Pra acabar com as religiões

Autor: Jeronimo Freitas 30/abril/2011

Do mesmo jeito que um laboratório que vende medicamentos destinados a melhorar a saúde física e mental das pessoas, deve comprovar a eficácia de seu produto e é obrigado a deixar claro na bula seus efeitos colaterais, o padre na missa deveria deixar claro que não há evidências sobre a existência de Deus e que tudo que ele vai falar é baseado em textos de um livro que, embora ele creia e ache justo, não há provas de que seja divino.”

Não faz muito tempo iniciou-se um combate ao binômio álcool e volante. Até pouco tempo atrás as pessoas podiam beber e dirigir sem serem nem mesmo importunadas e muito menos condenadas por isso. Hoje elas continuam podendo fazer as duas coisas, mas não podem mais dirigir sob o efeito do álcool. Da mesma forma, é proibido a um adolescente comprar bebida alcoólica, assistir a filmes pornôs e votar. Essas coisas são proibidas principalmente pelos seguintes motivos.

  1. O álcool, a partir de certa quantidade, diminui os reflexos do condutor, o seu senso de responsabilidade e põe em risco sua própria vida e a de terceiros.
  2. A interdição da pornografia visa proteger a formação moral e um caráter ainda fortemente influenciável, da falsa idéia de que possamos aceitar como sendo normal, um comportamento julgado inaceitável dentro da sociedade em que ele vive.
  3. A interdição do voto a um menor visa proteger a sociedade das escolhas inconseqüentes de alguém que ainda não teve tempo suficiente para amadurecer uma visão critica e abrangente da complexidade cultural, social, econômica, histórica e política de seu país e do mundo.

Por isso eu me pergunto por que então as religiões não são igualmente regulamentadas? Os textos religiosos, quando apresentados como verdade e modelo de conduta a pessoas emocionalmente fragilizadas ou intelectualmente despreparadas, assim como a crianças e  adolescentes, os põe, de uma só vez, diante de todos os perigos acima referidos. Desde a mais tenra infância, quando ainda são incapazes de racionalizar corretamente, ainda não têm uma visão global da complexidade do mundo em que vivem e ainda estão desprovidas das bases intelectuais necessárias para o desenvolvimento de um senso crítico equilibrado, as pessoas são apresentadas a uma série enorme de estórias fantásticas, de conceitos morais, de normas de conduta e de respostas às questões fundamentais, baseadas unicamente nos textos de um livro escrito entre 5000 e 1600 anos[1]. Como se pode permitir, justificar e incentivar uma coisa dessas? Será que eu estou exagerando em querer proteger as pessoas desse abuso de autoridade e da irresponsabilidade de pessoas que se baseiam apenas na fé, como um guia moral? Não creio. Eu acho que seria mais sensato nos mobilizarmos para tentar limitar o poder das religiões e convencer as autoridades a estipular regras para enquadrá-las de uma forma segura.

 

Eu não quero falar do islã radical, pois creio que seria muito caricatural falar da sua periculosidade, por isso não pretendo tomar como exemplo os atos terroristas da jihad islâmica e os castigos físicos da sharia. Vejamos apenas questões sociais relacionadas aos dogmas cristãos como o bulling homofóbico, a interdição do direito ao aborto, a proibição dos métodos contraceptivos e a propaganda falaciosa contra a ciência e a extorsão de inocentes por seitas inescrupulosas. Quantas vidas foram prejudicadas, quantas pessoas foram infelizes, morreram depressivas, foram assassinadas ou se suicidaram, por conta da culpabilidade ou do assédio religioso? Quanta gente foi forçada ou impedida de casar por causa de premissas religiosas?

 

Quem já assistiu ao filme O Pagador de Promessas? Quantas pessoas humildes e desesperadas enfrentaram suplícios físicos e psicológicos ao pagarem promessas para seres imaginários por causas de acontecimentos aleatórios? Digam-me, por favor, qual outro motivo, além do religioso, leva as pessoas a serem contra a união homossexual? Tem gente que argumenta que o “natural” é um casal ser constituído de macho e fêmea, pois se não, não produziram filhos e a nossa espécie acabaria. Isso é certo, se levarmos em conta que todo mundo esteja obrigado a reproduzir. Isso, por si só, já é uma premissa religiosa, a “crescei e multiplicai”. Esses críticos não levam em conta que as pessoas tenham direito de não sentirem a necessidade de conceber ou mesmo de criarem apenas seus filhos biológicos. Seria interessante refletir sobre os casais heterossexuais que querem ter filhos e não conseguem. Dever-se-ia então separá-los, já que a união matrimonial tem que ser heterossexual se não, não será prolífera? Recomendo a vocês esse excelente texto de Camilo Jr.[2]

 

A maioria dos crentes tem a visão ofuscada pela fé e não percebe a profundidade das “inconveniências” religiosas, certamente por terem crescido seguindo valores morais estabelecidos a 5000 anos. Quando o anacronismo desses conceitos se torna muito incontornável, eles apelam para o fato de que as religiões fazem mais bem que o mal. Será mesmo verdade? Eu sei que as religiões são responsáveis por muita coisa positiva. Elas estão por trás de programas para confortar pessoas emocionalmente desamparadas, retirar pessoas das drogas ou do álcool, pacificar os violentos, reabilitar criminosos, alimentar os famintos e abrigar desabrigados. Mas o grande equívoco das pessoas é pensar que caridade é exclusiva das religiões. Se formos realmente bons, devemos ajudar as pessoas sem ter que iludi-las com promessas fantasiosas. Os sem deus também são bons. Se os céticos ainda não são tão atuantes ou organizados, para fins filantrópicos, talvez seja pelo fato deles terem estado escondidos todos esses anos, fugindo do preconceito social e religioso. Talvez isso seja uma conseqüência do fato de os céticos terem espíritos independentes, e um senso crítico atuante, ao ponto de não se sentirem confortáveis em serem guiados ou comandados. Independentemente de qual motivo seja, fiquem certos de uma coisa. Nós estamos corrigindo as falhas. O importante a ser percebido agora é que, diferentemente da época da idade do bronze, hoje em dia não é mais necessário nos valermos de fábulas ou ameaças para promovermos o altruísmo e ajudarmos as pessoas. O grande problema das religiões está em seus efeitos colaterais. Como bem disse Christopher Hitchens: “Eu não tenho dúvidas que o Hamas efetue serviços sociais na faixa de Gaza.”[3]

Eu estou completamente de acordo com a idéia de que as pessoas devam ter direito à liberdade de expressão e o direito a acreditar naquilo em que quiserem. Esses Direitos Humanos estão, sem sombra de dúvidas, entre as maiores conquistas da democracia. Entretanto, eu milito para que razão prevaleça e que as crenças religiosas sejam mais rigidamente enquadradas pela lei e que haja um controle sobre a informação que elas veiculam. Ninguém acha normal deixar impune o charlatanismo. O conceito básico de charlatanismo é o uso da palavra para ludibriar outrem.

Eu já disse muitas vezes que quero acabar com as religiões. Eu sei que esse tipo de proposta assusta e machuca muita gente, notadamente os crentes[4] e os religiosos. Por isso eu gostaria de me explicar. Eu não quero erradicar as religiões da face da terra, eu não quero queimar igrejas nem livros, nem proibir as pessoas de cultuarem divindades. O que eu proponho é que a justiça enquadre as religiões como mitologia[5]. A justiça deve controlar esse discurso religioso que exerce uma influência capital na vida de bilhões de pessoas.

 

Sabemos que foi um fenômeno cultural, aliado ao uso da força, que transformou em mitologia as antigas crenças religiosas européias, outrora cultuadas por gregos, escandinavos, bretões, germanos, celtas, saxônicos e ibéricos e abriu espaço para o cristianismo na Europa e no resto do mundo. Está na hora de promovermos uma campanha para enquadrarmos a religião como fenômeno cultural. Eu sugiro começarmos limitando os subsídios a que elas têm direito. Eu não quero agredir ninguém, nem verbal, nem fisicamente. Eu quero levar as pessoas a discutirem essa idéia. Pôr a lei encima das religiões até que se chegue a algo como:

  • Vamos ser razoáveis. Enquanto vocês não provarem que o que dizem realmente aconteceu, vocês estarão obrigados a deixar isso bem claro para seus fiéis, antes, durante e depois do culto colocando, por exemplo, em vermelho, todo texto da Bíblia que não seja sustentado por fatos ou evidências.

 

Do mesmo jeito que um laboratório que vende medicamentos destinados a melhorar a saúde física e mental das pessoas deve comprovar a eficácia de seu produto e é obrigado a expor, na bula, seus efeitos colaterais, o padre na missa deveria deixar claro que não há evidências sobre a existência de Deus e que tudo que ele fala é baseado em textos de um livro que, embora ele creia e ache justo, não há provas de que seja divino. Ele deveria deixar bem claro que tudo o que se fala sobre Jesus Cristo advêm unicamente dos evangelhos que foram escritos entre cerca de trinta e cem anos, depois do suposto fato ter acontecido, por pessoas sob as quais não se sabe praticamente nada e que não foram testemunhas oculares do fato. Não há nenhuma outra fonte, que não seja evangélica, que dê suporte a esses fatos tão fantásticos e marcantes de uma época.

 

É realmente incrível pensar que o criador do universo veio à Terra, foi capturado, julgado, crucificado, morto e ressuscitado. Depois apareceu para as pessoas antes de subir aos céus e nada tenha sido registrado em nenhum livro de história da época, quando sabemos que esses livros já eram comuns naquele tempo e que foi inclusive graças a eles que soubemos muito do que sabemos sobre os romanos e outras civilizações do passado. É como se o fato de alguém ressuscitar seja algo sem importância pra ser registrado.

 

Vivemos numa época perigosa e já faz muito tempo que sabemos dos impactos da religião no mundo. Não devemos mais permitir que seja moralmente aceito que por causa de crenças compartilhadas por mais da metade da população do planeta, se tomem decisões, que afetam a vida de todos, baseando-se apenas na fé. Esse tipo de comportamento não é aceito em nenhuma outra área da nossa vida, porque a religião merece essa prerrogativa? A religião já teve a sua oportunidade de governar o mundo. Uma época que ficou conhecida como The Dark Age (a idade das trevas). Não vamos mais deixar que isso se repita. A fé é a desculpa que as pessoas dão para acreditarem em coisas sobre as quais ninguém foi capaz de provar que sejam verdadeiras. As religiões têm como objetivo convencer as pessoas a seguirem a sua verdade. Elas trabalham duro pra isso, elas constroem templos, arrecadam fundos, compram redes de TV, rádios e jornais, recebem subsídios públicos, elegem deputados e senadores, intervêm na política, bloqueiam o avanço da ciência, criam escola pra doutrinar crianças, julgam as pessoas e querem nos impor regras. Tudo isso em nome de um Deus que elas nunca conseguiram demonstrar que existe. Será que eu sou intransigente ou estou exagerando?

 

De acordo com a visão cristã, deus não deve se submeter a nenhuma moral. O que quer que ele diga é certo. Se deus mandar fazer algo, aquilo passa a ser a coisa certa a ser feita. Essa é uma visão psicótica e delirante. Ela é psicótica, pois quer te fazer crer que nós vivemos num mundo controlado por um senhor invisível. Se deus é bom e justo e quer nos guiar através de um livro, por que ele nos ditou um livro que apóia a escravidão? Porque ele nos deu um livro que nos incita a assassinar pessoas por causa de crimes imaginários? Vejamos os mulçumanos que estão se explodindo, nesse momento, achando que são soldados de deus. Não há nada nisso que um cristão possa criticar, do ponto de vista moral, a não ser o fato de que, para os cristãos, os mulçumanos seguem o deus errado. Pois se nos basearmos no mesmo tipo de lógica irracional, os mulçumanos apenas estão seguindo o que o deus deles, Alá, ditou e que encontra-se à disposição no Corão, traduzido em dezenas de idiomas. Para os cristãos, se os mulçumanos estivessem seguindo o deus correto, tudo o que eles fizessem de acordo com os textos sagrados, seria perfeitamente correto.

Eu não quero dizer que todos os cristãos são assim, psicopatas. O que eu quero mostrar é o horror da moral religiosa.

 

Só a religião pode impelir pessoas perfeitamente sãs e bem-intencionadas a acreditarem, aos milhões, em coisas que apenas lunáticos acreditariam individualmente. Se você acordar amanhã cedo, acreditando verdadeiramente que após dizer algumas palavras em latim para a sua torrada, ela vai se transformar no corpo de Michael Jackson, você será considerado um louco. Mas se você pensar que as mesmas palavras são capazes de transformar uma bolachinha no corpo de Jesus, você será apenas considerado um católico. (San Harris)

 

A maneira de amar deus é muito estranha. Ela condiciona a salvação a amá-lo sem ter provas de sua existência. Se você vivesse à 2000 anos, estaria tudo bem. Naquela época havia muitas provas, Deus vivia fazendo milagres, mas, ao que parece, deus cansou e agora o que restou foram apenas os relatos de seus feitos. Não podemos mais permitir que uma coisa assim continue influenciando a vida das pessoas, e causando tanto mal, em pleno século XXI.

Chegou a hora de nos levantarmos contra isso. O primeiro passo é mudar o status das religiões para o de simples mitologia!

 

Leitura complementar que mostra o abuso do poder religioso cristão nas escolas e repartições públicas brasileiras: http://bulevoador.haaan.com/2011/05/03/ameaca-a-liberdade-de-crenca/

 

 

[1] Me refiro aqui à Bíblia cristã.

 

[2] A sexualidade Humana <a href=”http://bulevoador.haaan.com/2011/03/19/sexualidade-humana/”>http://bulevoador.haaan.com/2011/03/19/sexualidade-humana/</a>;

 

[3] Hamas militancia em pró da independencia palestina, responsável pela norte de muitas pessoas, vítimas de seus atos terroristas na guerra contra Israel.

 

[4] Pela enésima vez digo que o termo crente significa “aquele que crê” e não apenas o cristão não católico, como se costuma dizer no Brasil.

 

[5] Religião, não. Mitologia : <a href=”http://bardoateu.blogspot.com/2011/03/religiao-nao-mitologia.html”>http://bardoateu.blogspot.com/2011/03/religiao-nao-mitologia.html</a>; e <a href=”http://bulevoador.haaan.com/2011/04/13/religiao-nao-mitologia/”>http://bulevoador.haaan.com/2011/04/13/religiao-nao-mitologia/</a>;

 

Agora Vai!

O pastor americano que havia previsto o fim do mundo para o último dia 21, admite que estava errado e revê a data para 21 de outubro próximo. Harold Camping diz ainda que vê nisso uma prova da “misericórdia divina”, uma vez que os que não fossem salvos no último sábado teriam que viver na terra uma espécie de purgatório até o “fim irrevogável” em outubro. Tudo em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/05/110524_pastor_fimdomundo_mv.shtm