Perguntas frequentes sobre humanismo

(FAQ)

1. Somos ateus?

Aqui, usaremos “humanista” com o mesmo sentido de “humanista secular”. Na IHEU, organização internacional da qual somos membros, tradicionalmente não se usa o qualificativo “secular”. Entre americanos, ainda é comum que se use o qualificativo “secular”, no entendimento de que há também humanistas religiosos. Enquanto na LiHS os “humanistas religiosos” são bem-vindos, deixamos claro que o sentido de “humanismo” na associação, como está em seu nome, é aquele da IHEU, tornado explícito na Declaração de Amsterdã 2002. Humanistas são céticos quanto às propostas de existência de entidades sobrenaturais e divinas. Uma forma de ceticismo quanto a divindades é o ateísmo, outra é o agnosticismo. Portanto, humanistas são ateus ou agnósticos.

2. Somos antropocêntricos?

Não. Como a fronteira entre as propriedades dos seres humanos e as propriedades de outros animais não é radicalmente nítida, faz todo sentido que humanistas tenham noções éticas que incluam outras espécies. Isso significa que humanistas não coadunam com a crueldade contra outros animais. Também não somos antropocêntricos em outros sentidos: os seres humanos são uma parcela ínfima do universo, antropocentrismo é acreditar que ele todo foi feito de presente para nós.

3. Somos pessoas sem norte ou desesperadas?

Não, ao menos não em função das nossas ideias. O humanismo oferece a autenticidade em aceitar os fatos sobre o que somos – por exemplo, que provavelmente não há vida após a morte – e buscar construir sentido para nossas vidas de forma racional. Uma vida não passa a ter sentido só porque supostamente é eterna, pensar assim seria como pensar que, porque tem valor a atividade de cuidar de um jardim em um dia, esse valor seria aumentado ou mantido se isso for feito o tempo todo ou para sempre. Vidas finitas ao mesmo tempo com sentido e frutíferas são não apenas uma possibilidade: são talvez a única forma de existirmos com finalidades de valor que abraçamos voluntaria e autenticamente.

4. Somos pessoas emocionalmente frias?

Absolutamente não. É um espantalho a ideia de que pessoas racionalistas são frias e sem emoção. Afinal, quando as pessoas sentem revolta, podem ser razoáveis ou irrazoáveis em estar revoltadas. Quando alguém se apaixona, pode estar sendo razoável nessa emoção, ou irrazoável (por exemplo, pode se apaixonar por alguém que só lhe faz mal e não corresponde). Além disso, quando exercitamos o pensamento crítico, podemos ter boas respostas emocionais pelo mero fato de estarmos fazendo isso, podemos ter prazer ao perceber nosso próprio crescimento pessoal quando abandonamos uma crença errada e adotamos uma mais próxima da verdade. Razão e emoções são intrincadamente relacionadas, e não necessariamente opostas. Sentir uma emoção qualquer não exime ninguém de submeter essa emoção ao exame crítico: podemos descobrir que a sentimos irrazoavelmente e agir de forma a fazê-la passar.

5. Rejeitamos qualquer coisa que não for cientificamente comprovada?

Não. Em primeiro lugar, a noção de “cientificamente provado”, se interpretada ao pé da letra, sugere que nada mais há para se descobrir sobre o assunto “provado”, ou então que a tal “prova” é impossível de estar errada. Essa atitude dogmática é incompatível com o proceder científico, que põe em funcionamento as habilidades da investigação, idealmente, com o rigor dos séculos de métodos refinados para ampliá-las e corrigir seus erros. A ciência é uma investigação que muito tem em comum com outros tipos de investigação: a que visa a solucionar crimes, a que busca solucionar problemas corriqueiros de uma casa, a que procura rigorosamente interpretar e aplicar leis, a que visa a inventar pratos irresistíveis ao paladar, a que pretende fazer análise crítica de conceitos, etc. Todos os tipos de investigação podem ser feitas com rigor, a ciência é um dos tipos mais bem sucedidos, mas não é o único, e pode ser mal feita como todos os outros. Portanto, embora nem tudo seja passível de escrutínio científico (conhecimentos matemáticos, por exemplo, são obtidos por outros métodos), nenhuma ideia deve escapar à cobrança do rigor do pensamento crítico. Acreditamos que afirmar a existência de coisas sobrenaturais falha gravemente nesses critérios de rigor, assim como falham práticas como homeopatia, esquemas de pirâmide, irracionalismos pós-modernos etc.

6. Rejeitamos feminismo ou veg(etari)anismo?

Não necessariamente. Se com “feminismo” o que se pretende é um conjunto de ideias e ações com garantida promoção da igualdade de oportunidades e direitos entre os gêneros, então feminismo nada mais é que humanismo aplicado a questões de gênero. Nem sempre, infelizmente, é isso que se quer dizer com “feminismo”, então a primeira coisa a se fazer é ter clareza quanto ao termo (ou adotar termos mais claros como “direitos das mulheres”). Também é importante dar prioridade às questões éticas a respeito de gêneros, em vez de entrar em guerras de identidade sobre quem pode se dizer feminista ou não – pela evidente prioridade dessas questões éticas acima da afirmação identitária de ativistas. Não faz sentido, finalmente, tratar justiça para mulheres ou para homens como algo apartado da ideia de justiça em geral. Nós, seres humanos, temos uma tendência tribal a favorecer nossos próprios grupos sobre os outros, e devemos resistir a esse viés para atingir justiça, pois justiça e corporativismo entram em conflito com frequência. Um exame da ideia da igualdade também é salutar: há uma grande diferença entre forçar igualdade de resultados e oferecer igualdade de oportunidades. A igualdade é uma das intuições morais que todos temos, mas não é a única. Manter o foco em argumentos e preferir a cordialidade são formas de fazer a causa da igualdade entre diferentes grupos identitários avançar onde ela é moralmente necessária.
Quanto ao veg(etari)anismo, como dito, humanistas não coadunam com crueldade contra animais, não por dogma, mas porque ser cruel com animais é irracional, e os argumentos em prol da crueldade empalidecem com sua fraqueza frente aos argumentos a favor da dignidade dos animais. Cada humanista é livre para levar esses argumentos até suas consequências, e debater até que ponto a crueldade deve ser combatida, e que atitudes, se alguma, devem ser mudadas. Importante nesse assunto é saber que em qualquer dieta é possível adotar alguma forma de diminuir a crueldade contra animais. Mesmo pessoas adeptas do churrasco podem procurar saber se os animais que consomem foram maltratados enquanto viviam. E se alguém acredita que é correto independentemente de contexto torturar seres humanos ou outros animais, com certeza não é humanista.
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A Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) foi fundada em 2010 e é a maior organização latino-americana dedicada especificamente ao humanismo, uma visão de mundo não-religiosa, racionalista, frequentemente naturalista. A LiHS é membro da União Humanista e Ética Internacional (IHEU), que tem status consultivo junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. A Liga Humanista é também amicus curiae em duas ações no Supremo Tribunal Federal, nas quais defende a laicidade do Estado. Faça uma doação: http://lihs.org.br/doe | Afilie-se: http://ligahumanista.org