Evergreen e a Batalha pela Modernidade, Parte 2: Verdadeiros Crentes, “Em cima do muro”, e Conformidade de Grupo

 Mais de um mês se passou desde o fiasco da Universidade Estadual de Evergreen, o qual chamou atenção nacional e, desde então, parece que a faculdade só duplicou a insanidade. De acordo com um relatório, após a aparição do professor Bret Weinstein no programa de Tucker Carlson na Fox, muitos de seus colegas exigiram sua demissão por colocar sua comunidade “em risco”. Vou poupar todos os detalhes, pois eles podem ser encontrados em toda internet, mas para uma visão geral rápida, sinta-se livre para recapitular a parte 1.

Em vez disso, este ensaio tenta responder a uma das maiores questões que surgiram do artigo anterior — como poderia ser possível que tantas pessoas, grandes grupos de estudantes e, de fato, disciplinas acadêmicas inteiras sejam tão engambeladas para acreditar na retórica pós-moderna, incluindo que a ciência é um símbolo do patriarcado, e o conceito de saúde é apenas mais uma ferramenta da opressão colonial ocidental? Neste ensaio, vou usar princípios psicológicos sólidos e pesquisa revisada por pares para chegar a algumas conclusões inquietantes, mas que esperançosamente fornecerão uma espécie de roteiro para lidar com ideologias virulentas e patogênicas que roubam das pessoas a sua razão e o seu senso comum.

O cético conhecido Michael Shermer, em seu livro Por que pessoas acreditam em coisas estranhas, identificou dois fenômenos psicológicos: o viés de atribuição (que é a tendência de acreditar que o raciocínio de uma pessoa em especial é melhor do que dos outros) e o viés de confirmação (que é a tendência de escolher evidências que só confirmam a opinião já existente), os quais reforçam um pensamento deficiente. Mas isso não explica o porquê da multidão da Faculdade Estadual de Evergreen ter agido como uma unidade, ou por que, de acordo com a Heterodox Academy, 89% dos acadêmicos parecem ter opiniões políticas semelhantes (de centro-esquerda). Por que tantas pessoas compartilham exatamente as mesmas crenças, por mais estranhas que sejam?

Perguntado de forma diferente, por que muitas pessoas se conformam com as mesmas ideias estranhas?

Para responder a esta pergunta, o psicólogo Solomon Asch na década de 1950 realizou uma série de experimentos para testar os níveis de conformidade de seus indivíduos. Esses indivíduos entrariam em uma sala e ficariam sentados com outros participantes, os quais (sem os primeiros saberem) faziam parte do experimento — chamados de “confederados”. Seria mostrado, então, a esses indivíduos um segmento de linha e pedido para que identificassem uma linha correspondente de um grupo de três outros segmentos de diferentes comprimentos. Cada participante anunciaria oralmente o segmento de linha correspondente.

Aqui é onde as coisas ficaram interessantes. Numa série de ensaios, os confederados foram informados pelo pesquisador para fornecer propositadamente a resposta errada para ver como o participante responderia, mesmo quando apresentado com informações descaradamente falsas. Surpreendentemente, 75% dos participantes também escolheram a resposta errada, pelo menos uma vez, para coincidir com os outros entrevistados (confederados). Quando solicitados em particular para fornecer a resposta, os participantes estavam corretos 98% das vezes, indicando que eles escolheram a resposta errada na configuração de grupo, mesmo quando eles sabiam que a resposta estava obviamente errada.

75% é um número bastante grande, tornando fácil descartar os resultados das Experiências de Conformidade do psicólogo Asch como um acaso. Exceto que esses resultados foram replicados em circunstâncias ainda mais escandalosas. Na infame experiência Smoke Filled Room [Quarto Cheio de Fumaça], do final da década de 1960, os participantes foram colocados em uma pequena sala que lentamente começou a se encher de uma fumaça misteriosa. Quando sozinhos, os participantes invariavelmente se levantavam e abriam a porta para sair e investigar. No entanto, quando colocados na sala com 2 ou 3 outras pessoas que estavam no experimento e disseram para reagir como se não notassem a fumaça, 90% dos entrevistados optaram por permanecer em seus assentos, tossindo, esfregando os olhos, abanando a fumaça e abrindo as janelas, mas não deixando a sala para relatar a fumaça.

Outros experimentos clássicos de psicologia (de uma era anterior a comitês de ética independentes) mostram claramente que a conformidade é um aspecto poderoso de como grupos funcionam e se formam. Alguns desses estudos incluem o experimento de Robber Cave, o experimento da obediência de Milgram — que descobriu que 65% dos indivíduos administraram o que achavam que eram choques de nível máximo em outro participante, quando dirigidos por uma figura de autoridade — até o experimento da prisão de Stanford, os quais demonstraram o quão longe as pessoas iriam de acordo com sua necessidade de conformidade. Embora as metodologias desses estudos (e os padrões éticos) não se sustentem hoje, eles ainda fornecem uma visão sobre o porquê de grandes grupos frequentemente compartilharem pontos de vista totalmente unilaterais e às vezes bizarros.

Certamente o ambiente da cidade universitária deve sentir-se como uma panela de pressão intensa para aqueles que optam por abster-se do pensamento conformista. À medida que mais e mais indivíduos se conformam ao ponto de vista dominante, o grupo de abstêmios continua a encolher, exercendo ainda mais pressão sobre a minoria em declínio para se conformar ou arriscar-se inteiramente ao banimento do grupo. Desta forma, as pequenas cidades e comunidades em que a maioria das faculdades estão localizadas invariavelmente servem como experimentos de conformidade autônomos em ação.

Em seu livro seminal The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements [O Verdadeiro Crente: Pensamentos sobre a natureza dos movimentos de massas], Eric Hoffer descreve o “verdadeiro crente” como uma pessoa descontente que busca colocar seu controle fora de si e direcionado a um forte líder ou ideologia. Desta forma, eles buscam “auto-renúncia”, submetendo suas próprias crenças e ideias pessoais a um coletivo maior. Mais importante ainda, o verdadeiro crente se identifica com o movimento tão fortemente, que não precisa do movimento para cumprir algum requisito psicológico, que, mesmo quando apresentado com evidências contrárias, o verdadeiro crente não vê solução, exceto intensificar ainda mais a crença.

Isso é exatamente o que aconteceu com os Seekers, um culto com sede em Chicago que previu um cataclismo alienígena que ocorreria em 21 de dezembro de 1954. Os discípulos venderam todas as suas propriedades em antecipação ao apocalipse, mas quando o evento não ocorreu, em vez de se recuar para refletir sobre onde tinham errado, eles cortejaram a imprensa para atrair mais consciência e mais convertidos para sua causa. O psicólogo de Stanford, Leon Festinger, que estudou este caso, resumiu da seguinte maneira: “Um homem de convicção é um homem difícil de mudar. Diga-lhe que você não concorda e ele se afasta. Mostre-lhe fatos ou números e ele questiona suas fontes. Apele à lógica e ele não consegue ver o seu ponto de vista.”

Este caso parece indicar que tentar convencer o verdadeiro crente é uma causa perdida. Mas os grandes movimentos não são compostos apenas por verdadeiros crentes. Na verdade, eu argumentaria que os verdadeiros crentes (juntamente com as pessoas no topo, que são muitas vezes charlatões, mas eu divago) compõem apenas uma pequena porcentagem de qualquer movimento. Pode-se passar por cada um dos momentos mais vis da história, como o período nazista, por exemplo, e encontrar um padrão semelhante, no qual uma certa ideologia pode ter mantido suporte flexível em grande escala, mas que apenas uma pequena fração foi diretamente responsável pelas ações do movimento.

É esta vulnerabilidade flexível que é digna de uma maior consideração e é mais diretamente relevante para a pesquisa anterior sobre conformidade. Eu chamo esse grupo de “em cima do muro”, pois eles podem estar operando sob crenças que não sofreram escrutínio, mas, como os indivíduos nos estudos Asch e no Quarto Cheio de Fumaça, apenas querem se adequar aos padrões do grupo. Como resultado, eles podem ser muito mais propensos a mudar suas opiniões quando expostos a normas alternativas de grupo. De fato, uma das maiores realizações do Asch em sua série de experiências foi que os níveis de conformidade foram baseados no tamanho do grupo. A conformidade aumentou com o tamanho do grupo, mas se estabilizou uma vez que o tamanho atingiu quatro ou cinco pessoas. Além disso, a conformidade também aumentou quando outros membros do grupo foram vistos como tendo maior status social.

Levando em consideração essas conclusões, a configuração universidade/faculdade é o sonho do conformista. Desde o primeiro dia, os calouros estão expostos a ideias e a crenças das figuras de autoridade (professores) e aos pares mais antigos (veteranos) e muitas vezes encontram essas mesmas ideias em sessões de pequenas e grandes classes. Neste ambiente, a maioria dos jovens são impressionáveis e impotentes para combater ou contrariar qualquer ideia jogada no seu caminho, não importa o quão sem sentido sejam. Usando este cenário perfeito como imagem, alguém poderia converter um conjunto inteiro de mentes jovens em acreditar que qualquer coisa, da terra é plana para o sexo biológico é uma construção social (oh, espere!). As ideias em si não importam, são meramente softwares intercambiáveis; é a configuração, o próprio hardware, que atua como uma poderosa máquina geradora de meme, e isso deve ser alterado antes que ele se separe do design humano e assuma vida própria, como é feito em Evergreen.

Mas apenas porque as pessoas afirmam acreditar em uma ideia não significa que elas acreditem internamente. Os psicólogos identificaram diversos tipos de conformidade. Por exemplo, a conformidade normativa refere-se à mudança de comportamento para atender às normas do grupo, enquanto a conformidade informacional é quando uma pessoa procura o grupo para decidir o que pensar ou acreditar. Eu identificaria como conformidade informacional aqueles indivíduos descritos acima como “em cima do muro”. Eles podem não ter crenças fortes ou possuir algumas crenças que contradizem as atitudes prevalecentes, mas decidem se conformar ao pensamento coletivo apenas para se conformar. Este grupo pode ser muito grande e pode explicar alguns dos fenômenos sociais mais interessantes das últimas décadas.

O cientista social Timur Kuran, em seu livro Private Truths, Public Lies [Verdades Privadas, Mentiras Públicas] identifica um conceito que ele chama de “falsificação de preferências”, no qual os indivíduos articulam preferências socialmente apropriadas, mas que não refletem o que realmente acreditam. Isso explica por que vários movimentos sociais, como as revoluções russa e iraniana, pegaram completamente os observadores de surpresa. Mais recentemente, os Estados Unidos ficaram atônitos quando Donald Trump desafiou virtualmente todas as maiores pesquisas e ganhou as eleições presidenciais. A teoria da falsificação de preferência sugere que as grandes curvas de sentimento existem além da consciência social e só precisam ser aproveitadas para que as comportas se abram e que mudanças de grande escala ocorram.

Vamos agora levar todas essas ideias para suas conclusões naturais, a fim de obter uma compreensão de como os modernistas podem combater sistemas de crenças perigosamente ridículas, dentro e fora da academia:

1) O ambiente do campus é um ambiente ideal para o movimento da conformidade, a partir de professores e, em seguida, escalando rapidamente para o corpo estudantil.

2) Uma porcentagem elevada de indivíduos indicará publicamente coisas que eles sabem que são evidentemente erradas para se adequar.

3) Com base no precedente histórico, eles provavelmente incorporam uma porcentagem muito maior de qualquer movimento do que os verdadeiros crentes.

4) Estes “em cima do muro” podem mudar rapidamente sua opinião em massa se sentirem apoio social suficiente para desafiar a conformidade do status quo.

5) Uma vez que a conformidade é maior quando os indivíduos estão expostos a pontos de vista de grupos de pelo menos quatro ou cinco indivíduos, é imperativo que aqueles “em cima do muro” sejam expostos a numerosos exemplos de evidências contraditórias.

Então, quais são as amplas implicações? Eu posso explorar isso mais adiante em uma Parte 3 se houver interesse suficiente, mas em breve, os oponentes do pós-modernismo devem continuar a articular seus pontos de vista com a maior clareza e frequência possível. Todos os artigos, comentários e ensaios se somam. As pessoas precisam ver que há um grande movimento de indivíduos que não concorda com anti-ciência, de modo que torna-se mais seguro se alinhar com eles. Além disso, as universidades devem adicionar requisitos para que todos os estudantes de humanas tomem pelo menos uma ou duas classes nas ciências duras, a fim expô-los a pontos de vista alternativos — como vocês sabem, ciência. Tenho certeza de que outros leitores e comentadores terão suas próprias ideias para adicionar, mas espero que este ensaio forneça uma estrutura áspera e justificativas claras para criar uma oposição modernista clara e organizada à pseudociência. As apostas nunca foram maiores.

 

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Escrito por Michael Aaron para Quillette
Traduzido por Douglas Ramos e uma tradutora anônima para a LiHS

Um caso de corporativismo policial

No dia 18/08/2017 o Tribunal de Justiça Militar (TJM) do estado de São Paulo determinou, através da Resolução 54/2017, que policiais militares apreendam objetos relacionados à apuração de crimes dolosos contra civis. Com acesso livre para potencialmente alterar a cena do crime, esta resolução corporativista desautoriza uma investigação independente — normalmente realizada pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) da Polícia Civil — e dificulta a transparência das investigações internas da Polícia Militar, implicando em possibilidade de aumento da impunidade.

Após recolhidos os objetos, a Polícia Militar requisitaria os serviços laboratoriais da Polícia Civil, mas a investigação do ocorrido permaneceria sob a tutela da Polícia Militar. A violência policial no Brasil é bastante elevada. No primeiro semestre de 2017 a Polícia Civil paulista atendeu mais cenas de letalidade policial (189) do que civil (147), totalizando 459 óbitos envolvendo a atuação de policiais em serviço ou à paisana — um aumento de 13,8% em relação ao primeiro semestre de 2016.

O Sindicato dos Delegados acionou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) requisitando a imediata suspensão desta resolução. O Conselho da Polícia Civil emitiu ofício à Secretaria de Segurança Pública, também pedindo pela imediata reversão da resolução 54/2017. A Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP entende que tal resolução é um retrocesso e que, ao permitir que policiais militares sejam tratados com condescendência pelos tribunais militares, pode servir como uma “licença para matar”.

Abaixo um excerto da Resolução 54/2017, emitida pelo presidente do TJM, Silvio Hiroshi Oyama:

Art. 1º Em obediência ao disposto no artigo 12, alínea “b”, do Código de Processo Penal Militar, a autoridade policial militar a que se refere o § 2º do artigo 10 do mesmo Código, deverá apreender os instrumentos e todos os objetos que tenham relação com a apuração dos crimes militares definidos em lei, quando dolosos contra a vida de civil.
Art. 2º Em observância ao previsto nos artigos 8º, alínea “g”, e 321 do Código de Processo Penal Militar, a autoridade de polícia judiciária militar deverá requisitar das repartições técnicas civis as pesquisas e exames necessários ao complemento da apuração dos crimes militares definidos em lei, quando dolosos contra a vida de civil.
Art. 3º Nos casos em que o órgão responsável pelo exame pericial proceder a liberação imediata, o objeto ou instrumento deverá ser apensado aos autos quando da remessa à Justiça Militar, nos termos do artigo 23 do Código de Processo Penal Militar.
Art. 4º Nas hipóteses em que o objeto ou instrumento permaneça no órgão responsável pelo exame pericial e somente posteriormente venha a ser encaminhado à autoridade de polícia judiciária militar, esta deverá também prontamente, quando do recebimento, efetuar o envio desse material à Justiça Militar, referenciando o procedimento ao qual se relaciona. Parágrafo único – O mesmo procedimento deverá ser adotado pela autoridade de polícia judiciária militar quando do recebimento do laudo ou exame pericial.
Art. 5º Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
REGISTRE-SE. PUBLIQUE-SE. CUMPRA-SE.
SILVIO HIROSHI OYAMA
Presidente
GABINETE DA CORREGEDORIA
A LiHS entende que é necessário promover o Estado de Direito e as seguridades fundamentais aos indivíduos, entre elas a presunção de inocência, a proporcionalidade penal e o direito à vida, além de isonomia legal dos cidadãos. Pelo enorme potencial corporativista desta resolução, possibilitando um aumento da impunidade aos policiais militares envolvidos em homicídio doloso de civis, ela é um retrocesso dos direitos civis paulistas e um afronta aos Direitos Humanos, principalmente num contexto de crescente número de óbitos oriundos de operações policiais.

15 anos depois: por que ainda acreditamos na Tábula Rasa?

por Malhar Mali, na Aero Magazine.

Uma vez vi no Twitter um antropólogo cultural se referir ao “embuste” de Steven Pinker ao abordar um psicólogo evolutivo que o irritara. Algum tempo depois, em outra visita à rede social, vi uma socióloga e teórica de estudos de gênero/masculinidade/pós-colonialismo dizer muito polidamente a outra professora: “oi Diana, lembro-me de apresentar minha visão de que psicologia evolutiva é mais uma seita do que um campo de estudos sérios. Fui muito generosa“.

Achando essas discussões muito engraçadas, comecei a ponderar por que tantas disciplinas têm esse desprezo e repugnância por novas ciências e seus praticantes. Seria preocupação acerca da inclusão das linhas condutoras do racismo e do machismo da academia em nossa cultura, preocupações certamente nobres, ou seria outra coisa? Aconteceu de eu estar em meio à leitura de Tábula Rasa, de Steven Pinker, quando encontrei essas batalhas no Twitter. Nem é preciso dizer que, para quem leu o livro, aquelas discussões apresentavam padrões familiares.

Sei que estou atrasado, o livro de Pinker foi lançado há 15 anos e provavelmente foi usurpado por muitos outros trabalhos que abordaram as mesmas áreas. Esta não é uma resenha comum, já que há muitas desde que o livro foi lançado. É apenas uma pequena recapitulação de algumas poucas ideias apresentadas por Pinker e como elas permanecem relevantes.

O livro é, depois de cerca de 60 tediosas páginas de teor mais biológico e neurológico explicando as razões de humanos terem características inatas — denotando-as como probabilísticas, o que é importante, e não como determinísticas — um ataque a muitas ideias que as pessoas ainda mantêm neste mundo: a tábula rasa (“a mente não tem características inatas”), o bom selvagem (“a sociedade corrompe as pessoas; nascemos puros, sem egoísmo”) e o fantasma na máquina (“uma alma que existe independentemente de nossa biologia”). Após mostrar que tais crenças não são verdadeiras, Pinker apresenta meticulosamente por que elas são promulgadas na academia e se infiltraram na mentalidade popular, e por que tantos aderem a elas, mesmo quando a maioria das evidências aponta para o contrário.

Sei da omissão das razões biológicas do comportamento humano em algumas partes das humanidades e ciências sociais, mas muito da minha surpresa com esse livro está na descoberta de como cientistas de boa fé (“cientistas radicais“, como Pinker os chama) são responsáveis por ignorar e ofuscar os resultados das novas ciências e maltratar seus praticantes. Por exemplo, Stephen Jay Gold, a quem eu considero um confiável divulgador da ciência, participou de uma campanha com Richard Lewontin para desacreditar a Sociobiologia de E.O. Wilson, amontoando-o aos eugenistas e darwinistas sociais. Pinker também nos conta da antropóloga Margaret Mead — a mesma pessoa que disse algo tão inspirador quanto “nunca duvide que um grupo pequeno de pessoas pensantes e comprometidas possa mudar o mundo; de fato, esta é a única forma de fazê-lo” — conscientemente negando os efeitos dos genes no comportamento humano e denegrindo os proponentes das novas ciências, mas dizendo à sua filha em privado que ela creditava seus próprios talentos intelectuais aos seus genes. Os protestos, calúnias e difamações que Pinker nos relata, perpetrados por ativistas e acadêmicos e direcionados a indivíduos que ousaram explorar as raízes da natureza humana, são, quando lidos uma década e meia após o lançamento de seu livro, tão perturbadores quanto proféticos.

Qual foi o ímpeto dessas ações vindas de pessoas que, de outra maneira, são indivíduos educados e cientistas (de boa fé)? Pode-se especular. Um entendimento caridoso seria que eles temem perpetuar desigualdades (e seus discípulos persistem no temor). Sobre isso, Pinker escreveu:

“Reconhecer a natureza humana, muitos pensam, é endossar racismo, machismo, guerra, ganância, genocídio, niilismo, políticas reacionárias, e negligência contra crianças e os menos favorecidos.”

E porque, como Pinker diz após informar os leitores que as novas ciências escolheram a pior década pra se concretizarem:

“Ao invés de desvincular as doutrinas morais das científicas, o que garantiria que o relógio não retrocederia, não importando o que saísse do laboratório e do campo, muitos intelectuais — incluindo alguns dos cientistas mais famosos — promoveram o maior esforço para conectar as duas.”

Essa é uma área traiçoeira e estou francamente surpreso que Pinker se manteve ileso após a publicação de suas ideias. Reconhecer a natureza humana hoje, as diferenças sexuais, violência, acasalamento, potencial humano e genocídio parece uma maneira segura de ser academicamente insultado como “racista/machista” e de fundamentar a crença alheia de que se está tentando justificar desigualdades. Mas suponho que sua reputação seja reflexo do quanto ele é cuidadoso ao refutar cada falácia e reação visceral que se pode ter ao aceitar a natureza humana — e nos mostrando que rejeitá-la pode levar a políticas e concepções que promovem o sofrimento.

Eu também compartilhei de algumas preocupações dos “cientistas radicais”: se o ambiente não é tão responsável pelo comportamento humano quanto as pessoas pensam, isso não nos deixaria com uma visão determinística da sociedade (onde aceitamos violência e belicosidade como intrínsecas à humanidade)? As pessoas merecem mesmo ser exatamente da forma como terminaram? E isso não nos levaria a nefastas e doentias pseudo-justificações de superioridades e perigosos declives escorregadios?

Mas Pinker lida com essas reações automáticas demonstrando que atrocidades em escala industrial também decorrem da crença em sermos Tábula Rasa. Elas não são domínio de uma única ideologia; como Pinker nota, “tanto a ideologia Nazista quanto a Marxista levaram à mortandade em escala industrial, embora suas teorias psicológicas e biológicas fossem opostas”.

Tomemos os Nazistas: um líder ganha poder e implementa um plano de dizimar toda uma população, a qual ele crê estar conspirando contra seu povo, e porque ele considera sua “raça” geneticamente superior. Pode-se parar aqui, talvez como o “cientista radical” e seus seguidores, e perguntar: “bem, não é melhor acreditar e assegurar que somos todos iguais, para impedir que essas coisas aconteçam de novo?“. Então Pinker oferece sua réplica: Mao e o Khmer Vermelho de Pol Pot, que exterminaram muito mais gente do que Hitler, explicitamente promoveram a visão de Tábula Rasa da humanidade. Acreditar que todos os seres humanos nascem iguais em tendências, características e talentos leva seus aderentes a se perguntar por que alguns se saem melhor que outros. Classe, riqueza oculta, conspirações, etc, são todas respostas oferecidas para essa questão. Aqueles que foram considerados burgueses carregavam um estigma permanente em regimes pós-revolucionários, sendo perseguidos como “camponeses ricos” e privilegiados.

É por isso que intelectuais que não são comunistas, as classes educadas e os burgueses foram tão severamente perseguidos — e frequentemente enviados aos Campos de Extermínio. Por causa da crença de que estavam colhendo privilégios não permitidos aos seus conterrâneos. De acordo com o historiador Paul Johnson, escrevendo sobre o Khmer Vermelho em seu livro “Tempos Modernos: uma história do mundo de 1920 ao ano 2000“:

“Tinha de ser ‘revolução social total’. Tudo sobre o passado era ‘atavismo e deveria ser destruído’. Era necessário ‘reconstruir psicologicamente membros individuais da sociedade’. Implicava em ‘cortar fora, através do terror e de outros meios, as bases tradicionais, estruturas e forças que moldaram e guiaram as vidas individuais’ e então remodelá-las de acordo com as doutrinas do partido, impondo um novo conjunto de valores.”

Para Pol Pot e o sistema de seu Khmer Vermelho, a sociedade foi corrompida e precisava ser reconstruída. Considere seu bordão implicando que a cultura aprendida havia nos infectado — e que nascemos puros (o [mito do] Bom Selvagem):

“apenas os recém-nascidos são imaculados”

Dado tudo isso, eu esperaria que a questão “por que este livro permanece relevante?” começasse a se responder sozinha. Idéias relacionadas à Tábula Rasa continuam sendo promovidas em nossa cultura popular, mídia e mesmo nas políticas públicas. Da criação dos filhos aos resultados das diferenças entre os sexos e violência, Pinker aponta que muitas noções consideradas verdadeiras são contrastadas por descobertas em campos como a genética comportamental. De seu prefácio:

“A ideia de escrever este livro veio quando comecei a colecionar estonteantes afirmações de especialistas e críticos sociais acerca da maleabilidade da psiquê humana: que garotinhos discutem e brigam porque são encorajados a fazê-lo; que crianças gostam de doces porque seus pais os usam como barganha para comer vegetais; que adolescentes competem em aparência e moda por causa de ditados e prêmios escolares; que homens pensam que o objetivo do sexo é o orgasmo por causa da maneira como foram socializados. O problema não é apenas que essas afirmações são ridiculamente absurdas, mas que seus locutores não percebiam que diziam coisas que o senso comum questionaria. Esta é a mentalidade de uma seita, na qual crenças delirantes eram exibidas como provas da piedade de alguém.”

Se hoje alguém olha ao redor, crenças similares que revogam nossa natureza humana compartilhada e atribui nossas ações à cultura, socialização e sociedade são muito comuns. A crença de que apenas representando homens e mulheres em proporções iguais em todos os lugares poderemos eliminar o machismo. A crença de que é a sociedade que molda o que consideramos atraente. A crença de que boa educação pode controlar praticamente todas as facetas de como uma criança se tornará. A crença de que violência é aprendida. A crença de que representações de imagem e mídia constroem nossa realidade (e que a única forma de lutar contra esse controle é através de mais representação).

O capítulo intitulado “As Artes” é particularmente refrescante. Visitei ambos os museus, o de Arte Moderna em NY e o do Louvre, em Paris. Apenas um deles me fez questionar se eu não podia perceber o mérito das exibições, ou se eu simplesmente não era suficientemente apreciador da teoria e intenção artísticas por trás das obras.

Menciono minhas visitas não para me gabar, mas porque queria ter lido as palavras de Pinker antes de visitar o Museu de Artes Modernas: “a equalização pós-moderna de imagem e pensamento não só transformou diversas disciplinas acadêmicas em tralha como trouxe lixo ao mundo da arte contemporânea”. Alguns movimentos artísticos acham que se trocarmos as imagens e o que nelas é representado, mudamos os pensamentos. Como contraste, Pinker nos oferece seu pensamento:

“Uma vez que reconhecemos o que o modernismo e o pós-modernismo fizeram às humanidades e às artes, as razões de seu declínio e queda ficam demasiado óbvias. Tais movimentos são baseados numa falsa concepção da psicologia humana, a Tábula Rasa. Falharam em aplicar a mais alardeada de suas habilidades — descartar as pretensões — a si próprios. E tiraram a diversão da arte!”

Já posso ouvir a repulsa dos doutos. Mas o que Pinker aponta é que seres humanos têm preferências limitadas, específicas (e não apenas culturalmente moldadas) acerca do que consideramos admirável. Nenhuma quantidade de teoria explicando por que e como estruturas hegemônicas de poder controlam o que a sociedade considera “belo” são capazes de explicar por que eu e tantos outros consideramos a arte moderna… insípida.

Parece a mim um problema que haja entre nós aqueles que ainda querem acreditar que são majoritariamente a cultura e a sociedade que moldam os indivíduos — e que, portanto, apenas fixados em consertar nossos sistemas nós podemos amenizar o sofrimento humano. Ao contrário, nós precisamos de um entendimento pleno da natureza humana em todos os seus detalhes. O mais preocupante é que esse livro veio a público há 15 anos e ainda estamos atolados em discussões nas quais Pinker despendeu muito tempo refutando (a versão de bolso tem 430 páginas).

Apesar de longo (e velho), Tábula Rasa é uma leitura importante a todo aquele que não quer viver num mundo de fantasia. Um mundo no qual o único motor do comportamento humano é a sociedade, enquanto milhões de anos de evolução são descartados por oferecerem, às vezes, algumas verdades que, quando mal formuladas, são consideradas inconvenientes. A natureza humana e nosso comportamento são assuntos fascinantes e maravilhosos, e não podemos chegar a seu âmago se rejeitarmos um enorme número de descobertas replicáveis acerca de suas componentes genéticas e evolutivas.

É hora de se preocupar com o futuro da liberdade de expressão

“Anúncios que perpetuam estereótipos de gênero serão proibidos no Reino Unido, mas não no bom e velho EUA!”, se encontra em uma manchete recente no site Jezebel. Palmas para o “bom e velho” EUA por continuar a valorizar o direito fundamental da livre expressão, você pode dizer. Ou talvez não.

Por que uma feminista – ou qualquer um – comemora a ideia de dar poder aos burocratas para decidir como falamos sobre estereótipos de gênero? Porque, hoje em dia, os valores fundamentais significam cada vez menos para aqueles que acreditam que ouvir algo desagradável é a pior coisa que pode acontecer.

Às vezes você precisa de um censor – diz a escritora do site Jezebel, porque propagandas nefastas como a do “Big Yogurt” têm “atacado mulheres por décadas.” Ela e os britânicos, aparentemente, não acreditam que as mulheres tenham a capacidade de fazer escolhas como consumidoras ou [que tenham] força interior para ignorar os anúncios que vendem iogurtes probióticos.

É por isso que o Comitê de Prática de Publicidade do Reino Unido (e cara, é preciso muita força de vontade para não usar o clichê “orwelliano” para descrever um grupo precisamente com esse tipo de ferocidade) é uma ideia tão inteligente. Isso proibirá, entre outras coisas, comerciais em que os membros da família “criam uma bagunça, enquanto uma mulher é a única responsável por limpá-la”, que sugere que “é uma atividade inadequada para uma garota porque está estereotipicamente associada a meninos, ou vice-versa” e aqueles em que “um homem tenta e falha em executar tarefas domésticas parentais.”

Se você acredita que esse tipo de coisa é responsabilidade do estado, é improvável que você saiba muito sobre Constituição. Eu não estou tentando atacar essa escritora. A aceitação a restrições de discursos é um problema crescente entre millennials e democratas. Para eles, as noções opacas de “justiça” e “tolerância” aumentaram para superar a importância da liberdade de expressão.

Você pode observar isso em personalidades da TV como Chris Cuomo, ex-presidente do Partido Democrata Howard Dean, em prefeitos de grandes cidades, e no Escritório de Marcas e Patentes dos EUA. E, também, na Senadora Dianne Feinstein (D-Calif.) discutindo restringir a liberdade de expressão em sistemas universitários públicos. São os principais candidatos políticos argumentando que o discurso aberto dá “ajuda e conforto” aos nossos inimigos.

Se não é o Big Yogurt, é o Big Oil ou o Big isso-ou-aquilo. Os democratas durante anos fizeram campanhas para revogar a Primeira Emenda e proibir o discurso político por causa da “equidade”. Esta posição e suas justificativas são abastecidas pelo mesmo combustível ideológico. No entanto, acredite ou não, permitir que o estado censure documentários é uma ameaça maior à Primeira Emenda do que os tweets do presidente Donald Trump zombando a CNN.

Tratam-se de autoritários como Laura Beth Nielsen, professora de sociologia da Universidade Northwestern e professora de pesquisa da American Bar Foundation, que defende a censura em um importante jornal como Los Angeles Times. Ela afirma que o discurso de ódio deve ser restrito e que “o discurso de ódio racista tem sido associado ao tabagismo, à hipertensão arterial, à ansiedade, à depressão e ao transtorno de estresse pós-traumático e requer estratégias complexas de enfrentamento”. Quase todo censor na história da humanidade argumentou que a fala deveria ser restringida para equilibrar algumas conseqüências prejudiciais. E quase todo censor na história, mais cedo ou mais tarde, continuou expandindo a definição de prejudicial até que os direitos de seus adversários políticos acabassem.

Você pode ver onde isso está acontecendo ao ver a Europa. Descarte os argumentos de declive escorregadio se quiser, mas na Alemanha, onde o discurso de ódio foi banido, a polícia invadiu casas de 36 pessoas acusadas de publicar “conteúdos ilegais”. Uma lei aprovada no mês passado na Alemanha diz que as empresas de mídia social podem enfrentar multas de milhões de dólares se não removerem discurso de ódio dentro de 24 horas. Quando os debates sobre imigração estão em alta na Alemanha, a ameaça de abuso dessas leis é grande.

Na Inglaterra, um homem foi recentemente condenado a mais de um ano de prisão depois de ter sido culpado por incitar ódio religioso com uma estúpida postagem no Facebook. Há políciais de crimes de ódio que não só buscam cidadãos que dizem coisas consideradas inapropriadas, mas também imploram para informantes denunciarem as palavras vulgares de seus concidadãos.

Quando eu era jovem, os liberais muitas vezes repetiam uma citação erroneamente atribuída a Voltaire: “Eu desaprovo o que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de dizê-lo”. Isto era usado tipicamente em defesa de obras de arte que eram ofensivas aos cristãos ou aos burgueses — uma pintura suja de Maria, um álbum de heavy metal ruim, etc.

Você não ouve muito disso hoje. É mais provável que ouça: “Eu desaprovo o que você diz, então cala a boca”. O idealismo não é encontrado nas noções de iluminismo, mas sim em identitarismo e em indignação. E se você não acredita nesta exigência da esquerda em mimar cada noção que exibe perigo à liberdade de expressão, você não tem prestado atenção.

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Por David Harsanyi, em Reason Magazine, 21 de julho de 2017. Tradução de Douglas Ramos para a LiHS.