Principais estatísticas brasileiras de morte por homofobia são falsas, conclui checagem independente

Por Eli Vieira,1 Camila Mano,2 Daniel Reynaldo,3 David Agape4 e Vanessa Bigaran4

  1. Biólogo geneticista, presidente da Liga Humanista, criador de conteúdo. Participou da checagem, criou texto e gráficos.
  2. Doutora em bioquímica. Participou da checagem.
  3. Administrador do blog Quem a Homotransfobia Não Matou Hoje? Participou da checagem.
  4. Fundadores da Agência Dossiê. Participaram da checagem.

Oficialmente, não há números sobre os mortos por homofobia no Brasil. Há quase quatro décadas, o Grupo Gay da Bahia (GGB), fundado pelo historiador Luiz Mott em 1980, desenvolve um levantamento de dados independente que tem sido tratado como fonte de um número oficial pela imprensa e órgãos nacionais e internacionais como a Anistia Internacional e a ONU. A estatística anual de mortes violentas por homofobia do GGB já apareceu em publicações como O Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Gazeta do Povo, Reuters, BBC, NPR, The New York Times (que, com base nela, disse que o Brasil passa por uma epidemia de violência antigay), entre outras. Publicações esportivas, com base na estatística do GGB, alertaram aos atletas LGBT para terem cuidado extra ao vir ao Brasil para as Olimpíadas. Diversos trabalhos acadêmicos citam as estatísticas do GGB e há títulos acadêmicos inteiros conquistados com base nelas. Os números do GGB são baseados em clipagem de notícias.

Ao menos duas vezes a estatística anual do grupo foi usada durante a campanha eleitoral de forma proeminente no ano passado: quando a candidata Vera Lúcia (PSTU) mencionou em seu plano de governo registrado que “[e]ste país é também o que mais mata LGBTs no mundo. Uma vítima a cada 19 horas”, e quando a âncora Renata Vasconcellos, numa pergunta ao candidato Bolsonaro no Jornal Nacional, repetiu que “a cada 19 horas, um gay, lésbica ou trans é assassinado ou se suicida por causa de homofobia no Brasil”. O número, porém, inclui heterossexuais mortos supostamente por motivação homofóbica, mas este fato foi esquecido não só por Vasconcellos, mas também por sua fonte, o GGB, que também diz que, na mesma frequência de horas, “um LGBT morre de forma violenta por motivação homotransfóbica no Brasil”. A divulgação da estatística poderia ser melhorada se os autores do trabalho e a imprensa a descrevessem como resultante de um relatório de mortes violentas motivadas por homofobia, sem especificar a sexualidade das vítimas. Mas o esquecimento dos heterossexuais mortos por homofobia incluídos nos dados não é o único problema com a divulgação da estatística, como veremos adiante.

A checagem revela graves problemas de rigor

Para descobrir até onde vai a imprecisão, nós refizemos todo o trabalho do GGB referente ao ano de 2016, checando todos os dados colhidos pelo grupo. A replicação dos resultados do GGB é dificultada por ele próprio, que não publica planilhas em formato acessível com links para as matérias jornalísticas que usou como fontes. Buscando online pelos nomes das vítimas e locais de falecimento, checamos todas as 347 vítimas relatadas e recuperamos as fontes não divulgadas no relatório.

Descobrimos que o banco de dados de vítimas da homofobia em 2016 no Brasil do GGB sofre de graves problemas de rigor. Apesar do relatório se referir ao Brasil, estão inclusos seis casos de mortes no exterior, como o de Kimberly, transexual morta por um excesso de 94 facadas, em Florença, pelo namorado Mirco Alessi. Há alguns casos duplicados, como o da travesti T. E. Geremias de Moraes, misteriosamente esfaqueada em Valinhos (que reclassificamos como inconclusivo quanto à motivação homofóbica). Em alguns casos descobrimos uma leitura incompleta do relato jornalístico: por exemplo, um casal heterossexual supostamente viciado em drogas foi assassinado por um traficante no Ceará. Aparentemente, o caso foi incluído pelo GGB somente porque a manchete omitiu o sexo da mulher, dando a entender erroneamente que poderia ser um casal gay.

É correto somar suicídios a homicídios nesse caso?

Dos 347 casos de 2016, excluímos 30 da análise por serem mortes no exterior, casos duplicados ou casos em que foi impossível recuperar as fontes. Dos que sobraram, 20 casos são suicídios. É discutível a decisão de somar suicídios a assassinatos. A estatística do GGB consiste em mortes violentas motivadas por homofobia, e, legalmente, morte violenta incluiria acidentes, suicídios e homicídios. Obviamente, acidentes não deveriam ser incluídos, pois não existe motivação alguma por trás deles, muito menos a homofóbica. Isso não impediu o GGB de incluir mortes acidentais a seus números. Quanto ao suicídio, é evidente que, nem sempre que um LGBT se mata, é possível afirmar que a causa primária de sua decisão é a homofobia. Suicidas geralmente sofrem de depressão, que é em si a causa imediata de sua morte. Certamente é um tema importante descobrir com que frequência a homofobia causa depressão e suicídio, mas é quase sempre impossível separar suicídios motivados por homofobia de suicídios de LGBT motivados por outros problemas, ao menos que haja alguma evidência como uma carta de despedida em que o suicida o diz explicitamente. Além disso, há uma questão moral. Um suicida fere a si mesmo, desistindo da própria vida, que lhe pertence. Um homicida fere a outrem, roubando-lhe a vida. Não parece que as duas decisões sejam comparáveis ao ponto de ser justo somá-las num número só. Uma egodistonia sexual que leva à depressão e ao suicídio é bem diferente de uma homofobia assassina aplicada sobre outrem. Não prendemos sobreviventes de tentativas de suicídio, mas prendemos homicidas. Pelos motivos acima, o mais importante dos quais é a dificuldade de estabelecer a real importância da homofobia na rede de motivos possíveis para o suicídio de uma pessoa LGBT, excluiremos os suicídios da análise, e pensamos que sua repetida inclusão é uma possível tentativa de inflar a estatística das vítimas da homofobia.

Além dos suicídios, excluímos também casos cuja inclusão no estudo original é inexplicável: seis mortes acidentais, o afogamento do diretor de teatro Glauber Teixeira, um caso de agressão em que a vítima sequer morreu (a estatística é sobre mortes), um caso de morto em incêndio sem suspeita de crime, doze mortes suspeitas em que não é possível afirmar que houve crime, uma overdose, entre outros. Limitando os casos somente a homicídios confirmados (dolosos, culposos e latrocínios), sobram 258 casos dos 347 originalmente relatados. A seguir, mostraremos quantos desses realmente foram motivados por homofobia.

Figura 1. Dados excluídos após a remoção dos não encontrados, duplicados e ocorridos no exterior.

Concordamos: héteros podem ser vítimas de homofobia

Como dito, uma interpretação equivocada desses dados é que refletem a quantidade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais assassinados por serem LGBT no Brasil. Algumas das vítimas da homofobia são heterossexuais. Em março de 2016, Jorge Luiz Lima Farias, 20 anos, foi preso em Cratéus, Ceará, em um bar. Ele tinha as roupas sujas de sangue no momento da prisão. “Não me arrependo”, disse o assassino à polícia. Suas vítimas foram Alexandre Martins da Silva, 28, morto por ter divulgado um vídeo em que Jorge Luiz beijava um homem, e José Wilson Messias Coelho, 50, morto por ter tentado salvar a vida de Alexandre. Não há relato nenhum de que alguma das vítimas era gay. Neste caso, confirmamos as duas mortes como motivadas por homofobia, afinal, é preconceituoso esse temor tão forte da divulgação de sua própria atração por pessoas do mesmo sexo que dá em assassinato, ainda que o autor do crime seja um possível gay e as vítimas sejam provavelmente héteros.

Nossos métodos

Recuperamos os seguintes dados sobre as vítimas: crime ou situação que causou a sua morte, o motivo aparente da morte, os links contendo as notícias-fonte, número de processo judicial onde disponível, e, finalmente, se é possível concluir que a motivação principal ou mais provável da morte foi a homofobia, onde classificamos os casos como “sim”, “não” ou “inconclusivos”. Trazemos a replicabilidade para onde ela havia sido dificultada: qualquer pessoa pode checar se concorda conosco na nossa planilha.

Na nossa checagem dos dados, não fomos muito conservadores. Por exemplo, a travesti Lauandersa foi encontrada morta a facadas, sem sinais de latrocínio (roubo de seus bens), em ponto de prostituição, seminua, ao lado de preservativos usados, em Caucaia, Ceará. Na ausência de elementos que ponham em dúvida uma motivação homofóbica, e diante de um caso que poderia ser explicado como resultado da motivação homofóbica de um cliente com arrependimento pós-coito, decidimos por confirmar o caso em concordância com o GGB, ainda que uma análise mais conservadora pedisse a reclassificação do caso como inconclusivo.

Alguns casos são mais fáceis de se classificar como motivados por homofobia. O professor Jair Figueiredo, 38, foi morto em sua própria casa com 40 facadas, em João Pessoa, após tentar seduzir o assassino, um jovem de 16 anos, que alegou à polícia que a vítima havia pego uma faca após a recusa, o que parece uma óbvia mentira para alegar legítima defesa.

Outros casos incluídos são flagrantemente não motivados por homofobia. Fabiana Braz Conceição e Daniella Silva Gomes, um casal, foram mortas a tiros numa moto porque eram traficantes e disputavam com outros traficantes o controle do tráfico em sua região em Goiânia.

Resultados da checagem são surpreendentes

Dos casos colhidos na imprensa pelo GGB, foi possível concordar somente que 31 casos foram mortes motivadas pela homofobia no Brasil. Isso significa que o relatório errou em 88% dos casos de homicídio (227 de 258), e que somente 9% dos dados totais (31 de 347) para o ano de 2016 servem para fazer as conclusões que o grupo e a imprensa que o cita fazem.

Figura 2. Resultado da checagem dos dados: a real cara do que foi apresentado como morte por homofobia.

Fantasmagórica e irrefutável “estrutura”

Por que casos como suicídios sem motivos esclarecidos, acidentes e até um casal de lésbicas traficantes mortas pela concorrência do crime foram inclusos? Aqui entra uma decisão teórica das pessoas por trás do GGB: por acreditarem que a homofobia no Brasil é “estrutural”, termo que cria um inimigo fantasmagórico impossível de refutar, toda morte de LGBT no Brasil é presumida como resultado da homofobia. O que o GGB cita para justificar a crença de que a homofobia no Brasil é “estrutural” (seja lá o que isso for)? Os próprios dados, como diz na conclusão de um relatório oficial do Ministério dos Direitos Humanos publicado em 2018: “De acordo com os dados apresentados é possível concluir que a LGBTfobia no Brasil é estrutural”. Repetindo: quando o GGB é pressionado sobre os casos duvidosos, ele cita a “homofobia estrutural” como justificação para incluir toda e qualquer morte de LGBT nos dados. E quando tem de comunicar ao governo a razão de a homofobia ser “estrutural”, o GGB cita os mesmos dados. Parece circular. Curiosamente, o ministério se isenta de responsabilidade pelo conteúdo do relatório oficial, que traz também números do Disque 100 de vítimas de discriminação, ofensa verbal e agressão.

Figura 3. A afirmação acima foi feita pelo GGB a seus críticos. A afirmação abaixo foi feita pelo GGB num relatório escrito conjuntamente com o Ministério de Direitos Humanos (2018).

Vale ressaltar que essa metodologia de incluir toda e qualquer morte de LGBT entre vítimas de homofobia apelando circularmente para uma “homofobia estrutural” não é seguida, por exemplo, pelo FBI, que define crime de ódio como “contra uma pessoa ou sua propriedade motivado em todo ou em parte pelos vieses do infrator contra uma raça, religião, deficiência, orientação sexual, etnicidade, gênero ou identidade de gênero”.  Foi essa orientação que seguimos, e é bem simples: houve motivação homofóbica se há indícios de motivação homofóbica. Presumir a motivação homofóbica sem indícios para tanto tem vários nomes: viés da confirmação e dogmatismo entre eles.

Duas agências de checagem jornalística questionaram uma interpretação dos dados do GGB: que eles mostrariam que o Brasil seria o país que mais mata LGBT por serem LGBT no mundo. Essa afirmação recorrente do GGB é incompreensível, dado que não apresentam números do exterior para comparação (embora incluam dados do exterior nos números nacionais), nem esclarecem como é possível afirmar que o Brasil seria pior que países que punem a homossexualidade com a pena de morte, que evidentemente evitam calcular e divulgar esses números para não chamar a atenção da opinião pública internacional. O Truco, da Agência Pública, classificou essa afirmação como “impossível provar” e a Agência Lupa como “insustentável”. Como mostramos aqui, não é só a comparação do Brasil com o exterior que é “insustentável” e “impossível provar” sobre os dados do GGB: o mesmo pode ser afirmado sobre seus dados a respeito do Brasil.

Conclusão

As pessoas LGBT devem ser livres para buscar a própria felicidade e saúde, das mesmas formas que as pessoas heterossexuais e sem problemas como a disforia de gênero fazem. Liberdades individuais e isonomia perante a lei são, na nossa opinião, a chave da questão. Isolamento, política identitária, sensacionalismo e uso das minorias sexuais como bucha de canhão política são elementos presentes no atual debate público que têm grande potencial de piorar a vida dessas pessoas neste momento de transformação das atitudes e opiniões públicas a seu respeito. A verdade é amiga da causa das liberdades individuais e da democracia. Qualquer número de LGBT mortos por serem LGBT no Brasil é preocupante e exemplo de que a cultura ainda não se transformou o suficiente na direção do respeito ao indivíduo diferente. No entanto, tentativas de inflar esses números, honestas ou não, dificilmente ajudam a qualquer causa justa.

Ao divulgar versões preliminares desta checagem, nós recebemos ataques virulentos dos participantes do GGB nas redes sociais. Membros da nossa equipe que são LGBT foram classificados como “egodistônicos” e “traidores”. Parece que a acusação de homofobia é o instrumento favorito dos autores dos números inadequados para qualquer crítico de seus métodos. É de se estranhar, pois há acadêmicos envolvidos na coleta e divulgação desses dados, e todo acadêmico deveria achar normal o processo de crítica e revisão por pares. Essa reação, também, na nossa opinião, revela outra faceta das razões pelas quais há uma taxa de erro de 88% nesses números.

As estatísticas criminais no Brasil têm muito a melhorar. Não só não temos uma fonte unificada dos números da violência (dependemos bastante de levantamentos vindos da saúde), a taxa de resolução de crimes como o homicídio é em torno de 8%. Antes de cobrar que o Estado preste atenção preferencial a este ou aquele grupo alvo de crimes agravados por motivações torpes como a homofobia, parece prioritário cobrar que o Estado cumpra sua função prometida de prevenir e investigar os crimes e punir os infratores com mais eficiência. Também parece ser necessária uma revisão legal de agravantes por motivações torpes, para que todos os grupos minoritários se sintam contemplados, sem que isso seja usado para inventar novas limitações à liberdade de expressão, que já não é plena no país. A maior aliada da justiça é a verdade. E o maior aliado da verdade é o rigor. Faltam rigor e verdade nos números mais divulgados sobre violência contra LGBT no Brasil.

Planilha com dados completos (original e checagem)

Link externo para a planilha aqui. Atualização: neste novo link é possível encontrar a planilha como um web-aplicativo em que é possível clicar em cada caso (linha da tabela) para abrir automaticamente abaixo da tabela as fontes referentes ao caso.

Como importar diretamente a planilha para o R:

library(gsheet)
url <- construct_download_url("https://docs.google.com/spreadsheets/d/1QdVdDhPLsFomf9edOscMz-hZhIitqwkSuSi3I7XV3Po/")

dados <- read.csv(url(url), skip=1, na.strings = "")

We still reject your panic mode: Bolsonaro and Brazil so far

We at the Secular Humanist League of Brazil (LiHS) have a great deal of sympathy for Spiked Magazine’s “radical humanism” and the work of its editor Brendan O’Neill. We tend to concur with them that resistance to humanism is not only at the right-wing, as it’s normal to assume for almost every not-so-young humanist today after many decades of threats coming from the so-called “religious right”, in the context of the global conversation about human rights, science and progress.

Spiked and O’Neill have been at the forefront of criticism against the identitarian, post-modern-influenced “New Left”. They understand a “radical humanism” means defending freedoms and reason no matter where and no matter against whom. A radical humanist is prepared to lose friends defending humanism. Maybe that’s the “radical” part, even though we wouldn’t normally jump on any bandwagon praising any kind of “radicalism”. Radical ideas are often radically implausible.

The English-speaking world of Spiked and O’Neill’s is not identical, of course, to our Brazilian context. However, the sources that they often criticise are now the same international sources that are panic-mongers about president Jair Bolsonaro, who took office five days ago. As we told the German outlet Humanistisch International, Bolsonaro is no friend of humanism. The idea of humanism is clearly alien to him. However, reason demands not only that we disapprove of him for his ideas and words, but also that we make an accurate evaluation of his actions, not falling prey to panic, which would be both irrational and counter-productive. Unfortunately, this latter response is exactly what many humanists are doing, led by a dispirited radical left that is both among them and among our friends. A radical left that is in many ways anti-freedom and therefore anti-humanism by definition. Anti-freedom, for instance, when making up innovations on the limits of free speech that are not warranted by our received understanding of free speech.

English-speaking people in many ways are accustomed to freedom. It comes naturally to many of them. They wouldn’t imagine that every single social problem can only be solved by government intervention. It might be changing (as it seems to be the case with the outrageous law against ‘offensive’ pornography in Britain), but ever since John Locke and John Stuart Mill, British people don’t often see a lot of difference between liberalism and humanism, for how could we live well as individuals if forces more powerful than us prevent us from doing whatever it is that we want to do as jobs or in our bedrooms? Brazilians are often not like that. Saying some problem must be solved by government intervention is almost a knee-jerk reaction for many. For historical reasons, Brazilians are more prone to see government intervention as normal, no matter the costs to liberty. If you want to pay minimum wage to a single employee, government intervention makes you the “bargain” of one employee for the price of three. If you want to provide services on your own, it’s not uncommon that you’d be obliged by law to pay a third of what you make in taxes. As a result, millions of Brazilians are unemployed or “informally employed”, living on the edges, and suffering.

If a (radical) humanism is pro-freedom, what are we to make of Brazil’s enormous, oppressive, anti-free enterprise government? What are we to make of the many parts of the left-wing who approve of this state of affairs and cry out in anger at every attempt at lessening the heavy presence of the State in the individuals’ lives? English-speaking people on the left must understand that they are often not the same species as Latin American leftists. While socialism has only recently begun to be presented as not so evil as the received wisdom portrays it in the US, it’s never been fully discredited in Latin America, so the element of authoritarianism is always present on both sides of the traditional political divide. To give you a practical example: recently we’ve seen a legitimate, serious Stalinist organisation spreading their word on southern university campuses in Brazil, praising Stalin as the father of the people. Meanwhile, we’ve also seen swastikas drawn in various places during the presidential campaigns, but most if not all of them were the creations of Bolsonaro’s opposition trying to discredit him with false flags. There is, therefore, a double standard here, in which the authoritarian errors of the far right are recognised, but not those on the far left. Yes, we have the full spectrum of being on the left, with non-authoritarians defending nothing but an achievable welfare state, for instance. But with Latin America you never know the full extent of authoritarian elements being eschewed from acceptable, mainstream parties and discourse. Equally wrong is how Bolsonaro’s supporters seem to see every left-wing thing as full Communist.

Bolsonaro has partnered with liberal economists like minister Paulo Guedes, who want less government and more individual autonomy. It’s something very, very new in Brazil. In doing so, Bolsonaro is denying a long past he had as an interventionist member of parliament. If humanism means accepting freedom as a whole, including in the economic area, then there’s reason to be hopeful about Brazil. Of course, this hope needs to be balanced out with Bolsonaro’s conspiracy theories about communists and many social freedoms behind a humanist’s support and concern for minorities and women. But still, we insist that he be judged more on actions than on words, like in fact everyone should be.

But panic-mongering is fashionable. Take The Independent, for instance, in a piece they’ve published about Bolsonaro’s first acts as president. It wrongly claims that food was “seized” from reporters perceived as ideological opponents by Bolsonaro on his inauguration day. It claims Bolsonaro is targeting LGBT people, and all evidence they have of that is his government’s choice of words for an institution that decided that “LGBT” is within “human rights” and therefore need not be mentioned. It might be a step towards persecution, but it’s not sufficient to claim what The Independent has claimed.

Also, so far no lands from natives or quilombolas were expropriated by the government (and expropriation would be more ideologically resonant with the Venezuelan government, fiercely opposed by Bolsonaro, then with his government who claims to respect private property). But yes, the institutions responsible for the demarcation of these lands were changed in a worrisome direction. This piece by the Independent is an exercise on spin, not a level-headed evaluation of what’s happening in our country. It’s shameful, therefore, and it would be rightly criticised by Spiked and O’Neill if they knew what we know.

To summarise:

  • Bolsonaro has yet to do anything extreme. He has not done anything extreme to date, and it’s too early to claim he has.
  • Most of his most extreme words are old, he’s toned down his discourse even though he’s still in the adversarial mode he espoused while running for president.
  • Brazil has serious institutions and there are no legal avenues for Bolsonaro to pursue anything resembling fascism.
  • The left-wing Worker’s Party, who has governed Brazil from 2003 to 2016, has the larger numbers of seats at both chambers of parliament.
  • The Federal Supreme Court is also an independent alternative to curb anything extreme done by Bolsonaro as president.

We at LiHS refuse to fall prey to panic. We will not be pressured by often anti-humanist panic-mongers to see an imaginary Armageddon. To us, Bolsonaro is a continuity in the difficulties we’ve witnessed in the 9 years since we started our work. Difficulties whose source were never restricted to one single political tribe. You can be sure we will not let slide any major actions he could take against our values. But we are not an organisation that serves vacuous political tribalism. Our one and only commitment lies with humanism. Irrational fears are not humanist.

***

Eli Vieira is the president of the Secular Humanist League of Brazil.

Entrevista ao Humanistische International (na íntegra)

No final de outubro uma publicação alemã dedicada ao Humanismo, a Humanistische International, procurou a LiHS pedindo uma entrevista curta, acerca das dificuldades gerais de uma organização humanista no país e quais as perspectivas diante da eleição do novo presidente, Jair Bolsonaro. A entrevista foi requerida e concedida em inglês, com um breve trecho tendo sido traduzido para o português e divulgado na fanpage da LiHS no Facebook. Segue abaixo a entrevista na íntegra, concedida pelo Diretor Executivo Leandro Cardoso Bellato.

Interviewee: Leandro Cardoso Bellato, Executive Director of the Secular Humanist League of Brazil (LiHS)

Q.How many Humanists (people with a non-religious world-view and humanist attitudes) do you estimate are living in Brazil?

A. That is a tricky question, because we lack good data from opinion polls concerning this issue and the Brazilian religious landscape is somewhat different from European and American ones. The vast majority of our people are Christian, most of them Catholic, though most of those who consider themselves Catholic are not attending church weekly nor are they guiding their lives according to papal bulls. There is a rising number of people converting to Evangelical churches; these people are far more passionate about their faith and even politically interested in pushing their views on the rest of society. Virtually any Brazilian will tell you that their experience with proselytizing comes chiefly from Evangelical Christians, who are also marked economically as an underclass or within a newly formed middle class. Although most Brazilians are indeed religious, a big populational fraction guide their lives according to Secular values in public matters and conservative values in private affairs. Which is not to say that it is always a bad form of conservatism – homophobia, for example, is increasingly dying.

A humanist, non-religious world-view, in a strict, well-informed, evidence-based sense, is rare and almost unfindable outside a narrow niche of scholars and scientists. Nevertheless, a less religious mindset seems to be a trend among younger generations, especially those who are richer and more educated: most people interested in our Secular Humanist League (LiHS) are under 30. Thus, the large community of students and fresh professionals coming to and from the biggest universities would comprise most of potential Brazilian humanists.

A census in 2016 showed that we had almost 8 million people studying in universities, and a educated guess would be that around a fifth of them are somewhat closer to a humanist mindset, at most — what amounts to about 1% of our current population.

Q. How many people are engaged for the LiHS?

A. Not so many nowadays, unfortunately. In the past we had more than 3000 people officially affiliated with LiHS, but without any firmer commitment like membership fees. They had shown interest by filling a detailed membership form on our website, which shows some public interest concerning humanist views. Our fanpage on Facebook once reached nearly tenfold that number. But in reality less than 200 people show a sustained interest in that kind of content. Among the staff a maturity has grown that we are competing for minds in the Brazilian public. Sometimes we win: e.g., when we completed a fundraising to send our lawyer to the Federal Supreme Court in less than 24 hours last year – he spoke against allowing faith-based teaching in state-run schools (the Court decided against us). And sometimes we lose: it is clear for us that radical ideologies take minds from our ranks, especially radical progressivism and radical libertarianism. The first one asks letting go of a very important bit of humanism to practice reparative justice and identity politics. The latter demands focus on a sole value dear to humanism – freedom – but is too obsessed about tearing down state power. It is not uncommon to find former members of ours berating us for not following them towards these radical stances that simply are not strictly humanist. Ours is a simpler message, so we pay the price of unpopularity sometimes to avoid defacing our hard-earned place as a voice for simple humanism in a time of ideological unrest.

Q. According to some surveys Brazilians largely describe themselves as religious. Does LiHS therefore represent just a small part of Brazilian society?

A. Yes. As I said before, at most 1% of the Brazilians are potentially humanists. Our Constitution grant us a Secular State, at least in paper, but not always the judicial system and lawmakers are concerned about the Separation of Church and State. It seems plausible that larger portions of Brazilian society, though being personally religious, could appreciate our worldview to promote peace and freedom for all believers and non-believers. LiHS has collaborated with religious people in the past – we invited a few of them as speakers for our first and to date only Brazilian Humanist Congress (2012). Putting things in a global perspective, Brazil holds peacefully a large set of religious groups that are killing themselves around the World, like Jews and Muslims, Hindus and even Shintoists. Although not everything is perfect here regarding a peaceful coexistence among religious groups, we can be called a benchmark-case in the promotion of coexistence between various sects of believers and non-believers.

Q. Which are the main goals of your work?

A. Although our 1988 Constitution granted us a Secular State (specificaly a Laicist one, from the French tradition), that aspiration is still no more than mere beautiful words on a well-intentioned text. Therefore we aim to protect the actual rule of law for everyone, and promote a humanist and secular world-view as a participant in the broader diversity of views in the Brazilian landscape, a world-view that is an objective, scientific, evidence-based, rational and ethical.

Q. What are projects or work fields the LiHS has been engaged recently? And which are the main problems you currently have to deal with?

A. We are active in monitoring trials at the Federal Supreme Court, where we have spoken officially twice to defend the Separation of Church and State. We have some internal projects, chiefly the translation of fundamental texts and the production of educational material. Humanism is still a stranger in Brazil. We promote conversations among potential allies, especially regarding the government’s promotion of unscientific, unethical or uninformed policies and laws. As an example, our country is struggling economically and a large poor population depends on our Public Health System, but unfortunately the government decided to spend a large sum of tax money in „alternative medicine“ like homoeopathy last year. To deal with this problem we have started conversation with the general public, presenting to them the importance of an evidence-based approach to healthcare and why it is unwise to spend public funds on pseudoscientific „treatments“. Sadly, many still see criticism of the government’s decision as an overreach from the scientific community.

Being rich in ideas for projects, we unfortunately lack the ability to fund most of them. Brazil has suffered a great recession and we have felt its force on our funds, which is one of the reasons why we couldn’t host the World Humanist Congress like we had planned in 2017. We depend on donations rather than on membership fees, and donations are very sensitive to the country’s financial health as a whole. Is is tricky to reach the public, even having a large „potentially humanist reservoir“, because Brazil, like many countries in the west, is facing an onslaught of political tribalism and hyperbole fed chiefly by social media but also part of the professional press. More rational views are slower and harder to produce than partisan slogans, easy solutions and polarization, so that puts us at a competitive disadvantage. Some post-modern intellectuals (who are no friends of universalist humanism) have prophesied that every aspect of our lives would be political. That turned out to be a self-fulfilling prophecy. Hardly any topic can be discussed nowadays in Brazil without the predictable degeneration into political crossfire.

Q. How do the Humanists in Brazil feel after the election of far-right Jair Bolsonaro as the new President of Brazil?

A. It’s interesting that you ask how we feel. Respectfully, I think this is the wrong thing to ask. We are all talking too much nowadays about how we feel about things without enough consideration as to how exactly our feelings are rationally justified or what the facts really are. The international press is playing the same game of hyperbole that put Bolsonaro in power. The pattern is very predictable: some horrible thing that he said is unearthed; supporters of that horrible thing are sometimes found among his followers; but no further fact checking comes as to whether he really believes those words, whether he’s recanted any of them (like he has recanted a lot of what he said about gay people), or whether they could be given a more benign interpretation. To make things worse, people like us, who complain about hyperbole and call for moderation, are then accused of being “fascist sympathizers” for not falling prey to desperation. The truth seems to be that Bolsonaro is indeed a politician whose words have close to nothing to be admired but whose actions are somewhat unpredictable due to a recent ideological conversion. He’s indeed right-wing (if he goes “far” in that position, it remains to be seen in his actions), but not fascist because he defends economic liberalism like no Mussolini has ever done; and at the same time, because he’s seen by 57.8 million Brazilian voters as an alternative to decades of crony capitalism and a very inefficient tax system, to many he represents hope.

Bolsonaro’s election would be a shock if it were unpredictable. But many of us saw it coming years ago, as far as late 2015 or early 2016. It must be understood that countries like Germany, the USA and the UK, where many humanists live, reap the benefits of a full liberalism sown long ago by the Enlightenment and political leaders. It’s a very new thing in Brazil, a country accustomed for most of its five centuries of age to strongmen in power acting as if all that is good in society must come from the government. Is economic liberalism (granting Bolsonaro is sincere) at odds with humanism? That’s a question humanists must grapple with. Is an agreement with the left-wing on economics a prerequisite of humanism? Is economic liberty a great force for good in the world, behind the documented world phenomenon of the reduction in poverty?

Whatever the answers to these questions may be, we certainly need a cool head to try and answer them internationally and in Brazil. Despite our many problems and wasted resources, our institutions are working well enough to avoid the worst. There are no active paramilitary groups working in our country and the President-Elect, whoever he was or will be, has limited powers checked by a bi-cameral multi-partisan Legislative system and an independent Supreme Court: regardless of disgusting things Bolsonaro has said, there’s simply no way he can do whatever he wants to. Therefore, our calls to calm and slower rational thinking are justified.

Yes, Bolsonaro seems to be abhorrent to humanism and secularism. So were many of our previous governments. Public money was invested in non-democratic countries, some of them, like Venezuela and Honduras, suffer from famine, arbitrary imprisonments, and summary execution of political opponents. People flee en masse from Venezuela, more than from Syria, despite a socialist government vowing to provide for everything they need. Our former presidents were personal friends with dictators like Fidel Castro, whose illiberal regime once imprisoned homosexuals. A former Brazilian president had even granted political asylum to an Italian terrorist convicted in his own country, Cesare Battisti. As I said previously, our Federal Supreme Court has allowed confessional religious teaching in state-run schools.

The recent past was not an easy time to those — like us — who defend women’s choice during the first weeks of pregnancy, humane euthanasia for fully capable terminal patients, scientific education, evidence-based public policies and so on. We may have words of calmness about Bolsonaro, but we also have a sober and somber evaluation that what was already hard for humanists in Brazil will probably remain just as hard for the next four years and maybe harder. We call for support, but not a support against an imaginary fascism or a hyperbolical return to dictatorship. We call for support to continue our work and for Brazilian humanists to work harder and not los grit and patience.

Our struggles started much before Bolsonaro’s election and we must keep our heads up to endure the same problems for much longer than his service as President. And to do this work properly we must not exaggerate how bad things are or be paralyzed by fear of how bad they could become.

Q.Do you fear severe consequences for being humanist or non-religious as elected President Bolsonaro stated that there was „no such thing as this secular state“ and that „minorities had to adapt to the position of the (Christian) majority“?

A. No. As I said before, humanists and secularists had no great friends in government in the recent past, clinging only to the laws and the Constitution. Bolsonaro says disgusting and revolting things in a daily basis, a personal bad habit of him, and it is possible that he really wants to try some of his nonsensical ideas, but there are laws and institutions limiting his powers. His first act on national TV after his victory in the ballot was a public display of Evangelical faith. That’s not new either. President Dilma Rousseff, impeached in 2016 for fiscal irresponsibility, said years ago that she “balanced herself on the question” of whether God exists. She quickly stopped expressing doubt about God, especially when running for her second term, and she went to an Evangelical church as a public display of (fake?) faith. In a way, what Bolsonaro says is true: there’s no such thing as a secular state in Brazil in practice, but he’s not the only one making sure that this statement is true, the Federal Supreme Court is helping him, along with thousands of city councils that open their public sessions with prayers. Brazilians as a majority don’t seem to know or care that their Constitution mandates a secular state. Atheists and humanists living here all their lives are simply accustomed to daily reminders of that. But still, also in practice, people with radically different beliefs about religion live together peacefully in Brazil, often in the same family. Our mission is to have more Brazilians giving reason a chance and seeing that a happy life is not only possible, but likely, outside religion. We are a small book of liberal, Enlightenment values in a continental shelf of alternatives. We remain optimistic and we’re ready to oppose Bolsonaro if his actions require us to. About his words – we would rather not be bothered by them too much, as we have heard them before and we know how cheap they often are.

Ciência na era da pós-verdade: disputa entre esquerda e direita

De acordo com o Dicionário Oxford Online, pós-verdade refere-se às circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal.

As circunstâncias nas quais isso ocorre são rotineiras, tão rotineiras que já passam desapercebidas. Para o grande público, a prática não é novidade, é recorrente.
Quem nunca se deparou com a a afirmação “…é a minha opinião, respeite-a…’?

Interlocutores frequentemente confundem o direito de livre manifestação com o valor de uma opinião substanciosa, gerando debates ruins e longe de qualquer consenso.

Mas nosso zeitgeist atual não se refere a debates ruins e acalorados em ambientes informais. De uma maneira curiosa e assustadora, as instituições, governos, universidades e empresas passaram a tomar a linha de frente do exercício do irracionalismo.

No livro “Enlightment 2.0: Restoring sanity to our politics, our economy, and our lives“, Joseph Heath narra as características do que ele chama de “conservadorismo de senso comum”. Um conservadorismo sem bases teóricas, apoiado em experiências pessoais e muito difundido entre pessoas de baixa escolaridade. Dentre alguns pontos desse tipo de conservadorismo, está o desprezo pela erudição, como se o exercício da intelectualidade fosse a causa de todos os males modernos.

O que podemos observar na era da pós-verdade é o modus operandi deste conservadorismo, só que disseminado entre diferentes grupos políticos. Embora os objetivos sejam distintos, muitos conceitos comumente encontrados entre grupos de estudantes universitários funcionam de maneira muito semelhante ao conservadorismo de senso comum.

Conceitos como “lugar de fala” e “vivência” tomam o centro de debates e tomadas de decisões em detrimento aos dados acumulados e obtidos de maneira impessoal. É neste ponto que tudo se torna obscuro, já que além do desprezo pela informação formal surgem interpretações equivocadas da realidade. Surge a divisão artificial dos grupos sociais entre opressores e oprimidos, onde não importam os argumentos, apenas as características do emissor.

Aliado a isso há ainda a adoção do relativismo epistêmico, colocando ciência e esoterismo no mesmo patamar. O resultado não pode ser vantajoso. Mas, além dos efeitos negativos, podemos observar alguns padrões de comportamento que caracterizam diferentes grupos políticos. É como se, ao fazer parte de um grupo, o indivíduo assumisse uma cartilha. E, junto da cartilha, surgem as defesas dos conteúdos que contrariam as análises mais refinada de dados.

É neste universo que, enquanto a direita conservadora defende o criacionismo, a esquerda ataca os transgênicos.

Enquanto a direita ataca a origem antropogênica das mudanças climáticas, a esquerda prega o reducionismo sociológico.

Vemos a esquerda celebrando a astrologia e segmentos malucos da direita a ideia de Terra plana.

Programação do evento Pint of Science 2018 divulgada pelo Instagram da TV USP. Segundo a organização, as palestras em destaque já foram canceladas.

Enquanto um lado acusa o conhecimento e a ciência de serem “brancos/machistas/opressores”, outro lado vê na universidade um ninho de “esquerdistas” querendo controlar e expurgar as liberdades individuais.

Exemplos temos muitos, poderia continuar com diversas citações em campos variados das ciências naturais, mas também da economia, da sociologia, etc. O assustador de tudo isso é que ninguém está aberto ao debate. Há uma cartilha política maior associada a cada uma dessas ideias, que se comportam como uma composição de trens. Para os seguidores de tais maluquices, se um vagão sair dos trilhos, todo resto da composição está perdida.

 

Programação de Encontro de graduandos em Biologia. Sobra espaço pra Biologia?

Ou seja, não será fácil nos livrarmos de ideias que se comportam desta maneira.

Esses memes agem como religiões fundamentalistas, as disputas se articulam como pequenas jihads. É nesse cenário que surgem debates vazios. Afinal, o Nazismo é de direita ou de esquerda? Importa? Qual o objetivo de imputar a culpa pelos crimes nazistas em um ou outro grupo se não tirar proveito da situação?

E pelo caráter político, reduzimos tudo a questões políticas. Perdemos em qualidade e na oportunidade de consensos fundamentados, assim como em resultados palpáveis. Recheamos nossas universidades de ideias sem base, de criacionistas, pós-modernistas, terraplanistas, ativistas do Greenpeace, eleitores de Bolsonaros, Lulas, etc. Ao mesmo tempo esvaziamos qualquer possibilidade de debates.

A universidade e demais instituições viram “antros” de dualidades. Os espectros políticos disputam seus espaços, não pela razão, mas pela emoção. E, vagarosamente, todos eles viram pequenos enclaves, longe da realidade, mas excelentes ferramentas na mão de quem interessar.