 

Com relação à categoria de exposição dos casos de aids notificados no Sinan em indivíduos do sexo masculino de 13 anos e mais de idade, observa-se que 30,4% dos casos notificados em 1998 ocorreram entre heterossexuais, sendo que em 2010 esse percentual passa para 42,4%.

 

 

Entretanto, entre homens na faixa etária de 15 a 24 anos, no mesmo período, houve aumento proporcional da categoria de exposição HSH, passando de 31,8% em 1998 para 46,4% em 2010.

 

De 1981 a 2011, a distribuição percentual de casos de AIDS no Brasil era a seguinte:

 

Sudeste: 56,4%

Sul: 20,2%

Nordeste: 12,9%

Centro-Oeste: 5,8%

Norte: 4,5%

 

Fonte:http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2011/50652/boletim_aids_2011_final_m_pdf_26659.pdf

 

REMÉDIOS E VACINAS SENDO TESTADOS 

 

Cientistas têm trabalhado incansavelmente na busca por uma vacina contra o HIV ou de uma cura para a AIDS. Todos aguardamos ansiosamente por esse momento em que teremos meios de acabar definitivamente com essa epidemia e proporcionar às pessoas mais felicidade e liberdade nesse sentido. 

 

Sobre isso, recomendo muito essa entrevista com o Dr. Drauzio Varella. Ele fala de modo claro e muito rico sobre HIV, AIDS, vacinas, etc.:http://drauziovarella.com.br/sexualidade/vacina-contra-aids/

 

Uma das perguntas que as pessoas mais fazem é onde podem fazer o teste e buscar aconselhamento. Aqui você poderá ter todas essas e outras informações úteis. Confira:http://www.aids.gov.br/pagina/aconselhamento

 

Enquanto eu escrevia esse post, o Jornal da Globo noticiou que os EUA liberou o uso de um teste caseiro para o HIV – o que vai garantir ainda mais privacidade na testagem. Porém, o teste não é 100% seguro. O ideal é, caso de positivo, confirmar com o teste tradicional num hospital.

 

PROFILAXIA PÓS-HIV 

 

Profilaxia pós-HIV é um procedimento que se faz depois que a pessoa se expôs ao vírus HIV, como forma de prevenção da infecção utilizando-se os medicamentos que fazem parte do coquetel para tratamento da Aids. Esse procedimento é indicado para pessoas que possam ter entrado em contato com o vírus recentemente, por meio de relação sexual desprotegida, ou seja, sem camisinha. Todavia, levando-se em consideração que o ideal é começar a tomar a medicação duas horas depois da exposição ao vírus, e no máximo em 72 horas, não vale a pena se arriscar confiando nisso. A melhor prevenção ainda é a camisinha. Além disso, os medicamentos precisam ser tomados por 28 dias, sem interrupção, e devem ser receitados por um médico. 

 

Essa forma de prevenção já é usada com sucesso em casos de violência sexual e de profissionais da área da saúde que se acidentam com agulhas e outros objetos cortantes contaminados. 

 

O governo de São Paulo disponibilizou um site com endereços de mais de 300 serviços cadastrados onde a profilaxia encontra-se disponível e também as dúvidas mais frequentes. As informações podem ser obtidas também por meio do Disque DST/Aids: 0800 16 25 50.

 

(com informações de Solange Spigliatti no site Jornal da Tarde)

 

O PRECONCEITO CONTRA O HIV POSITIVO 

 

Ainda existe muito preconceito contra pessoas HIV+. Eu mesmo (junto com uma assistente social amiga minha) já dei assistência a um adolescente que era rejeitado pelos pais por ser soropositivo. A mãe separava tudo dele: toalha, talheres, pratos, etc. Ninguém queria ficar perto dele por preconceito e ignorância. Estivemos na casa desse adolescente. Conversamos com a família, mas nada mudou. Acabamos tendo que arrumar abrigo para ele, a fim de evitar o pior. 

 

O preconceito é injustificável e destrutivo. Há pessoas que, diante disso, pensam em suicídio por desespero. Conheço pessoas que são soropostivas e não falam com a família por medo de serem discriminadas. Imagino a dor que é viver todo dia pensando que pode ser internado, e o médico revelar aos familiares sua condição. Imagino como deve ser ter que tomar remédio escondido ou dizer que é para enxaqueca, a fim de despistar os olhares dentro da própria casa. Quem nunca teve contato com pessoas soropositivas, mas já assistiu “Filadélfia”, com Tom Hanks, não consegue ficar insensível a tudo isso. Se ficar, só pode haver algo errado com tal pessoa. O filme mostra onde pode chegar o preconceito, mas também mostra como a dignidade e o orgulho pessoal pode conquistar direitos. 

 

Portadores do vírus HIV não oferecem risco algum às pessoas ao seu redor. Além, disso uma pessoa com HIV pode fazer tudo que outras pessoas fazem, seja no trabalho, nos estudos, no lazer, etc. Elas podem casar e até mesmo ter filhos, como eu disse anteriormente, desde que sejam observados alguns procedimentos definidos pelos médicos. 

 

Vale lembrar que morre mais gente de doenças do aparelho circulatório e de câncer (primeira e segunda maiores causas de morte no Brasil) do que de AIDS. O câncer de próstata pode ser curado se for identificado precocemente, porém mata mais de 32 mil homens por ano. As razões principais são a desinformação e o preconceito contra o exame de toque retal. Dizer isso não é tripudiar sobre eles, mas alertar os que são igualmente preconceituosos e desinformados, e que ainda têm chances de tratamento. O mesmo vale para o HIV: alertar quem não tem não é o mesmo que discriminar quem tem. 

 

O RESSENTIMENTO DE ALGUMAS PESSOAS HIV+ 

 

Graças ao sofrimento que o preconceito impinge sobre as pessoas HIV+, muitos revelam ressentimentos a qualquer sinal de alerta sobre o contágio ou qualquer comentário sobre sexo seguro. Isso é humano, demasiadamente humano, mas não constrói. Fico feliz em ver a coragem, sinceridade, simplicidade e paixão pela vida que gente como Fabrício é capaz de demonstrar ao falar sobre HIV, proteção, contágio, tratamento e até mesmo sobre sua própria condição. Ele não demonstra qualquer ressentimento contra quem não tem HIV. Afinal, ninguém é melhor ou pior porque tem ou deixa de ter. Seria uma estupidez gloriar-se de ser soropositivo, assim como também seria uma estupidez gloriar-se de ser soronegativo. Agora, uma coisa é certa: Todo mundo sente um frio na espinha quando vai fazer um teste HIV. E todo soropositivo festeja quando a taxa de CD4 está normal. E por quê? Porque todo mundo quer ser saudável. 

 

E quem disse que portador de HIV não é saudável? Todo mundo é saudável enquanto não manifesta alguma desordem, dor, etc. É possível viver anos com saúde, mesmo sendo HIV+. Agora, se alguém não tem o vírus, e pode evita-lo, por que ficar ressentido de que se diga tudo o que deve ser dito a respeito disso?

 

Para quem deseja informação bem embasada e em linguagem clara e acessível, sugiro o site do Grupo PelaVidda.

 

A INSTABILIDADE DA CONDIÇÃO HIV NEGATIVO 

 

Não existe estabilidade na condição de soronegativo. O HIV pode ser contraído de diversas formas: transfusão, agulhas compartilhadas, relação sexual, etc. Nem mesmo quem fez exame há três meses, seis meses ou um ano tem desculpa para não usar camisinha, porque não pode estar absolutamente seguro de que não se infectou depois disso. Fazer exame toda hora também não é garantia, porque existem as chamadas janelas imunológicas (período em que o corpo ainda não tem anticorpos que indiquem a presença do HIV no organismo através do exame de sangue). 

 

Ninguém deve se descuidar. Pensar que se, apesar de todo o cuidado, a pessoa pode se infectar em algum momento, não é preciso se preocupar com prevenção, é um absurdo, assim como seria um absurdo não tomar cuidado ao atravessar uma rua porque eventualmente alguém pode ser atropelado, mesmo estando na calçada.

 

Por outro lado, viver com medo é um desperdício de energia que cobra seu próprio preço. Portanto, não vale a pena viver com medo. Sexo é para ser desfrutado. O corpo de quem a gente quer ou de quem a gente realmente ama deve ser degustado com tesão e liberdade, na medida em que ambos estejam de acordo. Usar camisinha é sempre ótimo para os dois, mas nunca obrigatório. Com criatividade e tesão, qualquer um pode transformar a camisinha em fetiche. Por que não? 

 

Volto a dizer que, se duas ou mais pessoas decidirem transar sem camisinha, nada pode (e nem deve) ser feito para coibi-las ou para constrangê-las. Isso não está na esfera do público, mas do privado, mas as consequências dificilmente serão mantidas no privado para sempre. Essas pessoas não podem ignorar os riscos e nem os meios para reduzi-los. Mas, pelo que se vê a partir do relatório do Ministério da Saúde, citado no parágrafo sobre estatísticas, as pessoas nunca estiveram tão bem informadas. Pode melhorar, mas já não se pode dizer que maioria ignora os riscos e os meios de prevenção. Além disso, se numa extremidade da corda está o Estado, na outra está o indivíduo. Se numa extremidade está a disponibilização de informação, prevenção e tratamento, na outra está a decisão individual sobre o que fazer do próprio corpo. 

 

Cabe a cada um fazer de si o que bem entender, seja aceitando ou rejeitando a possibilidade de fazer sexo seguro ou sexo de risco, porque afinal – como canta Caetano Velloso – “cada um sabe a dor e alegria de ser o que é.” 

 

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A imprensa brasileira e a negação do racismo

Paula Borges

Fiquei sabendo do caso através de um amigo estrangeiro. Assustado, desnorteado com a realidade que fez com que todas as suas crenças sobre o Brasil caíssem por terra, ele me mandou um link da imprensa angolana que noticiava o assassinato de Zulmira de Souza Borges Cardoso, uma estudante de 26 anos que foi morta em São Paulo simplesmente por ser africana. Um Golf parou na frente de um bar, na região do Brás, e atirou contra um grupo de estudantes angolanos, ferindo três amigos de Zulmira, uma delas grávida. Uma série de veículos africanos e portugueses publicaram notas sobre o caso. Todos eles mencionavam a motivação racista do crime, e o fato que as testemunhas afirmavam terem presenciado agressões verbais de cunho racista por parte do atirador.

Ainda não querendo acreditar que era verdade, fiz uma busca pelas notícias locais. Nada encontrei de início, o que me deixou muito intrigada. O fato é que eu havia incluído o termo “racismo” na minha busca, e nenhum veículo da imprensa brasileira tinha esta palavra em seu texto. Mais de meia hora procurando, toda a grande mídia pesquisada, e nenhuma menção ao racismo em nenhuma das notícias. Embora as testemunhas e a imprensa internacional fizessem questão de explicitar a motivação do crime, a nossa imprensa preferiu se referir ao caso como uma “discussão de bar que terminou em morte”.

A notícia foi tratada pelas autoridades e todas as outras publicações estrangeiras em língua portuguesa com a devida seriedade. Todo o trâmite diplomático foi acompanhado de perto. Aqui, não vimos esta notícia em sequer uma capa de jornal. Para nossa mídia, o motivo é “desconhecido”, o atirador “foragido” e o caso todo, já esquecido.

Os veículos estrangeiros noticiam também a falta de assistência médica e psicológica às outras vítimas, o descaso da polícia nas investigações, e utilizam termos como “tentativa de massacre” e “xenofobia”. Nas páginas brasileiras, no entanto, o caso não passa de um mero desentendimento entre estudantes.

O que poderia explicar esta omissão daqueles que têm o dever de nos informar? Como entender a relutância – e por que não? – censura da palavra “racismo”? Por que a imprensa brasileira está tão engajada na construção de uma imagem positiva, iludida e equivocada da sociedade? Será que o racismo destas instituições e da sociedade brasileira está tão enraizado que pode causar tamanha negligência e conivência? Enquanto as manifestações racistas e xenófobas crescem em ritmo alarmante, a população permanece desinformada por uma imprensa irresponsável e antiética.

Ao passo que os países mais desenvolvidos tratam as manifestações de racismo com toda a seriedade, e nós aqui, enchendo as contas bancárias de “comediantes” que, tristemente, fazem exatamente o mesmo comentário que o assassino fez antes de atirar e chamam de “piada inofensiva”.

Para evoluir de verdade, precisamos de uma imprensa que reflita a sociedade brasileira como um espelho, sem photoshop.

Para comparar as diferenças:

Veículo angolano: http://angola24horas.com/index.php?option=com_content&view=article&id=6283:quem-viu-ai-o-caso-da-jovem-zulmira-morta-no-brasil&catid=14:opiniao&Itemid=24

Veículo português: http://asemana.sapo.cv/spip.php?article76630&ak=1

Veículo brasileiro: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/05/universitaria-angolana-e-morta-em-bar-na-regiao-central-de-sp.html

 

 

 

 

Como fazer de seu filho um ATEU?

Tento me definir desde mais ou menos meus 7 anos de idade, e não sabia até então se eu era um ser humano bom ou ruim, tendo vivido em família cristã tinha o pleno conhecimento dos pecados pregados pela bíblia e o seu  senhor salvador, meus familiares mais próximos eram adeptos de leituras do livro sagrado, frequentavam os cultos durante vários  dias da semana e sabe se lá por quais motivos acreditavam que um garoto hiperativo gostaria de compartilhar desta monotonia em família com eles, eu queria assistir tv e brincar com meus bonecos dos Comandos em Ação e quando eu tinha por volta de meus 10 anos eles resolveram fazer este teatro em minha casa me privando de meus sábados que para mim eram “sagrados´´ jogando taco, brincando de esconde- esconde e já tentando ler livros não tão sagrados para eles.
Ao som do senhor Ray Conniff eu e meus familiares liamos a o livro sagrado e o Evangelho Segundo o Espiritismo em um ritual maçante denominado Evangelho no Lar.
Como aquilo era longo e como peguei raiva do Ray Conniff , nada contra o velhinho, mas quando se é torturado certos aspectos deste se impregnam em sua memoria e você passa a detesta-los, o mesmo ocorreu com tudo o que fosse derivado de religiões.
Ao decorrer do tempo passei a me tornar um homem aflito sempre que falavam de religião, porem descobri de onde vinha esta aflição após me deparar com certos autores de livros que tratavam os teístas de uma forma nada ortodoxa vi que na verdade não suportava ver que aqueles que estavam ao meu redor acreditavam em contos derivados de pastores de cabras e que mesmo adultos tinham amigos imaginários e eu também sabia que muitas outras gerações de crianças teriam suas mentes corrompidas por estes contos inúteis que servem apenas para manipular suas mentes tornando-os zumbis assim como seu salvador “Já que para mim quem sai andando depois de morto é um zumbi´´.
Hoje com muito orgulho me defino um ateu e sei que para ser bom ou ruim não tenho que me basear em um livro com contos de fadas e sim em minha moral não derivada de uma religião e meu discernimento perante os verdadeiros males da sociedade, claramente que se tornar um ateu não foi simples, mas por mais incrível que isso possa parecer minha família me aceitou muito bem e minha mãe até se questiona hoje em dia.

Então é só seguir os passos de minha família se você quer que seu filho se torne um ateu ou ao menos passe a pensar por conta própria.

Daniel Tristão de Oliveira. “The Berserker´´

Por que junho é o Mês do Orgulho Gay? De onde vem tudo isso? E para onde vai?

Por Sergio Viula*

O ser humano tende a se acostumar com o seu entorno, sejam os cenários, as relações interpessoais, os hábitos, as ideias etc. Infelizmente, graças a essa capacidade ou deficiência, dependendo do ponto-de-vista, o bicho homem é capaz de conviver com injustiças sem percebê-las ou sem querer pensa-las. Para piorar, há quem estranhe ou sinta-se desconfortável ao menor sinal de questionamento quanto ao status quo. Estes são geralmente chamados de conservadores e afins. Assim, diversos tipos de violência, injustiça, desigualdade vão convivendo com a indiferença dos que não atingidos pelos mesmos, e às vezes até pelos que são. Essa é a turma do “é assim mesmo”. Felizmente, existem sempre alguns que compreendem a urgência e a importância de um agir que promova transformações para uma condição mais justa e igualitária de existência. E, felizmente, não são apenas as pessoas atingidas por essas desigualdades que compõem esse pequeno grupo. Existem aqueles que, treinados na arte da solidariedade, compreendem que toda vez que um direito é negado, todos os demais correm o risco de serem usurpados – não importando quem seja a pessoa ou grupo em questão.

O que conhecemos hoje como Movimento LGBT, independentemente da época ou país, aspira tão-somente ao reconhecimento do direito a existir, viver, amar, trabalhar, expressar-se, acessar os serviços básicos nas áreas de saúde, educação, segurança, cultura, etc., sem discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero. Pode soar estranho para pessoas que nunca enfrentaram homofobia em nível simbólico ou físico que coisas essenciais como alugar uma casa ou conseguir um emprego possam se tornar num verdadeiro tormento, mas existem coisas piores. Por exemplo, em países onde a homossexualidade é considerada crime, um homossexual pode ser preso e até morto por simplesmente amar alguém do mesmo sexo.
Sim, em pleno século 21 (já a caminho da segunda década!), 40% dos países membros das Nações Unidas ainda criminalizam atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, de acordo com o relatório ILGA 2012 sobre homofobia patrocinada pelo Estado. Vale ressaltar que se trata de homofobia patrocinada pelo Estado, ou seja, aquela que é sancionada e executada pelo próprio Estado através de seu aparato jurídico, policial, etc. Em números absolutos, estamos falando de 78 países onde a vida de uma pessoa LGBT é insuportável.
Por outro lado, o relatório aponta que a homossexualidade é legal em 113 países membros das Nações Unidas. Destes, 55 dispõem de legislação contra a discriminação em razão da orientação sexual no local de trabalho. Em 10 deles, gays e lésbicas podem gozar plenamente de direitos conjugais iguais, e em 12 eles podem adotar crianças. Estes são alguns dos elementos que caracterizam o status legal de gays e lésbicas no mundo em maio de 2012, conforme o relatório citado.
Mas, de onde vem toda essa movimentação LGBT em busca de reconhecimento político, jurídico, social, cultural, etc.? Como foi que lésbias, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros deixaram de ser indivíduos indiferentes para com o sistema que os oprimia, para se tornarem militantes que exigem o devido status de cidadão pleno?
Para respondermos essa pergunta, vamos recuar um pouco na história:
O movimento pela cidadania plena dos indivíduos LGBT começou na Europa, ganhando projeção a partir de iniciativas da população LGBT americana, e sendo atualmente reconhecido como movimento civil legítimo em vários países do mundo, inclusive na Organização das Nações Unidas (ONU), onde o Conselho Econômico e Social (ECOSOC) outorgou, em 26 de julho de 2011, o status consultivo à Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais (ILGA). Esse status permite que a ILGA assista e intervenha nas conferências da ONU e envie declarações. A ILGA passa assim a fazer parte das 750 organizações que têm caráter consultivo na ONU, mas comprometida a trabalhar pelos direitos de lésbicas, homossexuais, bissexuais, transexuais e intersexuais dentro das Nações Unidas. Os países que votaram a favor da outorga de status consultivo à ILGA foram Índia, Itália, Japão, Letônia, Malta, México, Mongólia, Nicarágua, Noruega, Peru, República de Coreia, Eslováquia, Espanha, Suíça, Ucrânia, Reino Unido, Estados Unidos, Venezuela, Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, Equador, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Hungria.
Os votos contra vieram do Egito, Marrocos, Arábia Saudita, a Namíbia, Iraque, Paquistão, Catar, China, Rússia, Senegal, Bangladesh, Camarões e Gana; e as abstenções da Guatemala, Mauricio, Filipinas, Ruanda, Bahamas e Costa do Marfim.
O secretário regional da ILGA na América Latina, Pedro Paradiso ressalta que o status consultivo para a organização é um “ato de justiça e um motivo de orgulho para a comunidade internacional”, já que supõe um avanço para que “os direitos humanos sejam realmente respeitados sem nenhum tipo de discriminação”.
“Nossas vozes e nossos esforços devem alcançar cada canto do mundo para conseguir que as diferentes orientações sexuais, identidades e expressões de gênero sejam respeitadas e protegidas por todos os Estados”, registra o site Terra.
Mas, não foi sempre assim.
Na Europa
Tomando como referência a história recente, as primeiras linhas escritas sobre a discriminação aos homossexuais datam de 1869, e foram escritas por um médico húngaro, Karóly Benkert. Ele escreveu uma carta ao Ministério da Justiça alemão condenando o novo código penal alemão. Isso aconteceu porque seu artigo 175 declarava que os atos sexuais entre homens eram delito. Foi Benkert quem utilizou pela primeira vez – também nesta carta – o termo homossexual para denominar tais atos.
Tendo em vista a luta contra o artigo 175 do código penal alemão há que se reconhecer que os primeiros movimentos em defesa da liberação homossexual ocorreram na Alemanha do século 19. Em 1897 surgia o Comitê Científico e Humanitário (CCH), que promoveu diversas atividades relacionadas ao estudo da sexualidade até 1933, quando o nazismo desencadeou violenta perseguição, logo após assumir o poder na Alemanha. Hitler utilizou o código 175 para lançar centenas de milhares de homossexuais em campos de concentração fétidos e infectados por tifo e outras doenças, nos quais esses homens foram torturados, explorados com trabalhos forçados e degradantes, utilizados em sórdidos experimentos, e mortos impiedosamente.
Durante sua existência o CCH lançou as bases daquilo que seria o movimento homossexual no decorrer do século. Entre tantas coisas, o Comitê participou de inúmeras produções cinematográficas que discutiam a homossexualidade. A mais famosa delas foi “Diferente dos Outros”, de 1919, na qual Hirschfeld atuou no papel de um médico que procura convencer a sociedade que a homossexualidade não é crime nem doença. O discurso dele é válido até hoje:
Nós devemos assegurar que brevemente chegará um tempo em que tragédias como esta [o suicídio do principal personagem gay] serão impossíveis de acontecer, porque o conhecimento irá superar o preconceito, a verdade irá superar as mentiras e o amor conquistará o ódio”.
As décadas de 1930 e 1940 foram marcadas por retrocessos e derrotas causados pelo fascismo e a guerra. Contudo, nos anos 50, o movimento homossexual internacional ganhou novo fôlego com a luta dos homossexuais norte-americanos contra a “caça às bruxas” promovida pelo senador McCarthy. Contudo, os pequenos grupos que surgiam na época eram apenas o prenúncio do poderoso movimento homossexual que iria surgir naquele país duas décadas depois.
Em 08 de dezembro de 2004, foi finalmente aberto ao público, em Berlim (Alemanha), o Museu Gay, conhecido como Schwules Museum. Este é o único museu do mundo dedicado exclusivamente aos assuntos relacionados à homossexualidade e possui um arquivo e uma biblioteca de tal monta que ele pode ser considerado um centro de pesquisa. Estudiosos e curiosos encontram ali publicações próprias do Schwules Museum com a história cotidiana dos grupos homossexuais e do movimento que deles surgiram.
Ao lado de Paris, Londres, Viena, Amsterdã e Roma, Berlim é uma das metrópoles europeias nas quais, desde 1700, é documentada a existência de um ‘submundo’ homossexual, com seus pontos de encontro, suas modas e até mesmo suas formas de falar. Essa riqueza cultural surge a partir da necessidade de se sobreviver como homossexual a uma cultura mainstream, geralmente preconceituosa ou indiferente.
Com fotos, roupas da época e documentos de todos os tipos, a mostra permanente revela como os homossexuais – sobretudo aqueles que tiveram a sorte de nascer em berço burguês – encontraram através desses círculos da Berlim do século XIX maneiras de expressar a sua admiração por pessoas do próprio sexo.
Mas, boa parte do exposto no Schwules Museum ilustra o ‘paraíso’ que a Berlim da República de Weimar representou para os homossexuais nos anos 20, quando surgiram os primeiros filmes e revistas homossexuais do mundo. Foi nesse solo político-cultural que se organizou um movimento que não temia expressar-se.
Nazismo
Apesar de inicialmente ser respeitada nos quartéis da SA de Ernst Roehm (uma das organizações paramilitares do movimento nacional-socialista), a homossexualidade passou logo a ser reprimida, sendo os próprios SA lançados em campos de concentração nazista por sua orientação sexual.
Pesquisadores recopilaram testemunhos de sobreviventes, sobretudo do campo de Sachsenhausen, aos arredores de Berlim, onde se calcula que morreram pelo menos 600 homossexuais, de acordo com o responsável de comunicação do museu, Gerrit Rohrbacher.

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Prisioneiros marcados com o triângulo rosa para indicar o motivo de sua prisão: homossexualidade 

O Schwules Museum também aborda os acontecimentos pós-guerra, tais como a vida gay na extinta República Democrática da Alemanha (RDA) e a luta no Oeste pela supressão do parágrafo 175 do Código Penal, que castigava a homossexualidade, e que era baseado em uma lei prussiana de 1851, assumida pela Alemanha do pós-guerra em 1949 e recrudescida pelos nazistas. O parágrafo 175 foi o cavalo de batalha do movimento homossexual alemão, que obteve sua eliminação em 1994, ou seja, quase cinquenta anos depois que os nazistas assinaram sua rendição, selando o fim da Segunda Guerra Mundial.
Enquanto judeus e outros sobreviventes dos campos de concentração recebiam apoio governamental e reparações, os gays sobreviventes ao massacre ainda tinham que esconder sua dor, porque a lei continuava criminalizando seu afeto. Como reparar ou apoiar alguém que foi preso com base no código penal (parágrafo 175)? Sobre esse assunto, é indispensável a leitura do recém-lançado livro de um homossexual sobrevivente dos campos de concentração nazista, “Eu, Pierre Seel, Deportado Homosseuxal”, Editora Cassará, Rio de Janeiro, 2012.
A eliminação do parágrafo 175 foi uma vitória importante, mas tardia para aqueles que foram obrigados a ostentar o triângulo rosa, sinal de encarceramento por ser homossexual.
Nos Estados Unidos
A década de sessenta foi marcada pela revolução nos costumes e no comportamento de amplos setores da sociedade em vários países capitalistas. O ano de 1968 entrou para a história como o ano da rebeldia estudantil. Já 1969 é um marco para a luta pelos direitos dos homossexuais. Em 28 de junho daquele ano, a polícia de Nova York promoveu uma de suas costumeiras batidas em um bar frequentado por homossexuais, o bar Stonewall, em Greenwich Village. Mas, desta vez a história foi bastante diferente das anteriores. Cansados das humilhações e perseguições, os homossexuais que estavam no bar, liderados por travestis, resistiram à polícia, trancando-os dentro do bar e ateando fogo ao recinto. A batalha que tinha pedras e garrafas como armas, e envolveu milhares de pessoas, prolongou-se durante toda a madrugada do dia 28 e nas quatro noites posteriores.
No primeiro aniversário da rebelião, 10 mil homossexuais, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam sobre as ruas de Nova York, demonstrando que estavam dispostos a seguir lutando por seus direitos. Desde então, “28 de junho”  é considerado o Dia Internacional do orgulho Homossexual.
Concomitantemente, o fundamentalismo religioso sofria um golpe em seu próprio terreno. Surgia uma das maiores denominações cristãs do mundo, porém com uma visão inclusiva que não apenas aceitava, mas celebrava a diversidade sexual, tanto no corpo da igreja como no ministério eclesiástico. Tratava-se da Metropolitan Community Church (Igreja da Comunidade Metropolitana), cujo início se deu a partir de um culto no subúrbio de Los Angeles em 1968, sob o comando do Pr. Troy Perry. Atualmente, a Igreja da Comunidade Metropolitana conta com 43.000 membros e agregados em mais de 300 congregações em 22 países. Troy Perry, porém, não foi o primeiro pastor a rever o método de interpretação das escrituras cristãs.
O pioneirismo teológico fica por conta de Cânone Derrick Sherwin Bailey (1910-1984), que foi o primeiro estudioso a reavaliar entendimento tradicional das proibições bíblicas sobre a homossexualidade. Ele foi clérigo e cônego residente da Catedral de Wells [em Somerset, Inglaterra]. Embora não fosse um teólogo ou pesquisador acadêmico da Bíblia em tempo integral, após a Segunda Guerra Mundial ele liderou um pequeno grupo de clérigos anglicanos e médicos para estudar a homossexualidade. Suas conclusões foram publicadas em um relatório em 1954, chamado The Problem of Homossexuality (O Problema da Homossexualidade) produzido para a Igreja da Inglaterra [Igreja Anglicana] e tiveram influência moderadora no subsequente posicionamento da igreja nos assuntos morais levantados pela homossexualidade. O trabalho de Bailey e seus colegas também abriu o caminho para o progressivo [relatório] Wolfenden Report (1957), que foi seguido uma década depois pela descriminalização da conduta homossexual entre adultos consensuais na Inglaterra e País de Gales.
Como um projeto separado resultante desse trabalho, ele ocupou-se em um estudo histórico que resultou na publicação de seu livro pioneiro fundamental “Homosexuality and the Western Christian Tradition” [=’homossexualidade e a tradição cristã ocidental’]. Embora esta monografia tenha sido criticada, mesmo assim ela foi um ponto de referência neste assunto, combinando a investigação minuciosa das evidências bíblicas com um levantamento da história subsequente. O livro de Bailey chamou atenção para vários assuntos negligenciados, como registros/testamentos de heranças (intertestamental literature), legislação de imperadores cristãos, registros penitenciários, e a correlação entre heresia e sodomia. Desde então a sua obra foi superada por análises mais extensivas por acadêmicos especializados na Bíblia; mas seu trabalho teve uma influência importante nas primeiras obras por historiadores que se seguiram (por exemplo, John Boswell com “Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality” [=’cristianismo, tolerância social, e homossexualidade’], e Mark D. Jordan com “The Invention of Sodomy in Christian Theology” [=’a invenção da sodomia na teologia cristã’], e acadêmicos com especialização bíblica, como William Countryman com seu livro “Dirt, Greed, and Sex” [=sujeira, ganância, e sexo’]).
Também foi importante por influenciar as conclusões do British Wolfenden Report [=’relatório wolfenden britânico’], o qual levou à descriminalização da homossexualidade no Reino Unido, e mais tarde às deliberações da Igreja Anglicana sobre o assunto.
Atualmente, não somente as igrejas chamadas inclusivas, como é o caso da Igreja da Comunidade Metropolitana, mas até mesmo algumas igrejas tradicionais como a Igreja Presbiteriana americana já tem pastor assumidamente homossexual atuando no ministério. Este é o caso de Scott Anderson, o primeiro pastor presbiteriano reconhecidamente gay, que foi ordenado em 08 de outubro de 2011. Antes deles, porém, a Igreja Episcopal já tinha consagrado o primeiro bispo episcopal gay dos EUA, o bispo Gene Robinson, em novembro de 2003, seguido de uma bispa assistente e assumidamente lésbica, a Reverenda Mary Glasspool em dezembro de 2009. Diversas outras denominações têm se aberto para discutir a inclusão de ministros gays em seus quadros, bem como a celebração de casamentos e outras práticas religiosas comunitárias.
Isto, porém, não é exclusividade do cristianismo protestante, visto que outras religiões tradicionalmente antipáticas aos homossexuais estão revendo seus conceitos e se tornando mais solidárias às demandas dessa parcela da população. Este é o caso dos judeus e dos muçulmanos, tanto Imãs quanto seguidores. Até mesmo o catolicismo que é um dos mais ferrenhos perseguidores de homossexuais da história, tendo inclusive torturado e assassinado inúmeros homossexuais através dos tribunais da Inquisição, não consegue evitar o fluxo da história e o apelo que os direitos fundamentais dos seres humanos exerce sobre seus sacerdotes (vide Frei Betto e Frei Gilvander Moreira e a freira americana Margaret A. Farley), além de organizações para-eclesiásticas que mobilizam seguidores.
Voltando às mobilizações e manifestações dos anos 70, vale ressaltar que estas resultaram no surgimento de centenas de organizações de gays e lésbicas, e que estas organizações obtiveram importantes conquistas como as seguintes:
1. Fizeram a Associação Nacional de psiquiatria rediscutir a classificação dos homossexuais como doentes;
2. Impuseram fim à proibição de homossexuais nos serviços públicos em diversas cidades e estados;
3. Obtiveram a anulação de leis que puniam criminalmente a sodomia em dezoito estados dos EUA;
4. Conseguiram a aprovação de leis em várias cidades proibindo a discriminação nos locais de trabalho e moradia.
Porém, os avanços conquistados no início da década foram sistematicamente atacados durante o decorrer dos anos 70 e 80. O aprofundamento da crise econômica mundial abriu espaço para um discurso conservador que fez com que muitas leis anti-discriminatórias fossem revogadas apesar da resistência dos grupos organizados e da comunidade homossexual em geral. Um dos exemplos mais importantes desse embate se deu em Miami, na Flórida, em 1977. A derrota de uma lei em defesa dos direitos homossexuais levou centenas de milhares de pessoas às ruas. Já em São Francisco, 250.000 pessoas saíram às ruas em protesto contra os ataques aos direitos homossexuais e para repudiar o assassinato de um membro da comunidade por três adolescentes.
Na medida em que a onda conservadora avançava e os direitos legais eram retirados, aumentavam também os ataques físicos aos homossexuais. O caso mais famoso foi sem dúvida o assassinato de Harvey Milk, em São Francisco, o primeiro vereador assumidamente gay eleito nos EUA.
Em novembro de 1978, um ex-policial e vereador, Dan White, assassinou Milk e o prefeito da cidade dentro da própria prefeitura. O assassinato provocou uma onda de manifestações em nível nacional e internacional, que teve seu ápice em maio do ano seguinte, quando White, apesar de todas as evidências, recebeu a sentença mínima (oito anos, com direito à liberdade condicional depois de cinco).
Diante deste resultado, 10 mil pessoas se concentraram na frente da prefeitura para protestar. A manifestação evoluiu rapidamente em um violento confronto com a polícia que teve como saldo 119 feridos (entre policiais e manifestantes), danos generalizados no prédio da Prefeitura e vários carros queimados. A revolta dos manifestantes foi ainda maior diante dos policiais que os atacavam aos berros dizendo que era chegada a hora de “limpar a cidade” e retoma-la das mãos dos “veados”. Atualmente, policiais do departamento de polícia de San Francisco, não apenas respeitam a população LGBT, como alguns deles ainda produziram um vídeo para a campanha It Gets Better, no qual falam a jovens LGBT a partir de sua própria experiência de superação do preconceito homofóbico.
Desde a eleição (e o injustificável assassinato) de Harvey Milk, novas vitórias foram conquistadas, mas sempre ao preço de embates com políticos ultraconservadores e religiosos fundamentalistas. A mais recente vitória foi a aprovação do casamento gay em diversos estados americanos, a suspensão da política do “Não Pergunte, Não Fale” nas Forças Armadas – o que garante que o militar homossexual não seja discriminado por causa de sua sexualidade -, e dois discursos do Presidente Barack Obama – um para jovens LGBT, encorajando-os a resistirem firmes contra o bullying homofóbico que tem estimulado o suicídio de vários deles; e outro sobre a legitimidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mandando um recado importante para a nação e para o mundo sobre os direitos civis da população LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais, Travestis, e Intersexo).
No Brasil
Historia do Movimento LGBT Brasileiro
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Histórico do movimento Homossexual Brasileiro de 1978 a 1991
28 de Junho de 1969 é a data que marca o início do moderno movimento gay mundial, graças ao conflito no Bar Stonewall em Nova York, conforme mencionado anteriormente. Assim, o dia 28 de Junho ficou mundialmente conhecido como o “Dia Internacional do Orgulho Gay e Lésbico”. Atualmente, fala-se em Orgulho LGBT (ou até mesmo LGBTI) para ampliar a noção de diversidade sexual e de gênero.
No Brasil, os desdobramentos foram diversos. Em 1978 foi fundado o jornal O Lampião, o principal veículo de comunicação da comunidade homossexual. Em Março de 1979, surgia em São Paulo o primeiro grupo brasileiro de homossexuais organizados: o Somos. Depois deste, surgiram o Somos/RJ; o Grupo Gay da Bahia; o Dialogay de Sergipe; o Atobá e Triângulo Rosa no Rio de Janeiro; o Grupo Lésbico-Feminista de São Paulo; o Dignidade de Curitiba; o Grupo Gay do Amazonas; o Grupo Lésbico da Bahia; e assim por diante. 
Em 1980 foi realizado em São Paulo, o 1° Encontro Brasileiro de Homossexuais. Quatro anos mais tarde, em 1984, realizou-se 2º EBHO (Encontro Brasileiro de Homossexuais) em Salvador. Onze anos depois (1995), Curitiba recebia o VIII Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis. Neste ano, o Movimento Homossexual Brasileiro já contava com aproximadamente 50 grupos, espalhados pelo território nacional, incluindo quatro grupos de lésbicas, quatro grupos de travestis e o recém-fundado Grupo Brasileiro de Transexuais (Cuiabá), o primeiro do gênero na América do Sul.
Porque os homossexuais se organizam em grupos?
Um grupo homossexual funciona como uma espécie de sindicato para defesa da categoria, reunindo forças para lutar contra a discriminação e pressionar o poder público a garantir os direitos de cidadania dos gays, lésbicas, travestis e transexuais. Os bissexuais no Brasil ainda são tímidos quanto à mobilização, mas nos EUA e na Europa, eles formam organizações atuantes.
Basicamente, são três os objetivos do Movimento Homossexual Brasileiro: lutar contra todas as expressões de homofobia (intolerância à homossexualidade); divulgar informações corretas e positivas a respeito da homossexualidade; conscientizar gays, lésbicas, travestis e transexuais da importância de se organizarem para garantirem plenos direitos civis e políticos. 
Os grupos homossexuais funcionam através de reuniões onde seus membros e visitantes discutem informalmente sobre os principais problemas do dia a dia de suas comunidades, planejam ações de divulgação de seus objetivos, além de funcionarem como grupo de apoio no processo individual de cada homossexual na conquista de sua autoestima, divulgando informações e estratégias de prevenção da AIDS e das demais DST.
O Movimento Homossexual Brasileiro tem apenas duas décadas de existência, mas tem obtido importantes vitórias no reconhecimento dos direitos humanos dos gays, das lésbicas, das travestis e das transexuais. Uma dessas vitórias foi registrada em 1985, quando o Conselho Federal de Medicina declarou que a homossexualidade não mais poderia ser classificada como “desvio e transtorno sexual”. Outra vitória foi em 1989, quando se deu a inclusão de proibição contra a discriminação por orientação sexual no Código de Ética dos Jornalistas. Em l990, nas leis orgânicas de 73 municípios e nas constituições dos Estados de Sergipe, Mato Grosso e Distrito Federal, foi incluída a expressa proibição de discriminar por orientação sexual. Denúncias de violação dos direitos humanos e assassinatos de homossexuais foram publicados no Relatório Anual do Departamento de Estado dos Estados Unidos (1992). Em 1995 realizou-se no Brasil a 17ª Conferência da Associação Internacional de Gays e Lésbicas, (ILGA). Foi também em 31 de janeiro de 1995, na cidade de Curitiba, Paraná, que a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis) foi criada para lutar pelos direitos humanos e civis de gays, lésbicas e travestis, estendendo-se também aos transexuais e transgêneros. O objetivo da ABGLT, conforme sua Carta de Princípios, é lutar pela promoção da livre orientação sexual, pela liberdade, justiça social, democracia, pluralidade e diversidade de gêneros. A ABGLT disponibiliza os contatos de organizações que oferecem apoio jurídico e psicológico à população LGBT.
De lá para cá, várias conquistas civis têm sido registradas, sendo a mais valiosa o reconhecimento das uniões civis entre pessoas do mesmo sexo em plena igualdade com as uniões civis entre pessoas de sexo diferente. A decisão foi do Supremo Tribunal Federal em maio de 2011, e foi recebida como um grande avanço no que diz respeito aos direitos civis da população LGBT do Brasil.
Em nível estadual, o Rio de Janeiro é atualmente o mais inclusivo para a população LGBT, graças à gestão do Governador Sergio Cabral, que criou a Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos (SEASDH), cujo Superintendente é Cláudio Nascimento, um dos mais atuantes militantes gays do Brasil, com grande experiência, tendo sido por muitos anos presidente do Grupo Arco-Íris (sediado no Rio de Janeiro), atualmente presidido por Júlio Moreira. Um dos pontos fortes da SEASDH é a campanha Rio sem Homofobia, que promove várias ações de combate ao preconceito e à discriminação contra LGBT, bem como ações de inclusão desse segmento, promoção da cultura LGBT, e conscientização dos servidores públicos sobre temas relevantes para essa parcela da população. Os principais campos de ação incluem educação, saúde, segurança, cultura, meio ambiente e administração penitenciária. A SEASDH também mantém Centros de Referência LGBT na cidade do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Friburgo, Niterói, e está preparando outros para inauguração em breve. Além de serviços prestados gratuitamente na área jurídica, psicológica e de assistência social, os Centros de Referência ainda mantém um serviço permanente denominado Disque Cidadania LGBT (0800 0234567) que oferece todo tipo de orientação e apoio a essa parcela da população carioca e fluminense.
A mobilização das organizações civis e o diálogo com os representantes políticos e instituições governamentais teve seu ponto alto na I Conferência Nacional LGBT, convocada (em 2008) pelo então Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. A II Conferência Nacional LGBT foi realizada em 2011. Apesar disso, porém, o Congresso Nacional e o Senado Federal ainda não aprovaram o casamento igualitário ou o projeto de lei que criminaliza a homofobia no Brasil. Ambas as leis já foram reconhecidas em outros países da América Latina, tais como o Chile, onde homofobia é crime atualmente, e Argentina, onde o casamento não discrimina mais o sexo dos nubentes.
Com o advento da Internet com seus sites, blogs, redes sociais etc., o Movimento LGBT Brasileiro ganhou novos contornos, deixando de ter sua agenda construída apenas pelas organizações não-governamentais ou os chamados ‘grupos gays’, que sentem “o pulso” da comunidade LGBT quanto às suas demandas, a partir de diferentes interações e novas possibilidades de observação social. Isso significa que atualmente, a sociedade civil – com sua individualidade reforçada pela livre comunicação proporcionada pela Internet – também participa do Movimento LGBT Brasileiro.
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Algumas datas marcantes para a população LGBT do Brasil
1500: Ao desembarcarem no Brasil, os portugueses ficam admirados com os índios praticantes do “abominável pecado de sodomia”;
1547: Chega ao Brasil Estêvão Redondo, considerado o primeiro homossexual degredado para o Brasil;
1821: É extinta a inquisição, eliminando-se a pena de morte contra os sodomitas;
1830: Entra em vigor o Código Penal do Império Brasileiro, que exclui o crime de sodomia;
1978: Fundação do Somos, primeiro grupo em defesa dos direitos LGBT do Brasil;
1980: Fundação do Grupo Gay da Bahia, em Salvador, o mais antigo grupo LGBT ainda em funcionamento na América Latina;
1983: No dia 19 de agosto, as lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, em São Paulo, revoltaram-se contra a discriminação que as ativistas do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) sofriam no local. A ocupação do bar é considerada o “Stonewall brasileiro“.
1985: O Conselho Federal de Medicina retira o homossexualismo da classificação de doenças;
1989: as constituições dos estados de Mato Grosso e Sergipe explicitamente proíbem discriminação contra orientação sexual.
1993: Estreia do Festival Mix de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual, realizado por André Fisher, depois de ter sido convidado pelo New York Lesbian and Gay Experimental Film Festival, que decidiu ampliar seu alcance para outros países. Depois disso, o Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som decidiu sediar uma edição brasileira do festival, que ganhou o nome de I Festival Mix Brasil e estreou no dia 5 de outubro de 1993. Este ano (2012), o Festival está realizando sua 20ª edição.
1995: É fundada a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABLGT), em Curitiba, a maior entidade em defesa dos direitos LGBT da América Latina;
1995: Marta Suplicy propõe o projeto de lei 1151, relativo à união civil;
1995: Primeira Parada do Orgulho Gay de Copacabana (hoje, Orgulho LGBT)
1997: Primeira Parada do Orgulho Gay de São Paulo (hoje, Orgulho LGBT). Foram realizadas 54 Paradas do Orgulho LGBT no Brasil em 2011.
2000: O INSS é obrigado pela justiça federal a conceder, em todo o país, pensão por morte e auxílio-reclusão ao companheiro homossexual;
2004: O Rio Grande do Sul determina aos cartórios de Títulos e Documentos que registrem uniões homoafetivas;
2006: É sancionada a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), a primeira lei federal no país a prever expressamente a união homoafetiva (feminina);
2008: É convocada a I Conferência Nacional LGBT pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva;
2008: O dia 19 de agosto foi marcante para a comunidade transexual, pois desde então, o SUS passou a oferecer a cirurgia de transexualização. Quatro hospitais universitários foram os pioneiros: Hospital de Clínicas de Porto alegre (UFrGS), Hospital Universitário Pedro Ernesto (Universidade estadual do rio de Janeiro), Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Hospital das Clínicas (Universidade Federal de Goiás).
2010: Jean Wyllys é eleito deputado federal, sendo o primeiro parlamentar assumidamente gay e publicamente comprometido com a defesa dos direitos LGBT na Câmara dos Deputados.
2010: O Ministério da Fazenda, através de uma portaria, estendeu o direito de declaração conjunta para os casais homoafetivos.
2011: A presidente Dilma Rousseff convoca a II Conferência Nacional LGBT;
2011: O STF equiparou as relações entre pessoas do mesmo sexo à de união estável. Ficam assegurados diversos direitos, tais como direito à pensão alimentícia em caso de separação, divisão dos bens, pensão do INSS em caso de morte do segurado, entre outras coisas. Por estarem sujeitas à Constituição, conforme palavras do próprio Ministro das Forças Armadas, Nelson Jobim, em 07 de maio de 2011, todos os direitos assegurados pela decisão do STF estão igualmente garantidos para os casais homoafetivos, nos quais um ou dois parceiros estejam nas forças armadas, exatamente como se dá com os militares heterossexuais vivendo sob o mesmo regime.
2012: São Paulo anuncia para 2013 a inauguração do primeiro museu gay da América Latina. O espaço deverá ser construído na estação República do Metrô. O Centro Cultural Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo terá 150 metros quadros e sua função será o resgate da história do movimento gay em São Paulo. Atualmente, as únicas cidades que têm museus semelhantes são Berlim e São Francisco. Será, sem dúvida, um importante referencial para os interessados na história e na cultura LGBT e sua relação com a maior cidade do Brasil.
Para onde vai o Movimento LGBT?
As duas grandes demandas atuais do Movimento LGBT e da comunidade LGBT são o casamento igualitário e a criminalização da homofobia. As duas coisas estão ligadas, pois não é possível viver uma relação conjugal plena se a homofobia dos desafetos agride e mata os LGBT ao menor sinal de homoafetividade. Por outro lado, a mera preservação da vida não garante a liberdade de amar a quem se deseja. Levando em conta que a união civil já garante a maior parte dos direitos que um casamento pode assegurar, muitos homossexuais consideram a criminalização da homofobia mais urgente. De qualquer modo, ambas as demandas são legítimas e merecem a carinhosa atenção dos legisladores e a constante pressão da sociedade para que se efetivem o mais rápido possível.
Com a vitória da cidadania, toda a sociedade sai ganhando, porque quanto mais justa e igualitária for uma nação, mais próspera e feliz, ela será. Garantir direitos a essa parcela da população não é subtrair direitos a ninguém. Por isso, não se justifica a perseguição dos poucos, porém barulhentos, oponentes que ainda se agarram a conceitos ultrapassados e muitas vezes arraigados em preconceitos sem o menor fundamento.
O Movimento LGBT deve muito às organizações não-governamentais que atuam no âmbito político e precisa continuar apoiando essas organizações e contando com elas. Porém, o Movimento LGBT não se restringe às ONGs. Ele é composto por uma rede de iniciativas que incluem acadêmicos, escritores, artistas, atores, produtores de cinema e de teatro, empresários que investem no mundo do entretenimento e do chamado turismo LGBT, publicações periódicas como revistas e jornais, livros, música, religiões atualmente denominadas inclusivas, livres pensadores, ateus, políticos eleitos, sites, blogs, grupos em redes sociais, e por aí vai. São pessoas que como quaisquer outras constroem suas biografias de acordo com seus afetos, identidades e sonhos. Cada uma dessas pessoas precisa estar consciente do seu papel e unir forças na promoção da cidadania plena para todos, sem distinção de orientação sexual, identidade de gênero, raça, sexo, religião etc. Entretanto, sem as organizações que apresentam aquelas demandas que muitas vezes passam longe da atenção da mídia, não conseguiríamos estabelecer definitivamente a cidadania LGBT plena. Veja AQUI quanta coisa está envolvida nisso e por que devemos apoiar o Movimento LGBT organizado.
Levando em conta que este texto está sendo publicado no site oficial de uma organização que reúne humanistas ateus e agnósticos, vale ressaltar que quando o LGBT é ateu, ele sofre ainda mais preconceito, porque além da homofobia, ele também sofre a “ateofobia”. E por serem alvo de preconceito e discriminação, os ateus e agnósticos compartilham um lugar comum com os LGBT.
Por isso, 28 de junho é o Dia do Orgulho LGBT e deve ser celebrado não só por pessoas homoafetivas, mas por todos os que amam a liberdade e valorizam a individualidade humana na coletividade do que chamamos humanidade. Todos os que aspiram à igualdade de direitos respeitando a diversidade dos seres. Enfim, todos os que consideram a felicidade humana como um valor. E é por isso que ninguém mais do que os humanistas pode dizer: Viva a diversidade humana, inclusive sexual e de gênero! Viva 28 de junho – o Dia do Orgulho LGBT!
* Sergio Viula é Presidente do Conselho LGBT da LiHS, Liga Humanista Secular do Brasil
ILUSTRAÇÕES:

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Derrick Shewin Bailey, Teólogo Gay Pioneiro 

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Harvey Milk, primeiro vereador americano assumidamente gay – São Francisco, Califórnia 

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Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB) 

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Deputado Jean Wyllys

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Toni Reis (à esquerda), presidente da ABGLT e seu marido David Harrad celebrando sua união civil 

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Cláudio Nascimento Silva (Superintendente da SEASDH) e João Silva, casados 

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André Fischer – Mix Brasil

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João Nery – o primeiro transhomem do Brasil 

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Roberta Close – a mais famosa transmulher do Brasil 

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Jane di Castro – canta o hino nacional há quinze anos na abertura da Parada do Orgulho LGBT de Copacabana (Rio)

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Nany People – uma das mais famosas drag queens do Brasil 

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Julio Moreira, coordenador do Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro 

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Miriam Martinho, uma das primeiras militantes lésbicas do Brasil 

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O museu alemão que relembra as vítimas gays do holocausto e celebra a diversidade sexual
PARADA/ORGULHO GAY
Parada do Orgulho LGBT de São Paulo

VIDEO COM O SECRETÁRIO GERAL DA ONU – BAN KI-MOON