Evergreen e a Batalha pela Modernidade, Parte 2: Verdadeiros Crentes, "Em cima do muro", e Conformidade de Grupo

 Mais de um mês se passou desde o fiasco da Universidade Estadual de Evergreen, o qual chamou atenção nacional e, desde então, parece que a faculdade só duplicou a insanidade. De acordo com um relatório, após a aparição do professor Bret Weinstein no programa de Tucker Carlson na Fox, muitos de seus colegas exigiram sua demissão por colocar sua comunidade “em risco”. Vou poupar todos os detalhes, pois eles podem ser encontrados em toda internet, mas para uma visão geral rápida, sinta-se livre para recapitular a parte 1.

Em vez disso, este ensaio tenta responder a uma das maiores questões que surgiram do artigo anterior — como poderia ser possível que tantas pessoas, grandes grupos de estudantes e, de fato, disciplinas acadêmicas inteiras sejam tão engambeladas para acreditar na retórica pós-moderna, incluindo que a ciência é um símbolo do patriarcado, e o conceito de saúde é apenas mais uma ferramenta da opressão colonial ocidental? Neste ensaio, vou usar princípios psicológicos sólidos e pesquisa revisada por pares para chegar a algumas conclusões inquietantes, mas que esperançosamente fornecerão uma espécie de roteiro para lidar com ideologias virulentas e patogênicas que roubam das pessoas a sua razão e o seu senso comum.

O cético conhecido Michael Shermer, em seu livro Por que pessoas acreditam em coisas estranhas, identificou dois fenômenos psicológicos: o viés de atribuição (que é a tendência de acreditar que o raciocínio de uma pessoa em especial é melhor do que dos outros) e o viés de confirmação (que é a tendência de escolher evidências que só confirmam a opinião já existente), os quais reforçam um pensamento deficiente. Mas isso não explica o porquê da multidão da Faculdade Estadual de Evergreen ter agido como uma unidade, ou por que, de acordo com a Heterodox Academy, 89% dos acadêmicos parecem ter opiniões políticas semelhantes (de centro-esquerda). Por que tantas pessoas compartilham exatamente as mesmas crenças, por mais estranhas que sejam?

Perguntado de forma diferente, por que muitas pessoas se conformam com as mesmas ideias estranhas?

Para responder a esta pergunta, o psicólogo Solomon Asch na década de 1950 realizou uma série de experimentos para testar os níveis de conformidade de seus indivíduos. Esses indivíduos entrariam em uma sala e ficariam sentados com outros participantes, os quais (sem os primeiros saberem) faziam parte do experimento — chamados de “confederados”. Seria mostrado, então, a esses indivíduos um segmento de linha e pedido para que identificassem uma linha correspondente de um grupo de três outros segmentos de diferentes comprimentos. Cada participante anunciaria oralmente o segmento de linha correspondente.

Aqui é onde as coisas ficaram interessantes. Numa série de ensaios, os confederados foram informados pelo pesquisador para fornecer propositadamente a resposta errada para ver como o participante responderia, mesmo quando apresentado com informações descaradamente falsas. Surpreendentemente, 75% dos participantes também escolheram a resposta errada, pelo menos uma vez, para coincidir com os outros entrevistados (confederados). Quando solicitados em particular para fornecer a resposta, os participantes estavam corretos 98% das vezes, indicando que eles escolheram a resposta errada na configuração de grupo, mesmo quando eles sabiam que a resposta estava obviamente errada.

75% é um número bastante grande, tornando fácil descartar os resultados das Experiências de Conformidade do psicólogo Asch como um acaso. Exceto que esses resultados foram replicados em circunstâncias ainda mais escandalosas. Na infame experiência Smoke Filled Room [Quarto Cheio de Fumaça], do final da década de 1960, os participantes foram colocados em uma pequena sala que lentamente começou a se encher de uma fumaça misteriosa. Quando sozinhos, os participantes invariavelmente se levantavam e abriam a porta para sair e investigar. No entanto, quando colocados na sala com 2 ou 3 outras pessoas que estavam no experimento e disseram para reagir como se não notassem a fumaça, 90% dos entrevistados optaram por permanecer em seus assentos, tossindo, esfregando os olhos, abanando a fumaça e abrindo as janelas, mas não deixando a sala para relatar a fumaça.

Outros experimentos clássicos de psicologia (de uma era anterior a comitês de ética independentes) mostram claramente que a conformidade é um aspecto poderoso de como grupos funcionam e se formam. Alguns desses estudos incluem o experimento de Robber Cave, o experimento da obediência de Milgram — que descobriu que 65% dos indivíduos administraram o que achavam que eram choques de nível máximo em outro participante, quando dirigidos por uma figura de autoridade — até o experimento da prisão de Stanford, os quais demonstraram o quão longe as pessoas iriam de acordo com sua necessidade de conformidade. Embora as metodologias desses estudos (e os padrões éticos) não se sustentem hoje, eles ainda fornecem uma visão sobre o porquê de grandes grupos frequentemente compartilharem pontos de vista totalmente unilaterais e às vezes bizarros.

Certamente o ambiente da cidade universitária deve sentir-se como uma panela de pressão intensa para aqueles que optam por abster-se do pensamento conformista. À medida que mais e mais indivíduos se conformam ao ponto de vista dominante, o grupo de abstêmios continua a encolher, exercendo ainda mais pressão sobre a minoria em declínio para se conformar ou arriscar-se inteiramente ao banimento do grupo. Desta forma, as pequenas cidades e comunidades em que a maioria das faculdades estão localizadas invariavelmente servem como experimentos de conformidade autônomos em ação.

Em seu livro seminal The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements [O Verdadeiro Crente: Pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massas], Eric Hoffer descreve o “verdadeiro crente” como uma pessoa descontente que busca colocar seu controle fora de si e direcionado a um forte líder ou ideologia. Desta forma, eles buscam “auto-renúncia”, submetendo suas próprias crenças e ideias pessoais a um coletivo maior. Mais importante ainda, o verdadeiro crente se identifica com o movimento tão fortemente, que não precisa do movimento para cumprir algum requisito psicológico, que, mesmo quando apresentado com evidências contrárias, o verdadeiro crente não vê solução, exceto intensificar ainda mais a crença.

Isso é exatamente o que aconteceu com os Seekers, um culto com sede em Chicago que previu um cataclismo alienígena que ocorreria em 21 de dezembro de 1954. Os discípulos venderam todas as suas propriedades em antecipação ao apocalipse, mas quando o evento não ocorreu, em vez de se recuar para refletir sobre onde tinham errado, eles cortejaram a imprensa para atrair mais consciência e mais convertidos para sua causa. O psicólogo de Stanford, Leon Festinger, que estudou este caso, resumiu da seguinte maneira: “Um homem de convicção é um homem difícil de mudar. Diga-lhe que você não concorda e ele se afasta. Mostre-lhe fatos ou números e ele questiona suas fontes. Apele à lógica e ele não consegue ver o seu ponto de vista.”

Este caso parece indicar que tentar convencer o verdadeiro crente é uma causa perdida. Mas os grandes movimentos não são compostos apenas por verdadeiros crentes. Na verdade, eu argumentaria que os verdadeiros crentes (juntamente com as pessoas no topo, que são muitas vezes charlatões, mas eu divago) compõem apenas uma pequena porcentagem de qualquer movimento. Pode-se passar por cada um dos momentos mais vis da história, como o período nazista, por exemplo, e encontrar um padrão semelhante, no qual uma certa ideologia pode ter mantido suporte flexível em grande escala, mas que apenas uma pequena fração foi diretamente responsável pelas ações do movimento.

É esta vulnerabilidade flexível que é digna de uma maior consideração e é mais diretamente relevante para a pesquisa anterior sobre conformidade. Eu chamo esse grupo de “em cima do muro”, pois eles podem estar operando sob crenças que não sofreram escrutínio, mas, como os indivíduos nos estudos Asch e no Quarto Cheio de Fumaça, apenas querem se adequar aos padrões do grupo. Como resultado, eles podem ser muito mais propensos a mudar suas opiniões quando expostos a normas alternativas de grupo. De fato, uma das maiores realizações do Asch em sua série de experiências foi que os níveis de conformidade foram baseados no tamanho do grupo. A conformidade aumentou com o tamanho do grupo, mas se estabilizou uma vez que o tamanho atingiu quatro ou cinco pessoas. Além disso, a conformidade também aumentou quando outros membros do grupo foram vistos como tendo maior status social.

Levando em consideração essas conclusões, a configuração universidade/faculdade é o sonho do conformista. Desde o primeiro dia, os calouros estão expostos a ideias e a crenças das figuras de autoridade (professores) e aos pares mais antigos (veteranos) e muitas vezes encontram essas mesmas ideias em sessões de pequenas e grandes classes. Neste ambiente, a maioria dos jovens são impressionáveis e impotentes para combater ou contrariar qualquer ideia jogada no seu caminho, não importa o quão sem sentido sejam. Usando este cenário perfeito como imagem, alguém poderia converter um conjunto inteiro de mentes jovens em acreditar que qualquer coisa, da terra é plana para o sexo biológico é uma construção social (oh, espere!). As ideias em si não importam, são meramente softwares intercambiáveis; é a configuração, o próprio hardware, que atua como uma poderosa máquina geradora de meme, e isso deve ser alterado antes que ele se separe do design humano e assuma vida própria, como é feito em Evergreen.

Mas apenas porque as pessoas afirmam acreditar em uma ideia não significa que elas acreditem internamente. Os psicólogos identificaram diversos tipos de conformidade. Por exemplo, a conformidade normativa refere-se à mudança de comportamento para atender às normas do grupo, enquanto a conformidade informacional é quando uma pessoa procura o grupo para decidir o que pensar ou acreditar. Eu identificaria como conformidade informacional aqueles indivíduos descritos acima como “em cima do muro”. Eles podem não ter crenças fortes ou possuir algumas crenças que contradizem as atitudes prevalecentes, mas decidem se conformar ao pensamento coletivo apenas para se conformar. Este grupo pode ser muito grande e pode explicar alguns dos fenômenos sociais mais interessantes das últimas décadas.

O cientista social Timur Kuran, em seu livro Private Truths, Public Lies [Verdades Privadas, Mentiras Públicas] identifica um conceito que ele chama de “falsificação de preferências”, no qual os indivíduos articulam preferências socialmente apropriadas, mas que não refletem o que realmente acreditam. Isso explica por que vários movimentos sociais, como as revoluções russa e iraniana, pegaram completamente os observadores de surpresa. Mais recentemente, os Estados Unidos ficaram atônitos quando Donald Trump desafiou virtualmente todas as maiores pesquisas e ganhou as eleições presidenciais. A teoria da falsificação de preferência sugere que as grandes curvas de sentimento existem além da consciência social e só precisam ser aproveitadas para que as comportas se abram e que mudanças de grande escala ocorram.

Vamos agora levar todas essas ideias para suas conclusões naturais, a fim de obter uma compreensão de como os modernistas podem combater sistemas de crenças perigosamente ridículas, dentro e fora da academia:

1) O ambiente do campus é um ambiente ideal para o movimento da conformidade, a partir de professores e, em seguida, escalando rapidamente para o corpo estudantil.

2) Uma porcentagem elevada de indivíduos indicará publicamente coisas que eles sabem que são evidentemente erradas para se adequar.

3) Com base no precedente histórico, eles provavelmente incorporam uma porcentagem muito maior de qualquer movimento do que os verdadeiros crentes.

4) Estes “em cima do muro” podem mudar rapidamente sua opinião em massa se sentirem apoio social suficiente para desafiar a conformidade do status quo.

5) Uma vez que a conformidade é maior quando os indivíduos estão expostos a pontos de vista de grupos de pelo menos quatro ou cinco indivíduos, é imperativo que aqueles “em cima do muro” sejam expostos a numerosos exemplos de evidências contraditórias.

Então, quais são as amplas implicações? Eu posso explorar isso mais adiante em uma Parte 3 se houver interesse suficiente, mas em breve, os oponentes do pós-modernismo devem continuar a articular seus pontos de vista com a maior clareza e frequência possível. Todos os artigos, comentários e ensaios se somam. As pessoas precisam ver que há um grande movimento de indivíduos que não concorda com anti-ciência, de modo que torna-se mais seguro se alinhar com eles. Além disso, as universidades devem adicionar requisitos para que todos os estudantes de humanas tomem pelo menos uma ou duas classes nas ciências duras, a fim expô-los a pontos de vista alternativos — como vocês sabem, ciência. Tenho certeza de que outros leitores e comentadores terão suas próprias ideias para adicionar, mas espero que este ensaio forneça uma estrutura áspera e justificativas claras para criar uma oposição modernista clara e organizada à pseudociência. As apostas nunca foram maiores.

 

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Escrito por Michael Aaron para Quillette
Traduzido por Douglas Ramos e Gisele Gandin para a LiHS

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