Mães pela Igualdade

Quando a dor se transforma em força

Mãe Beduína. Garrigues, 1917.
Maio se estabeleceu como o mês das mães. É verdade que boa
parte dessa celebração é motivada pelos interesses da indústria e do comércio,
mas é inegável que o amor que se estabelece entre mãe e filho desde a gestação
é forte, belo e mais forte que a morte. Infelizmente, há exceções. Todavia, a
esmagadora evidência demonstra que a relação mãe-filho comporta compreensão e
cumplicidade num nível que dificilmente encontra semelhante.
Por isso mesmo, a dor de uma mãe que vê o próprio filho
ferido é incomparável e torna-se insuportável quando essa mãe precisa enterra-lo.
Seria injusto, porém, não reconhecer que muitos pais sentem e demonstram a
mesma compreensão, cumplicidade e dor para com seus filhos ao longo da jornada
da vida. Isso não é uma exclusividade feminina, mas ganha contornos mais
visíveis nas mães do que nos pais talvez até por razões biológicas ou culturais,
ou uma combinação de ambas, como saber?
Esse ano, o dia das mães será dia 13 de maio, domingo
próximo. Por isso, a LiHS aproveita a oportunidade para vir à público e manifestar
seu apoio às mães que, tendo vivenciado a dor de ver um filho ferido ou morto
por homofobia, ainda estão não tiveram pelo menos o consolo de ver os
agressores ou assassinos de seus rebentos responder juridicamente por tais
atrocidades.
No Rio de Janeiro, Coordenadoria de Diversidade Sexual da
Prefeitura do Rio de Janeiro (www.cedsrio.com.br)
em parceria com a organização internacional AllOut (http://www.allout.org/pt/maespelaigualdade)
organizou uma emocionante exposição que esteve na Praça XV semana passada, e
que agora migra para outros pontos da cidade. Nela, fotos de mães com seus
filhos gays, lésbicas e transexuais emocionam quem passa. As fotos são
acompanhadas de comentários das mães sobre seus filhos. Existem quadros, porém,
nos quais as mães estão sozinhas. A tristeza no olhar dessas mulheres é
reveladora: ali está a dor da ausência. Seus filhos foram mortos por
homofóbicos; sua alegria foi estancada, suas vidas foram marcadas pela tristeza
que acompanha tamanha crueldade. A dor ganha novos contornos quando deputados e
senadores se omitem diante de tanta crueldade. Um parlamentar conhecido por demonstrar
atitudes racistas, machistas e homofóbicas. Em 2012, ele disse: “Prefiro ter um
filho morto em acidente do que um filho gay.”
Quando legisladores que deveriam promover a igualdade e
coibir a discriminação e agressão contra qualquer cidadão, inclusive o cidadão
LGBT, dizem esse tipo de absurdo ou agem motivados por preconceitos como esse
para adiar a aprovação de leis que protejam essa parcela vulnerável da
população, eles torturam as vítimas mais uma vez, sejam os próprios
homoafetivos ou seus parentes e amigos. As mães que encontraram os corpos
inertes de seus filhos, muita vezes, mutilados pelo ódio homofóbico de seus
agressores, são violentadas de novo. Aquelas que viram seus filhos hospitalizados
são novamente submetidas à dor. Os filhos que sobreviveram à violência dos
agressores revivem o terror vivido naqueles momentos que pareciam intermináveis,
agora com o agravante da injúria de quem deveria garantir seus direitos – o
Estado.
“Nós últimos meses, mães de todos os cantos do Brasil
começaram a unir suas forças para dar um recado claro contra a discriminação, a
violência e a homofobia crescentes, que estão saindo do controle no país. Elas
se recusam a aceitar insultos e injúrias contra seus filhos. Elas são as ‘Mães
pela Igualdade’.” – informa a AllOut que promove com a prefeitura do Rio essa
emocionante exposição que será apresentada na Praça Antero de Quental (Leblon),
de 09 a 15 de maio, depois Praça Saen Peña (Tijuca), de 16 a 22 de maio, e
finalmente Vigário Geral de 23 a 29 de maio.
É fato que sendo no Rio de Janeiro a campanha terá
visibilidade, porém, muitos brasileiros que moram em outras cidades não terão a
oportunidade de ver a exposição.Há, porém, um modo de participar desse
importante movimento. A AllOut está promovendo uma petição que você pode
assinar de qualquer lugar do Brasil e do mundo. A petição está online.  Apoie essa iniciativa que mitigará um pouco da
dor dessas mães e poderá fazer nossas autoridades agirem contra essa onda de violência
que já vitimou gente demais. Nossos legisladores precisam mandar um recado para
toda a sociedade por meio de legislação que coíba crimes como esses.
Veja as fotos das mães e seus filhos,
suas declarações e assine a petição aqui: http://www.allout.org/pt/maespelaigualdade
Sergio Viula
Presidente do Conselho LGBT da LiHS

Carta Capital fala sobre a polêmica envolvendo Malafaia e Avon

Sociedade

Beatriz Mendes

Beatriz Mendes

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/avon-silas-malafaia-e-a-propagacao-da-homofobia/

Preconceito

07.05.2012 13:02

Avon, Silas Malafaia e a propagação da homofobia

Silas Malafaia é um velho conhecido da comunidade gay no Brasil. O pastor, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, costuma protagonizar polêmicas a envolver intolerância e preconceito. Em 2006, foi ele o responsável por uma manifestação diante do Congresso Nacional contra a lei criminalizadora da homofobia. Na ocasião o pastor afirmou que relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são a porta de entrada para a pedofilia. “Deveriam descer o porrete nesses homossexuais”, decretou, certa vez, em seu programa de tevê – em rede nacional, diga-se, valendo-se de seu direito de liberdade de expressão.

O All Out, site que divulga abaixo-assinados do mundo todo, divulgou a causa de Sérgio Viúla e definiu Malafaia como ‘extremista anti-gay’

Por estes e outros motivos, foi uma surpresa para o professor de inglês Sérgio Viula, de 42 anos, e seu namorado, Emanuel Façanha da Silva, quando em meio a promoções de maquiagens, perfumes e bijuterias, depararam-se com livros de Malafaia no catálogo da Avon. “Não são somente obras devocionais ou de leitura budista, católica ou uma novena. Os livros dele são de militância fundamentalista aberta, assim como seus programas de televisão”, diz Viúla a CartaCapital.

O professor conta que a gota d’água foi a inclusão do livro A Estratégia entre os títulos comercializados pela Editora Central Gospel – cujo dono é Silas Malafaia. A obra, escrita pelo pastor americano Louis Sheldon, levanta a teoria de que os homossexuais estão fazendo um complô contra a humanidade.

Diante da situação, Viula – que não faz parte de nenhuma organização LGBT – resolveu se manifestar. Seu argumento se baseou em um tratado de direitos humanos emitido no ano passado pela Avon, comprometendo-se a não contribuir com qualquer tipo de prática discriminatória. “Escrevi uma carta para a empresa brasileira, falando sobre a minha indignação. Como eles não se manifestaram de imediato, resolvi traduzir a mensagem e encaminhá-la para a Avon dos Estados Unidos”, conta.

Pouco tempo depois, a empresa brasileira escreveu um comunicado em sua página do Facebook, alegando que a “variedade de títulos comercializados contempla a diversidade de estilos de vida, religião e filosofia presentes em nosso País”. Complementou falando não ter a intenção de promover conteúdo desrespeitoso aos direitos humanos.

“A carta contribuiu para eles entrarem em contato comigo, mas o fator determinante foi o fato de o Emanuel ter resolvido parar de trabalhar com a Avon”, acredita o professor. Segundo ele, o parceiro era o que a empresa chama de “Consultor Estrela”, pois vendia produtos em grande quantidade. Quando se deu conta de que os livros de Malafaia estavam no catálogo, abriu mão do cargo. “A gente nunca tinha reparado nos títulos porque ele trabalhava mais com o setor de cosméticos. Mas quando saiu da Avon, representantes da marca o procuraram no escritório, pedindo para ele voltar”.

Nesse meio tempo, as pessoas começaram a se solidarizar com a causa. Representantes de grupos LGBT também entraram em contato com a Avon. Duas mulheres redigiram uma petição em inglês, divulgada no All Out, site que publica abaixo-assinados do mundo todo. “No texto, eles explicaram quem é Silas Malafaia e quais são as ideias propagadas por ele. O negócio está bombando, a Avon vai ter que tomar uma atitude”, enfatiza o militante.

“Muitas pessoas também me perguntaram se valia a pena lutar por essa questão. Eu acho que sim porque se fosse o livro do Hitler, os judeus protestariam, se fosse um livro que negasse a existência da escravidão, os negros ficariam indignados. Por que os gays não podem se manifestar também?”, questiona.

Outro lado


CartaCapital pediu entrevistas à direção da Avon, mas a empresa informou que seu posicionamento oficial é aquele já divulgado por meio do comunicado. “Estamos avaliando as ponderações recebidas e buscando a melhor solução para seguir atendendo nossos consumidores com base em nossos valores”.

Silas Malafaia, por sua vez, tratou a questão com desdém. Em nota divulgada em sua página, o pastor ironizou a movimentação dos ativistas. “Esses gays estão dando um ‘tiro no pé’, estão me promovendo com uma tamanha grandeza que nunca pensei de ser tão citado e até defendido por jornalistas como, por exemplo, Reinaldo Azevedo’, escreveu.

Ele afirmou ainda que essas ações dão a ele elementos para lutar contra o Projeto de Lei 122 – aquele que criminaliza a homofobia. “Se antes de ter leis que dão a eles privilégios, já se acham no direito de perseguir e intimidar os que são contra seus ideais, imaginem se a lei for aprovada”, disse.

Também incentivou os fiéis a mandarem emails para a empresa, pedindo para os livros continuarem no catálogo. “Nós, evangélicos, representamos pelo menos 30% das vendas de produtos Avon. Os gays talvez 2%. Eles são tão abusados que pensam que com ameaças vão nos calar”, concluiu.

Diante do comunicado, Viula afirmou: “Malafaia é um extremista. Inclusive, outros pastores não concordam com as atitudes dele. Dá para ser cristão sem ser homofóbico, agora eu não sei como é possível ser homofóbico e cristão. Essas são contradições que podem matar pessoas”.

O professor fala com autoridade: ele já trabalhou como pastor da Igreja Batista e ajudou, na época, a fundar o Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), ONG prestadora de serviços de “assistência” a homossexuais que gostariam de mudar sua orientação sexual. “Depois de um tempo no Moses eu percebi que aquilo era uma falácia, uma hipocrisia. As pessoas sofriam e viviam uma vida dupla, é impossível deixar de ser gay”, contou.

 

A páscoa evangélica da Chocolates Garoto

Pode-se dizer, sem medo de errar, que os chocolates Garoto fazem parte da infância de quase todos os brasileiros, e em todas as gerações que vivem atualmente. Afinal, a Garoto já tem mais de 80 anos. Pode-se dizer também que a Garoto tem um certo valor afetivo para o Brasil.
O paladar e, mais especialmente, o olfato, são sentidos que estão intimamente ligados às nossas memórias afetivas. Alguns de vocês, ao sentir o cheiro de algum desses produtos, possivelmente lembram de bons momentos na infância, especialmente na páscoa: um ritual benigno, baseado em parte na torrente de serotonina que o triptofano do chocolate nos dá, que já se secularizou há muito tempo.
Quando vi o ovo de páscoa do personagem cristão “Smilingüido” (que preservou o trema em seu nome pela intervenção divina), produzido pela Garoto, fiquei preocupado. Primeiro, porque pensava que a Garoto fosse uma empresa laica, secular, preocupada em nos satisfazer pelo paladar e não pela fé. Em segundo lugar, pela natureza da mensagem impressa na embalagem do produto.
O copo que vinha de brinde no ovo de páscoa diz “minha alegria não depende das circunstâncias mas do amor do meu criador”. Posso ser chamado de exagerado, mas ensinar a crianças esse estoicismo destacado da realidade e conformista, de que a alegria não depende do estado das coisas do mundo (e como as moldamos para melhorar), não é adequado.
Tenho brincado que parte da comunidade evangélica (inclua-se a Renovação Carismática Católica aqui) parece ter inveja do mundo secular, e por isso precisa criar cópia de tudo: rock gospel, acarajé gospel, até sex shop gospel já lançaram. Só existe um nome para essa tentativa de se apropriar de tudo o que há de bom no mundo, fazendo sua própria versão “purificada”: fundamentalismo.

Posso compreender que a Chocolates Garoto queira lucrar surfando na onda proselitista do movimento evangélico e católico. Mas, enquanto cresce o ressentimento de setores mais progressistas da população com os doutrinadores de crianças, creio que não é pequeno o preço que se paga por associar a imagem de uma empresa tradicional e até então aparentemente laica ao absolutismo moral e ao substituicionismo social de certos grupos.

P.S.: Curiosamente, o personagem Pildas, da turma do Smilingüido, estava ausente na embalagem do produto. Pildas é uma formiga “negra”: tem lábios grossos e antenas crespas, e lembra bastante o modo como os negros eram retratados em desenhos antigos (vide aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gH4ivOyO0PQ) que hoje são considerados inapropriados. A dona do Smilinguido, a editora Luz e Vida, chegou a fazer um boneco do personagem.

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Eli Vieira
presidente da LiHS