Crer na inexistência ou não crer na existência?

Alguns crentes dizem que os ateus têm que “ter fé” para “crer na inexistência de deus”. Dai eu respondo:

Sendo ateu eu não estou “crendo na inexistência de deus”, eu estou “não crendo na existência” (a diferença é sutil). Eu estou abdicando de usar o verbo crer (que, quando se usa sem provas, significa ter fé). Eu não estou exercendo a ação de crer.
Eu não preciso fazer força (ter fé) para “não acreditar”. Se não tem provas, eu passo ao largo. Acreditar sem provas é ter fé, é fazer um esforço para crer sem ter as evidências, mas “não acreditar” é algo que se faz justamente por não ter provas, não é preciso esforço, é natural não acreditar quando não se tem provas. Seria como eu dizer que tenho que fazer um esforço para ser um “não-colecionador de selos”, enquanto na verdade o “colecionador de selos” é que precisa fazer o esforço de colecionar.

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3 comments

  • Homero Ottoni 25/08/2011  

    Olá Gregory, pessoal

     

    Estamos, me parece, derrapando no termo “acreditar”, talvez mais que nos termos discutidos propriamente, agnóstico, ateu, teísta, deísta. Tenho evidências e razões para crer, como colocou o Gregory, se aproxima mais de uma conclusão do que de uma crença.

     

    Quando teístas, por exemplo, alegam que “todo mundo acredita em algo”, estão tentando aproximar ambas as possibilidades do termo ‘crer”, de modo a validar a crença sem base, derivada da fé, da crença embasada, uma conclusão.

     

    O problema se torna maior com a “descrença” pela falta de evidências, uma posição básica para o ceticismo, mas não muito bem compreendida pela posição teísta. Não crer, ou crer que não existe, por falta de evidências ou razão, é uma uma posição logicamente sustentável, enquanto crer sem evidências, não é.

     

    Além da proposição que apresenta, Gregory, como “x existe” ou “x não existe”, podemos considerar também “x tem evidências de existir” ou “x não tem evidências de existir”.  Acho que fica claro neste trecho seu:

     

    Gregory: “E sei porque você começou essa discussão, é o motivo mais comum para que os ateus comecem-na: “o teísta replica que eu tenho fé na inexistência de Deus”. O problema é que é um erro responder da como você e vários outros ateus respondem.”

     

    Eu entendo, mas acho que o erro só existe se deixarmos o termo “fé” se confundir com “crença”, e “crença” com “conclusão”.

     

    Quando o teísta afirma que temos “fé” na inexistência de deus, ele equiparar as condições, entre crer e descrer. Quando respondemos da forma como fazemos, estamos na verdade tentando definir com mais precisão esses termos, e mostrar que não é possível equiparar a “crença/fé” na existência de deus, com a “crença/conclusão” na inexistência, baseada na falta de evidências.

    Mais ou menos o que você mesmo apresentou como resposta válida para essa afirmação.

     

    Toda essa discussão viaja entre aspectos concretos e não concretos, subjetivos e objetivos, e os termos vagueiam junto. Ateu como conclusão, ateu como estado, teísmo, deísmo, agnósticos que não creem em deus, mas suspendem o julgamento, agnósticos que não veem forma de decidir, etc.

     

    Tomando ateísmo como um estado, tudo o que não acredita ativamente em deus, é ateu. Tomando como conclusão embasada na falta de evidências (o que significa ter se debruçado no problema de avaliar evidências), um espaço para agnosticismo se abre. 

     

    Em todo caso, é uma das discussões mais interessantes (e divertidas, para mim), embora um tanto subjetiva e filosófica demais as vezes.

     

    Um abraço.

     

    Homero

     

  • Gregory Gaboardi 25/08/2011  

    Homero,

     

    Não vejo muito sentido em colocar “conclusão” na discussão. Uma conclusão é aquilo que deve seguir das premissas em um argumento, é aquilo que se pretende demonstrar ou inferir. No emprego comum de “conclusão” geralmente queremos dizer que, por alguma razão, aceitamos certa posição: “Minha conclusão é que…”, “A conclusão a que chegamos é que…”. Se formos honestos e afirmarmos, por exemplo, “Concluo que a Lua é menor que a Terra”, estaremos expressando que acreditamos que a Lua é menor que a Terra, que temos esta crença. Porém, o fato de ser uma conclusão não faz com que deixe de ser uma crença (seja ela amparada em evidências ou não, porque também podemos concluir coisas pela fé). Uma conclusão alcançada não deixa de ser uma crença e não há porque deixar de dizer que é uma crença: todas as conclusões que as pessoas alcançam são crenças (mas nem todas as crenças são conclusões, algumas são premissas, embora toda crença possa em um momento ser premissa e em outro ser conclusão). Não vejo sentido em dizer que crenças ou crenças justificadas são “conclusões”, primeiro porque elas não precisam ser conclusões, segundo porque não deixam de ser crenças. No fundo, Homero, me parece que você só está insistindo em identificar crença com fé.

     

    Quando um teísta diz “Todo mundo acredita em algo” o que suponho que devemos responder é “Sim, e daí?”. Ele pode achar que é o mesmo que dizer “Todo mundo precisa ter fé em algo”, se for o caso terá de ser apontado o erro que comentei abaixo.

     

    Sobre “descrença”, é um termo desastroso pela sua ambiguidade: significa ausência de crença ou crença na negação? É um termo que deveria ser banido destas discussões, até porque me parece desnecessário e talvez resulte exatamente do equívoco que estou criticando. Você mesmo, Homero, acaba de identificar não crer com crer que não existe:

     

    Não crer, ou crer que não existe, por falta de evidências ou razão, é uma uma posição logicamente sustentável, enquanto crer sem evidências, não é.”

     

    Não é uma posição, são duas e muito diferentes. Não crer que está chovendo é muito diferente de crer que não está chovendo. Uma pessoa em coma pode não crer que está chovendo, mas ela não pode crer que não está chovendo.

     

    Por fim, também não vejo sentido nessa concepção de ateísmo como estado. Pedras, formigas, bolas de futebol e supermercados não são ateus. E não melhora se for remendado com “tudo que pode acreditar em Deus”: um adulto que nunca teve contato com qualquer religião e nunca pensou em divindades (seja para aceitá-las ou negá-las) não pode ser considerado um ateu da mesma forma que um adulto não sabe o que é democracia não pode ser considerado um a-democrata. 

     

    Abraço.

  • José Serrano Agustoni 25/08/2011  

    Gregory,

     

    aproveitando o gancho, quando dizes:

     

    “…um adulto que nunca teve contato com qualquer religião e nunca pensou em divindades (seja para aceitá-las ou negá-las) não pode ser considerado um ateu da mesma forma que um adulto não sabe o que é democracia não pode ser considerado um a-democrata.”

     

    É exatamente a questão que coloco em outra postagem minha:

    http://ligahumanista.org/profiles/blogs/uma-crian-a-nasce-neutra

     

    Abraço