Principais estatísticas brasileiras de morte por homofobia são falsas, conclui checagem independente

Por Eli Vieira,1 Camila Mano,2 Daniel Reynaldo,3 David Agape4 e Vanessa Bigaran4

  1. Biólogo geneticista, presidente da Liga Humanista, criador de conteúdo. Participou da checagem, criou texto e gráficos.
  2. Doutora em bioquímica. Participou da checagem.
  3. Administrador do blog Quem a Homotransfobia Não Matou Hoje? Participou da checagem.
  4. Fundadores da Agência Dossiê. Participaram da checagem.

Oficialmente, não há números sobre os mortos por homofobia no Brasil. Há quase quatro décadas, o Grupo Gay da Bahia (GGB), fundado pelo historiador Luiz Mott em 1980, desenvolve um levantamento de dados independente que tem sido tratado como fonte de um número oficial pela imprensa e órgãos nacionais e internacionais como a Anistia Internacional e a ONU. A estatística anual de mortes violentas por homofobia do GGB já apareceu em publicações como O Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, Reuters, BBC, NPR, The New York Times (que, com base nela, disse que o Brasil passa por uma epidemia de violência antigay), entre outras. Publicações esportivas, com base na estatística do GGB, alertaram aos atletas LGBT para terem cuidado extra ao vir ao Brasil para as Olimpíadas. Diversos trabalhos acadêmicos citam as estatísticas do GGB e há títulos acadêmicos inteiros conquistados com base nelas. Os números do GGB são baseados em clipagem de notícias.

Ao menos duas vezes a estatística anual do grupo foi usada durante a campanha eleitoral de forma proeminente no ano passado: quando a candidata Vera Lúcia (PSTU) mencionou em seu plano de governo registrado que “[e]ste país é também o que mais mata LGBTs no mundo. Uma vítima a cada 19 horas”, e quando a âncora Renata Vasconcellos, numa pergunta ao candidato Bolsonaro no Jornal Nacional, repetiu que “a cada 19 horas, um gay, lésbica ou trans é assassinado ou se suicida por causa de homofobia no Brasil”. O número, porém, inclui heterossexuais mortos supostamente por motivação homofóbica, mas este fato foi esquecido não só por Vasconcellos, mas também por sua fonte, o GGB, que também diz que, na mesma frequência de horas, “um LGBT morre de forma violenta por motivação homotransfóbica no Brasil”. A divulgação da estatística poderia ser melhorada se os autores do trabalho e a imprensa a descrevessem como resultante de um relatório de mortes violentas motivadas por homofobia, sem especificar a sexualidade das vítimas. Mas o esquecimento dos heterossexuais mortos por homofobia incluídos nos dados não é o único problema com a divulgação da estatística, como veremos adiante.

A checagem revela graves problemas de rigor

Para descobrir até onde vai a imprecisão, nós refizemos todo o trabalho do GGB referente ao ano de 2016, checando todos os dados colhidos pelo grupo. A replicação dos resultados do GGB é dificultada por ele próprio, que não publica planilhas em formato acessível com links para as matérias jornalísticas que usou como fontes. Buscando online pelos nomes das vítimas e locais de falecimento, checamos todas as 347 vítimas relatadas e recuperamos as fontes não divulgadas no relatório.

Descobrimos que o banco de dados de vítimas da homofobia em 2016 no Brasil do GGB sofre de graves problemas de rigor. Apesar do relatório se referir ao Brasil, estão inclusos seis casos de mortes no exterior, como o de Kimberly, transexual morta por um excesso de 94 facadas, em Florença, pelo namorado Mirco Alessi. Há alguns casos duplicados, como o da travesti T. E. Geremias de Moraes, misteriosamente esfaqueada em Valinhos (que reclassificamos como inconclusivo quanto à motivação homofóbica). Em alguns casos descobrimos uma leitura incompleta do relato jornalístico: por exemplo, um casal heterossexual supostamente viciado em drogas foi assassinado por um traficante no Ceará. Aparentemente, o caso foi incluído pelo GGB somente porque a manchete omitiu o sexo da mulher, dando a entender erroneamente que poderia ser um casal gay.

É correto somar suicídios a homicídios nesse caso?

Dos 347 casos de 2016, excluímos 30 da análise por serem mortes no exterior, casos duplicados ou casos em que foi impossível recuperar as fontes. Dos que sobraram, 20 casos são suicídios. É discutível a decisão de somar suicídios a assassinatos. A estatística do GGB consiste em mortes violentas motivadas por homofobia, e, legalmente, morte violenta incluiria acidentes, suicídios e homicídios. Obviamente, acidentes não deveriam ser incluídos, pois não existe motivação alguma por trás deles, muito menos a homofóbica. Isso não impediu o GGB de incluir mortes acidentais a seus números. Quanto ao suicídio, é evidente que, nem sempre que um LGBT se mata, é possível afirmar que a causa primária de sua decisão é a homofobia. Suicidas geralmente sofrem de depressão, que é em si a causa imediata de sua morte. Certamente é um tema importante descobrir com que frequência a homofobia causa depressão e suicídio, mas é quase sempre impossível separar suicídios motivados por homofobia de suicídios de LGBT motivados por outros problemas, ao menos que haja alguma evidência como uma carta de despedida em que o suicida o diz explicitamente. Além disso, há uma questão moral. Um suicida fere a si mesmo, desistindo da própria vida, que lhe pertence. Um homicida fere a outrem, roubando-lhe a vida. Não parece que as duas decisões sejam comparáveis ao ponto de ser justo somá-las num número só. Uma egodistonia sexual que leva à depressão e ao suicídio é bem diferente de uma homofobia assassina aplicada sobre outrem. Não prendemos sobreviventes de tentativas de suicídio, mas prendemos homicidas. Pelos motivos acima, o mais importante dos quais é a dificuldade de estabelecer a real importância da homofobia na rede de motivos possíveis para o suicídio de uma pessoa LGBT, excluiremos os suicídios da análise, e pensamos que sua repetida inclusão é uma possível tentativa de inflar a estatística das vítimas da homofobia.

Além dos suicídios, excluímos também casos cuja inclusão no estudo original é inexplicável: seis mortes acidentais, o afogamento do diretor de teatro Glauber Teixeira, um caso de agressão em que a vítima sequer morreu (a estatística é sobre mortes), um caso de morto em incêndio sem suspeita de crime, doze mortes suspeitas em que não é possível afirmar que houve crime, uma overdose, entre outros. Limitando os casos somente a homicídios confirmados (dolosos, culposos e latrocínios), sobram 258 casos dos 347 originalmente relatados. A seguir, mostraremos quantos desses realmente foram motivados por homofobia.

Figura 1. Dados excluídos após a remoção dos não encontrados, duplicados e ocorridos no exterior.

Concordamos: héteros podem ser vítimas de homofobia

Como dito, uma interpretação equivocada desses dados é que refletem a quantidade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais assassinados por serem LGBT no Brasil. Algumas das vítimas da homofobia são heterossexuais. Em março de 2016, Jorge Luiz Lima Farias, 20 anos, foi preso em Cratéus, Ceará, em um bar. Ele tinha as roupas sujas de sangue no momento da prisão. “Não me arrependo”, disse o assassino à polícia. Suas vítimas foram Alexandre Martins da Silva, 28, morto por ter divulgado um vídeo em que Jorge Luiz beijava um homem, e José Wilson Messias Coelho, 50, morto por ter tentado salvar a vida de Alexandre. Não há relato nenhum de que alguma das vítimas era gay. Neste caso, confirmamos as duas mortes como motivadas por homofobia, afinal, é preconceituoso esse temor tão forte da divulgação de sua própria atração por pessoas do mesmo sexo que dá em assassinato, ainda que o autor do crime seja um possível gay e as vítimas sejam provavelmente héteros.

Nossos métodos

Recuperamos os seguintes dados sobre as vítimas: crime ou situação que causou a sua morte, o motivo aparente da morte, os links contendo as notícias-fonte, número de processo judicial onde disponível, e, finalmente, se é possível concluir que a motivação principal ou mais provável da morte foi a homofobia, onde classificamos os casos como “sim”, “não” ou “inconclusivos”. Trazemos a replicabilidade para onde ela havia sido dificultada: qualquer pessoa pode checar se concorda conosco na nossa planilha.

Na nossa checagem dos dados, não fomos muito conservadores. Por exemplo, a travesti Lauandersa foi encontrada morta a facadas, sem sinais de latrocínio (roubo de seus bens), em ponto de prostituição, seminua, ao lado de preservativos usados, em Caucaia, Ceará. Na ausência de elementos que ponham em dúvida uma motivação homofóbica, e diante de um caso que poderia ser explicado como resultado da motivação homofóbica de um cliente com arrependimento pós-coito, decidimos por confirmar o caso em concordância com o GGB, ainda que uma análise mais conservadora pedisse a reclassificação do caso como inconclusivo.

Alguns casos são mais fáceis de se classificar como motivados por homofobia. O professor Jair Figueiredo, 38, foi morto em sua própria casa com 40 facadas, em João Pessoa, após tentar seduzir o assassino, um jovem de 16 anos, que alegou à polícia que a vítima havia pego uma faca após a recusa, o que parece uma óbvia mentira para alegar legítima defesa.

Outros casos incluídos são flagrantemente não motivados por homofobia. Fabiana Braz Conceição e Daniella Silva Gomes, um casal, foram mortas a tiros numa moto porque eram traficantes e disputavam com outros traficantes o controle do tráfico em sua região em Goiânia.

Resultados da checagem são surpreendentes

Dos casos colhidos na imprensa pelo GGB, foi possível concordar somente que 31 casos foram mortes motivadas pela homofobia no Brasil. Isso significa que o relatório errou em 88% dos casos de homicídio (227 de 258), e que somente 9% dos dados totais (31 de 347) para o ano de 2016 servem para fazer as conclusões que o grupo e a imprensa que o cita fazem.

Figura 2. Resultado da checagem dos dados: a real cara do que foi apresentado como morte por homofobia.

Fantasmagórica e irrefutável “estrutura”

Por que casos como suicídios sem motivos esclarecidos, acidentes e até um casal de lésbicas traficantes mortas pela concorrência do crime foram inclusos? Aqui entra uma decisão teórica das pessoas por trás do GGB: por acreditarem que a homofobia no Brasil é “estrutural”, termo que cria um inimigo fantasmagórico impossível de refutar, toda morte de LGBT no Brasil é presumida como resultado da homofobia. O que o GGB cita para justificar a crença de que a homofobia no Brasil é “estrutural” (seja lá o que isso for)? Os próprios dados, como diz na conclusão de um relatório oficial do Ministério dos Direitos Humanos publicado em 2018: “De acordo com os dados apresentados é possível concluir que a LGBTfobia no Brasil é estrutural”. Repetindo: quando o GGB é pressionado sobre os casos duvidosos, ele cita a “homofobia estrutural” como justificação para incluir toda e qualquer morte de LGBT nos dados. E quando tem de comunicar ao governo a razão de a homofobia ser “estrutural”, o GGB cita os mesmos dados. Parece circular. Curiosamente, o ministério se isenta de responsabilidade pelo conteúdo do relatório oficial, que traz também números do Disque 100 de vítimas de discriminação, ofensa verbal e agressão.

Figura 3. A afirmação acima foi feita pelo GGB a seus críticos. A afirmação abaixo foi feita pelo GGB num relatório escrito conjuntamente com o Ministério de Direitos Humanos (2018).

Vale ressaltar que essa metodologia de incluir toda e qualquer morte de LGBT entre vítimas de homofobia apelando circularmente para uma “homofobia estrutural” não é seguida, por exemplo, pelo FBI, que define crime de ódio como “contra uma pessoa ou sua propriedade motivado em todo ou em parte pelos vieses do infrator contra uma raça, religião, deficiência, orientação sexual, etnicidade, gênero ou identidade de gênero”.  Foi essa orientação que seguimos, e é bem simples: houve motivação homofóbica se há indícios de motivação homofóbica. Presumir a motivação homofóbica sem indícios para tanto tem vários nomes: viés da confirmação e dogmatismo entre eles.

Duas agências de checagem jornalística questionaram uma interpretação dos dados do GGB: que eles mostrariam que o Brasil seria o país que mais mata LGBT por serem LGBT no mundo. Essa afirmação recorrente do GGB é incompreensível, dado que não apresentam números do exterior para comparação (embora incluam dados do exterior nos números nacionais), nem esclarecem como é possível afirmar que o Brasil seria pior que países que punem a homossexualidade com a pena de morte, que evidentemente evitam calcular e divulgar esses números para não chamar a atenção da opinião pública internacional. O Truco, da Agência Pública, classificou essa afirmação como “impossível provar” e a Agência Lupa como “insustentável”. Como mostramos aqui, não é só a comparação do Brasil com o exterior que é “insustentável” e “impossível provar” sobre os dados do GGB: o mesmo pode ser afirmado sobre seus dados a respeito do Brasil.

Conclusão

As pessoas LGBT devem ser livres para buscar a própria felicidade e saúde, das mesmas formas que as pessoas heterossexuais e sem problemas como a disforia de gênero fazem. Liberdades individuais e isonomia perante a lei são, na nossa opinião, a chave da questão. Isolamento, política identitária, sensacionalismo e uso das minorias sexuais como bucha de canhão política são elementos presentes no atual debate público que têm grande potencial de piorar a vida dessas pessoas neste momento de transformação das atitudes e opiniões públicas a seu respeito. A verdade é amiga da causa das liberdades individuais e da democracia. Qualquer número de LGBT mortos por serem LGBT no Brasil é preocupante e exemplo de que a cultura ainda não se transformou o suficiente na direção do respeito ao indivíduo diferente. No entanto, tentativas de inflar esses números, honestas ou não, dificilmente ajudam a qualquer causa justa.

Ao divulgar versões preliminares desta checagem, nós recebemos ataques virulentos dos participantes do GGB nas redes sociais. Membros da nossa equipe que são LGBT foram classificados como “egodistônicos” e “traidores”. Parece que a acusação de homofobia é o instrumento favorito dos autores dos números inadequados para qualquer crítico de seus métodos. É de se estranhar, pois há acadêmicos envolvidos na coleta e divulgação desses dados, e todo acadêmico deveria achar normal o processo de crítica e revisão por pares. Essa reação, também, na nossa opinião, revela outra faceta das razões pelas quais há uma taxa de erro de 88% nesses números.

As estatísticas criminais no Brasil têm muito a melhorar. Não só não temos uma fonte unificada dos números da violência (dependemos bastante de levantamentos vindos da saúde), a taxa de resolução de crimes como o homicídio é em torno de 8%. Antes de cobrar que o Estado preste atenção preferencial a este ou aquele grupo alvo de crimes agravados por motivações torpes como a homofobia, parece prioritário cobrar que o Estado cumpra sua função prometida de prevenir e investigar os crimes e punir os infratores com mais eficiência. Também parece ser necessária uma revisão legal de agravantes por motivações torpes, para que todos os grupos minoritários se sintam contemplados, sem que isso seja usado para inventar novas limitações à liberdade de expressão, que já não é plena no país. A maior aliada da justiça é a verdade. E o maior aliado da verdade é o rigor. Faltam rigor e verdade nos números mais divulgados sobre violência contra LGBT no Brasil.

Planilha com dados completos (original e checagem)

Link externo para a planilha aqui. Atualização: neste novo link é possível encontrar a planilha como um web-aplicativo em que é possível clicar em cada caso (linha da tabela) para abrir automaticamente abaixo da tabela as fontes referentes ao caso.

Como importar diretamente a planilha para o R:

library(gsheet)
url <- construct_download_url("https://docs.google.com/spreadsheets/d/1QdVdDhPLsFomf9edOscMz-hZhIitqwkSuSi3I7XV3Po/")

dados <- read.csv(url(url), skip=1, na.strings = "")

Defesas da censura no Brasil que não fazem sentido (usadas inclusive no STF)

Duas objeções péssimas à liberdade de expressão:

1) “Você é livre para se expressar, mas não é livre das consequências de se expressar.”

Por que está errada: pode ser usada para defender qualquer tipo de censura. Afinal, todo tipo de censura injusta pode ser descrita como mera “consequência” da expressão. Defensores clássicos da liberdade de expressão já distinguem entre consequências legítimas e ilegítimas, a depender da expressão. Se a expressão não é difamação objetiva ou calúnia, incitação direta e inequívoca à violência (incluindo ameaças credíveis) ou ao pânico, nenhuma “consequência” que envolva o uso da força e da censura está justificada. Somente expressões contrárias devem ser as “consequências” de qualquer expressão fora dessas categorias. Nunca o autoritarismo de causar perdas materiais, de calar à força, ou de ameaçar a integridade física ou a liberdade de quem se expressou.

2) “Censura prévia é que é o problema.”

Esta objeção é tão popular no Brasil que já foi usada até pelo Dias Toffoli, presidente do STF. Por que está errada: a distinção entre censura prévia ou censura pós-fato é irrelevante. As categorias de expressão que devem ser limitadas pela força já estão estabelecidas (como discutido anteriormente). O autoritarismo contra expressões fora dessas categorias sempre busca uma desculpa para poder se impor, especialmente quando ele já dispõe da força para fazê-lo e busca apenas argumentos para se justificar. Alegar que o autoritarismo não foi aplicado antes da expressão se tornar pública, só depois, nada faz para justifica-lo de fato. De qualquer forma, a única censura verdadeiramente prévia é a autocensura, feita na intimidade dos próprios pensamentos do indivíduo. Todo o resto é censura praticada por outrem no mundo, variando só a quantidade de pessoas que a expressão atingiu. Existem diversas tentações para o autoritarismo: a expressão não agrada, a expressão expõe alguma coisa embaraçosa sobre alguém, a expressão expõe crimes praticados por alguém, a expressão ameaça tradições ou crenças que têm o afeto de pessoas e grupos poderosos, etc. Sociedades livres resistem a essas tentações. Indivíduos esclarecidos resistem a essas tentações. Sociedades e indivíduos autoritários se engajam nelas.

Finalmente, talvez por saberem intuitivamente os limites clássicos da expressão, algumas pessoas que querem expandir a censura usam de truques semânticos, como expandir o que quer dizer uma incitação à violência. É o caso dos defensores do “discurso de ódio” como novo limite à expressão. O truque, aqui, é chamar todo tipo de objeção preconceituosa (real ou percebida) a grupos discriminados de incitação à violência, quando com frequência isso não é verdade. O entendedor honesto da língua presume que quem tem ódio tem uma predisposição a agir violentamente com base nesse ódio. Chamar todo tipo de piada ou comentário preconceituoso de “ódio” e “discurso de ódio” é um apelo espúrio a essa intuição. O problema é que essa interpretação é com frequência falsa e não há nenhuma incitação real à violência por trás das expressões preconceituosas. Há outros motivos para deixá-las livres. Um motivo é que qualquer autoridade aplicadora da censura pode errar, somos todos falíveis, então criminalizar expressão preconceituosa é abrir espaço para pessoas inocentes do preconceito serem caladas à força. Outro motivo é que não saberemos o tamanho do problema do preconceito se as pessoas preconceituosas não são livres para se expressar. Além disso, impedir as pessoas alvo do preconceito de ouvir expressões preconceituosas é incentivar nelas uma psicologia de fragilidade, em vez de uma psicologia de resiliência.

Liga Humanista lançará periódico em 2019

A LiHS vai iniciar este ano o periódico Akrasia, uma revista acadêmica, porém de conteúdo acessível, voltada para temas secularistas e humanistas. Será quase uma revista de filosofia, no entanto também aceitaremos artigos de divulgação científica. O nome “Akrasia” é o termo usado por Platão e Aristóteles para designar o mistério de por que as pessoas escolhem não fazer o que sabem que seria desejável fazer de acordo com a razão. Um artigo que serve de modelo para o tom e qualidade esperados dos artigos a serem publicados na Akrasia é o “Seis Sinais de Cientificismo“, de Susan Haack.

Qualidades específicas a serem observadas:

  • relevância;
  • citação apropriada de fontes: usar as fontes para dar crédito a ideias que fazem parte do fluxo cognitivo do artigo, não apenas para ter nomes importantes; e usar fontes para não reinventar a roda, respeitando quem tratou o tema com qualidade no passado;
  • prosa clara com vocabulário acessível: evitar prosa obscura, jargões desnecessários e lero-lero pós-moderno/oracular;
  • originalidade;
  • afastamento do estilo árido de outras publicações (recursos para manter o leitor interessado são aceitáveis, dentro do limite de não fazer tangentes prolongadas).
  • É permitida a co-autoria, com o óbvio requisito de que todos os nomes de fato contribuíram para a redação do artigo.

Será feita a revisão por pares com anonimato das duas partes (autores e pareceristas). A submissão de artigos também será anônima e a própria Akrasia só saberá quem são os autores no momento da aceitação do artigo. A publicação não será influenciada por títulos ou afiliações acadêmicas, ambos portanto não são obrigatórios e os autores poderão se apresentar da maneira que quiserem, com ou sem afiliações e títulos. Só daremos atenção à qualidade geral do artigo, não ao prestígio de instituições e títulos.

Este é um aviso preliminar para que os interessados comecem a redação de seus artigos. Estaremos trabalhando nos detalhes da publicação enquanto isso. Para notícias a respeito do desenvolvimento da Akrasia, acompanhe a LiHS nas redes sociais.

We still reject your panic mode: Bolsonaro and Brazil so far

We at the Secular Humanist League of Brazil (LiHS) have a great deal of sympathy for Spiked Magazine’s “radical humanism” and the work of its editor Brendan O’Neill. We tend to concur with them that resistance to humanism is not only at the right-wing, as it’s normal to assume for almost every not-so-young humanist today after many decades of threats coming from the so-called “religious right”, in the context of the global conversation about human rights, science and progress.

Spiked and O’Neill have been at the forefront of criticism against the identitarian, post-modern-influenced “New Left”. They understand a “radical humanism” means defending freedoms and reason no matter where and no matter against whom. A radical humanist is prepared to lose friends defending humanism. Maybe that’s the “radical” part, even though we wouldn’t normally jump on any bandwagon praising any kind of “radicalism”. Radical ideas are often radically implausible.

The English-speaking world of Spiked and O’Neill’s is not identical, of course, to our Brazilian context. However, the sources that they often criticise are now the same international sources that are panic-mongers about president Jair Bolsonaro, who took office five days ago. As we told the German outlet Humanistisch International, Bolsonaro is no friend of humanism. The idea of humanism is clearly alien to him. However, reason demands not only that we disapprove of him for his ideas and words, but also that we make an accurate evaluation of his actions, not falling prey to panic, which would be both irrational and counter-productive. Unfortunately, this latter response is exactly what many humanists are doing, led by a dispirited radical left that is both among them and among our friends. A radical left that is in many ways anti-freedom and therefore anti-humanism by definition. Anti-freedom, for instance, when making up innovations on the limits of free speech that are not warranted by our received understanding of free speech.

English-speaking people in many ways are accustomed to freedom. It comes naturally to many of them. They wouldn’t imagine that every single social problem can only be solved by government intervention. It might be changing (as it seems to be the case with the outrageous law against ‘offensive’ pornography in Britain), but ever since John Locke and John Stuart Mill, British people don’t often see a lot of difference between liberalism and humanism, for how could we live well as individuals if forces more powerful than us prevent us from doing whatever it is that we want to do as jobs or in our bedrooms? Brazilians are often not like that. Saying some problem must be solved by government intervention is almost a knee-jerk reaction for many. For historical reasons, Brazilians are more prone to see government intervention as normal, no matter the costs to liberty. If you want to pay minimum wage to a single employee, government intervention makes you the “bargain” of one employee for the price of three. If you want to provide services on your own, it’s not uncommon that you’d be obliged by law to pay a third of what you make in taxes. As a result, millions of Brazilians are unemployed or “informally employed”, living on the edges, and suffering.

If a (radical) humanism is pro-freedom, what are we to make of Brazil’s enormous, oppressive, anti-free enterprise government? What are we to make of the many parts of the left-wing who approve of this state of affairs and cry out in anger at every attempt at lessening the heavy presence of the State in the individuals’ lives? English-speaking people on the left must understand that they are often not the same species as Latin American leftists. While socialism has only recently begun to be presented as not so evil as the received wisdom portrays it in the US, it’s never been fully discredited in Latin America, so the element of authoritarianism is always present on both sides of the traditional political divide. To give you a practical example: recently we’ve seen a legitimate, serious Stalinist organisation spreading their word on southern university campuses in Brazil, praising Stalin as the father of the people. Meanwhile, we’ve also seen swastikas drawn in various places during the presidential campaigns, but most if not all of them were the creations of Bolsonaro’s opposition trying to discredit him with false flags. There is, therefore, a double standard here, in which the authoritarian errors of the far right are recognised, but not those on the far left. Yes, we have the full spectrum of being on the left, with non-authoritarians defending nothing but an achievable welfare state, for instance. But with Latin America you never know the full extent of authoritarian elements being eschewed from acceptable, mainstream parties and discourse. Equally wrong is how Bolsonaro’s supporters seem to see every left-wing thing as full Communist.

Bolsonaro has partnered with liberal economists like minister Paulo Guedes, who want less government and more individual autonomy. It’s something very, very new in Brazil. In doing so, Bolsonaro is denying a long past he had as an interventionist member of parliament. If humanism means accepting freedom as a whole, including in the economic area, then there’s reason to be hopeful about Brazil. Of course, this hope needs to be balanced out with Bolsonaro’s conspiracy theories about communists and many social freedoms behind a humanist’s support and concern for minorities and women. But still, we insist that he be judged more on actions than on words, like in fact everyone should be.

But panic-mongering is fashionable. Take The Independent, for instance, in a piece they’ve published about Bolsonaro’s first acts as president. It wrongly claims that food was “seized” from reporters perceived as ideological opponents by Bolsonaro on his inauguration day. It claims Bolsonaro is targeting LGBT people, and all evidence they have of that is his government’s choice of words for an institution that decided that “LGBT” is within “human rights” and therefore need not be mentioned. It might be a step towards persecution, but it’s not sufficient to claim what The Independent has claimed.

Also, so far no lands from natives or quilombolas were expropriated by the government (and expropriation would be more ideologically resonant with the Venezuelan government, fiercely opposed by Bolsonaro, then with his government who claims to respect private property). But yes, the institutions responsible for the demarcation of these lands were changed in a worrisome direction. This piece by the Independent is an exercise on spin, not a level-headed evaluation of what’s happening in our country. It’s shameful, therefore, and it would be rightly criticised by Spiked and O’Neill if they knew what we know.

To summarise:

  • Bolsonaro has yet to do anything extreme. He has not done anything extreme to date, and it’s too early to claim he has.
  • Most of his most extreme words are old, he’s toned down his discourse even though he’s still in the adversarial mode he espoused while running for president.
  • Brazil has serious institutions and there are no legal avenues for Bolsonaro to pursue anything resembling fascism.
  • The left-wing Worker’s Party, who has governed Brazil from 2003 to 2016, has the larger numbers of seats at both chambers of parliament.
  • The Federal Supreme Court is also an independent alternative to curb anything extreme done by Bolsonaro as president.

We at LiHS refuse to fall prey to panic. We will not be pressured by often anti-humanist panic-mongers to see an imaginary Armageddon. To us, Bolsonaro is a continuity in the difficulties we’ve witnessed in the 9 years since we started our work. Difficulties whose source were never restricted to one single political tribe. You can be sure we will not let slide any major actions he could take against our values. But we are not an organisation that serves vacuous political tribalism. Our one and only commitment lies with humanism. Irrational fears are not humanist.

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Eli Vieira is the president of the Secular Humanist League of Brazil.